quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Mudar o jeito de resolver problemas

É a hora do tiroteio. Quem foram os policiais, as mulheres grávidas, as crianças despedaçadas a tiros de fuzil do dia? Não ha mais singular nesses relatos. Aonde é mesmo aquele mar de miséria amontoada em barracos de bloco? Qual estado deixou de pagar a polícia agora? Onde é que o crime passou a correr oficialmente solto? Que prisão está tendo a sua quinzena de matadouro? Onde está batendo hoje a epidemia do século retrasado?

A peste, a guerra, a fome e a morte galopam soltas pela geografia do caos dos jacarezinhos, das rocinhas, dos “complexos” e periferias do favelão nacional que vai engolindo o país que nós quase fomos. A toda hora os dois brasis cruzam “a Linha” e a morte sem edição fica registrada num canto de câmera do nosso sistema de hiper-vigilância só das consequências. Não ha como deter isso com polícia. Nada – nem o Exército Brasileiro – resistirá ao contato direto com esse grau de infecção. Enquanto as mães da favela não tiverem um argumento convincente para demonstrar aos seus filhos que vão ganhar mais estudando que pegando o fuzil, o sistema seguirá nos comendo por dentro.

Corta…



É a hora dos “especialistas”. Gente que tem o que vestir, gente que tem onde morar. Mas o Brasil de que eles falam não é esse do Rio de Janeiro. Nada no deles está fundamentalmente errado senão o eleitor que “escolhe” sempre mal. “Basta escolher a pessoa certa. Um homem ético…” (…mas que compre tempo na TV e ponha votos na urna, seja como for…). O compromisso com a impassibilidade chega às raias da lobotomia. Uns só falam do que os outros disseram. Nenhum alarme, nenhum sinal das hemorragias maciças cá de fora. “Se isto, então aquilo“. “Na hipótese um, dois. Na hipótese dois, três“. “O governo perdeu“. “O governo ganhou“. A bolsa sobe ou a bolsa cai mas as tertúlias nunca vêm ao chão. Não ha “país”. As consequências não têm causas e as causas não têm consequências.

É proibido constatar, mas na espreita rosna a Venezuela. É o que resgata o assunto “eleição” da irrelevância absoluta. Mas não ha qualquer espaço para a esperança. É o campeonato do nada. Os “especialistas” estão aposentados. O futuro do Brasil está aposentado.

O Brasil não tem de resolver este ou aquele problema. Tem é de mudar o seu jeito de resolver problemas 
Circulam pela internet um monte de listas de medidas para “resolver o problema nacional”. “Assine aí! Não se omita!” Mudar o nome de um crime, multiplicar penas cujo cumprimento não se exige, “proibir” mais isto ou aquilo, “acabar” com não sei o quê, criar mais uma “politica pública”…

O que nos falta não são mais leis vindas de cima, é poder para o povo de tornar efetivas as suas cobranças. Transparência, fiscalização, ética não se pede. Arma-se a mão do povo para exigi-las contra a sobrevivência do emprego de quem foi contratado ou eleito para entregá-las, assim como se exige (e por isso se entrega) todo e qualquer trabalho contratado no Brasil ou fora do Brasil, menos o público.

As hipérboles são o invólucro da mentira. Toda lei pétrea seria estupida se não fosse como são as nossas apenas desonesta. A única exceção é para a que mantem o jogo sendo jogado. “É proibido tornar antidemocrático o jogo democrático“. Em tudo o mais, amarrar o leme e esperar que o barco ande sozinho é a maneira mais certa de naufragar.

Essa violência das ruas é de fera acuada nas carências da Idade Média em plena era da abundância. É de continuar estrebuchando na doença com a cura ao alcance da mão. É de ser cobrado pelo erro alheio mesmo tendo pago o preço de fazer tudo certo. É da certeza do triunfo da mentira sempre.

O Brasil não tem de resolver este ou aquele problema. Tem é de mudar o seu jeito de resolver problemas. O Brasil precisa de uma revolução: das vitórias irrecorríveis do bem que só as deseleições à mão armada podem garantir. É preciso abrirmo-nos à reforma permanente para habilitarmo-nos a desconstruir, pedra por pedra, esse edifício torto em que nos enfiaram. Os candidatos, que têm “porteiros” com quem se acumpliciar, vá lá. Mas a imprensa não precisa disputar a próxima eleição. É a ela que cabe criar esse novo tipo de demanda no mercado do voto. Nada que precise ser inventado nas redações. É só informar como funciona o mundo que funciona.

Democracia é um “software livre”. Um aplicativo de código aberto. O primeiro passo é montar um sistema real de representação para a nossa “democracia representativa”. Enquanto continuarmos sem saber quem é quem na hora de decidir prevalecerão os seis do STF. E enquanto puderem prevalecer os seis do STF eles serão isso em que se transformaram. Voto distrital puro, com um único representante eleito por cada pedaço da população (para poder ser legitimamente deseleito em caso de necessidade, nada mais) é o jeito testado e aprovado de esclarecer isso. Dizermos nós de que leis estamos precisando com leis de iniciativa popular é o jeito democrático de estabelecer prioridades. Deixar bem claro quem manda em quem com recall para político que trai seu eleitor e para juiz que trai a justiça; desafiar com referendos as leis que saírem deformadas dos legislativos é o jeito democrático de garantir que não haverá falcatruas.

Essas três ferramentas, quando andam juntas e somente quando andam juntas, são infernais. Invertem a direção do vetor primordial de forças sobre o sistema. Põem todo o poder nas mãos de cada cidadão mas só permitem que ele o exerça sobre o seu representante. Dão a todo o mundo o poder de obrigar o governo a se mexer mas a ninguém força bastante para agir sozinho ou para se impor a quem quer que seja.

O Brasil só se salva enriquecendo, e rápido. Mas felizmente não é preciso esperar o resultado inteiro. Basta o poder enriquecer que se destrava com os velhos remédios da política. Não é preciso estudar medicina para salvar a própria vida tomando antibióticos. Eles curam até os idiotas. Democratizar o nosso jeito de resolver problemas daria aos brasileiros a condição de voltar a jogar com as próprias pernas. E os brasileiros sempre se dão bem quando jogam com as próprias pernas. Eles provam isso todos os dias sobrevivendo aos governos que têm.

Fernão Lara Mesquita

O carnaval do Carnaval

Na Quarta-feira de Cinzas de 2015, escrevi uma crônica sobre o carnaval na qual o famoso brasilianista Richard Moneygrand, declarava:

- Acho que vocês enterraram o carnaval!

Naquele ano, o Prof. Moneygrand argumentava que o carnaval, como um ritual de abandono programado das rotinas e como festa de mascaramento da pobreza, iria sofrer abalos num país despertado pela comunicação eletrônica, cada vez mais consciente de suas assombrosas desigualdades sociopolíticas, ao lado de uma endêmica corrupção ironicamente efetuada em nome dos pobres e oprimidos.

- Como é possível continuar “brincando” fantasiado de deuses que imitam o luxo de uma saudosa realeza à brasileira? Como é possível - provocava o professor - exibir-se em carros alegóricos extraordinários, em cidades carentes de segurança, transporte, saneamento, educação, saúde e administradores honestos? De onde sai essa alegra loucura, quando obras públicas desmoronam, há uma batalha entre traficantes e policiais e balas perdidas fazem vítimas rotineiramente? Da profundeza deste indizível sofrimento, o riso carnavalesco-rabaleisiano não seria, ele próprio, a ironia do porco comendo gulosamente o seu toucinho?
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- É preciso - continuou Moneygrand - entender essas festas que promovem o turismo e geram renda ao mesmo tempo que compensam a pobreza e a desigualdade. Nas entranhas das festas, há os aproveitadores e todos sabem como contraventores usam o carnaval como instrumento de legitimação. Num país onde reina a ambiguidade do legal com o delituoso, seria o carnaval o fiel emblema dessa aliança? Sei que tudo isso é teoria e que estou complicando algo muito simples... Mas seria absurdo dizer que o carnaval é uma festa antiga num mundo moderno?

*

Quando, em 1979, publiquei Carnavais, Malandros e Heróis: Para uma Sociologia do Dilema Brasileiro, eu mencionei o elo entre transgressão e carnaval. O carnaval licencioso festejado num Brasil do proibido seria uma contradição em termos. Uma transgressão com hora para começar e terminar. Neste Brasil monárquico e escravocrata, a igualdade era lida como “folia” ou loucura racionalizada pelas normas do sistema. Liberdade e igualdade eram transgressões permitidas só no carnaval. Mas o que ocorre quando instituímos a igualdade republicana?

No fundo, carnavalizar é revolucionar, mas fico somente nisso porque o tema não cabe na crônica.

*

Não estranho que, nesse travoso ano de 2018, no qual o país tem um ex-presidente condenado, governadores presos, a vida se desmanchando numa avalanche de violência, e o prefeito-bispo da cidade governando por ausência (por motivos religiosos, ele não pode nem ver o carnaval...), a festa tenha sido, como previa o brasilianista, politizada.

De fato, onde estaria a “loucura” do carnaval se o cotidiano já havia enlouquecido? Como inverter carnavalescamente o mundo no sambódromo se o mundo real já estava de cabeça pra baixo? Seria, com efeito, surpreendente que o espírito carnavalesco amante do grotesco e da transgressão não fizesse essa irônica teatralização da “vida como ela é” neste Rio de Janeiro que virou uma Pompeia sem Vesúvio.

Quando algumas escolas de samba apresentaram o seu teatro de horrores numa festa da alegria, surge a pergunta que não quer calar: até quando vamos misturar meios e fins? E comer o pão antes de plantar o trigo?

*

A politização não é nova. Ela foi realizada em tempos autoritários pela Beija-Flor e pela Vila Isabel nos anos 80. Isso para não falar dos milhares de carnavalescos anônimos que, em bloco ou solitariamente, parodiavam freiras e padres pecadores, generais covardes, machões femininos e falsos profetas, presidentes e políticos ladrões.

O que chama atenção nesse desfile foi a politização sem a troça e em pleno regime democrático. Não era mais um protesto dos fracos contra os fortes (como no regime militar), mas uma tomada de posição. Nada contra, desde que todas as posições sejam exibidas. Caso contrário, o desfile vira manifestação partidária e se extingue o riso satírico que os poderosos ou a desgraça suportam. Sem a burla que permite rir de nós mesmos, corremos o risco de enterrar o carnaval tal como até agora o fabricamos.

Finlândia

Escravidão não é coisa do passado

Os piores senhores eram os que se mostravam mais bondosos com seus escravos, pois assim impediam que o horror do sistema fosse percebido pelos que o sofriam, e compreendido pelos que o contemplavam
Oscar Wilde

Os gatos não sabem ler

Com a agenda vazia, o Presidente Temer convocou seus marqueteiros de plantão para criar outra. Ensaiou o discurso que lhe prepararam e desfraldou a bandeira do combate à violência no Rio de Janeiro, o que equivale a dizer iniciar uma guerra contra. Pode alcançar vitória temporária, quando os criminosos, traficantes, policiais e políticos envolvidos com a violência pegarão mais leve, saindo do terreno enquanto a cruzada presidencial estiver em ação. Tudo será apresentado como o maior avanço do governo Temer, mas não vai durar. Quando a tropa se recolher, eles voltarão ao mesmo.

Nada contra a luta deflagrada. É evidente que o governo federal não poderia omitir-se da omissão do governador Pezão e antecessores. Mas não deveria transferir dessa forma sub-reptícia a responsabilidade para as tropas enfrentarem a calamidade instalada no Estado, resultante da sua ineficiência, do descaso pelo social, desmandos e corrupção reinante nas administrações federal, estadual e municipal.

O governo jogou nas ombreiras dos generais um problema que é seu, sem se preocupar em apresentar propostas complementares para assegurar a reversão da dramática situação do Rio de Janeiro. Nenhuma das medidas contidas no decreto que oficializou sua decisão representa, por exemplo, investimentos para enfrentar suas causas, que são muitas. Adotadas a vol d’oiseaux, as providências que serão adotadas durante a intervenção federal não refletem qualquer amadurecimento de pensamento sobre como nosso país se tornou um dos 25 mais violentos do mundo.

Combater é um conceito recorrentemente utilizado por dirigentes políticos quando nada mais têm a propor para equacionar problemas que vão surgindo para atrapalhar suas tranquilas existências. Exatamente pela forma equivocada como empregam a expressão, sem se deterem no exame aprofundado sobre como o Brasil chegou a esse estado de coisas, não conseguem engajar as populações na execução das providências anunciadas com estardalhaço como as mais adequadas.

É o que deve acontecer no Rio de Janeiro, onde a maioria da sua população, sobretudo a parcela mais jovem, já não acredita na instalação de uma sociedade justa e igualitária, capaz de promover o desenvolvimento social em iguais condições, onde a violência seja exceção e não a regra brasileira.Com certeza seria diferente se Temer empregasse suas imaginação criadora e tropas de choque para trabalhar por esse modelo de sociedade, existente em muitos países civilizados e do qual o Brasil encontra-se distante como do sol.

Quem imagina Michel Temer liderando uma campanha nacional, com os mesmos recursos que compraram duas vezes sua absolvição pela Camara dos Deputados, em favor da educação, com Moreira Franco bradando profissionalismo para socializá-la e elevar seus níveis? Ninguém, claro. Como o ministro teve a sinceridade de informar ao país, seu grupo não é amador. Sabemos todos o que ele quis dizer.

É preocupante a maneira como Moreira Franco classificou a esperteza do círculo presidencial. Mas poucos ainda se espantam com esse tipo de desfaçatez. O grupo de feiticeiros do Planalto esquenta o caldeirão com outros objetivos. Sob o manto da intervenção federal no Rio de Janeiro, escamoteia estratégias para esconder o despreparo do governo para tornar o Brasil um país mais justo e igualitário. De quebra, garante impunidade e sobrevivência aos procurados pela Lava Jato. Mas o rabo do gato costuma escapulir do esconderijo.

Não mais do que de repente, o sempre obsequioso ministro Dias Toffoli, do STF, lembrou que durante a intervenção federal não é possível modificar a Constituição. Por essa razão, justificou, não sabe quando apresentará seu voto sobre a questão foro privilegiado para os privilegiados de sempre. Isso depois de ter pedido vistas do processo em novembro do ano passado e sete Ministro terem votado pela restrição do seu alcance. Outros rabos felinos continuarão a surgir na cena política nacional.

Diversos fatores contribuem para aumentar a violência no Brasil. Estamos cansados de saber que uma delas é a escandalosa desigualdade social, traduzidas em miséria, fome, desemprego e a falta de programas e ações sociais públicas capazes de reverter a dura realidade da maioria da população. Bem como a sensação de injustiça e a crescente impunidade de políticos e parlamentares denunciados, mas dificilmente processados, julgados e sentenciados.

A lista é enorme e a questão batida. Mas bastaria o governo investir na questão educacional para melhorar a vida dos brasileiros, reduzindo, pela educação, a violência que busca combater colocando o bloco na rua. Há cada três anos, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa,na sigla em inglês), realiza grande pesquisa sobre o tema. A última, em 2015, revelou que o Brasil caiu no ranking mundial nas áreas de ciências, leitura e matemática, mantendo milhares de crianças fora da escola, professores mal remunerados e sem formação adequada para educar. Mas os gatos não estão preocupados com a escola. Eles não sabem ler.

Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!


Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:

Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny

A velha faixa do imperador

Gosto de metonímias. É o termo que se refere ao uso de uma palavra fora de seu contexto usual para denotar outro contexto em que a mesma possui uma relação. A parte pelo todo, em resumo. Por exemplo, uma roupa não é necessariamente um tecido. Pode ser um símbolo para classificação social. Uma representação de castas. Ou, somente, uma faixa. Depende do contexto.

Não acompanhei os desfiles das escolas de samba ao vivo, mas logo soube do carnaval que sucedeu. Uma figura se destacou. Com a escravidão através dos tempos como tema, a Unidos da Tuiuti expôs em sua última ala como a prática se perpetua na contemporaneidade. Regendo o carro, o “Vampiro Neoliberal”, um ser de cara fechada e pálida, ostentando uma cabeleira monstruosa penteada para trás e um terno preto brilhante. Ah, e uma faixa presidencial. Poderia ser uma faixa verde com linhas amarelas ao longo do corpo. Entretanto, para a maioria, foi o toque de Midas para fechar o personagem. Quando as campeãs retornaram à Sapucaí no sábado, o sinistro integrante estava presente. Sem sua faixa.

Na segunda-feira, foi publicada uma matéria com o presidente da escola Unidos do Tuiuti, Renato Thor, em que este afirma que a retirada da peça não se deu por temer represálias. Apesar disso, muitos acham que há algo omitido neste contexto. Uma simples mentira, talvez. Muito barulho por nada? Dá samba, com certeza.

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O lado bom em analisar os objetos é a possibilidade de nos aprofundarmos num tópico. Assim que o conhecimento nasce. Porém, outro lado da moeda consiste em nos perdermos justamente daquilo que buscamos em primeiro lugar. Podemos nos apegar a detalhes para preservar mais nosso senso de autojustificativa do que compreender o contexto criado. A diferença entre dinheiro e ouro dos tolos é sutil para quem tem convicções. Provas são alegoria, quando o olhar é capaz de mudar a forma.

Logo após o carnaval, outro grupo anunciou seu acesso ao Rio de Janeiro. A intervenção militar que dará fim à maré violenta que toma a cidade. Surge a certeza institucional de que abater pernilongos é a solução. Para quem está acostumado com febre malária e dengue, drenar o poço é um esforço desgastante. Se é um número de mágica cujos fios estão expostos, é ver para não crer. O que importa é que o cartão postal siga maravilhoso.

Logo, o reaparecimento do Vampiro Neoliberal torna-se relevante outra vez. Independentemente das intenções reais da escola de samba, é a imagem que o governo projeta. Uma criatura trevosa, que aproveita de seu porte para sugar sangue. Com sangue, o governo espera recuperar alguma popularidade. O enredo de insatisfações com o rumo do país prossegue por anos, enquanto o mestre-sala dança uma valsa em meio à bateria. O imperador está sem faixa há muitos carnavais. Será que, ao se olhar no espelho, sentiu falta de algo ao longo do peito? Afinal, se vampiros não têm reflexo, como ele pode saber que está nu? O todo pode ser apenas uma parte de uma questão maior. Olhe mais perto, mas sem perder as beiradas de vista.

Daniel Russell Ribas

Para que servem os ministérios, afinal?

Tenho certeza de que esta pergunta, feita em qualquer país com instituições estáveis e racionais, pareceria uma infantilidade. Formulada no Brasil, será percebida, de imediato, com um sentido dúbio que salta aos olhos. Afinal, para que servem os ministérios?

Você poderia pensar, por exemplo, que o Ministério do Trabalho e Emprego serve para organizar as ações e políticas do governo com vistas a ampliar o mercado de trabalho, formalizar e fiscalizar as relações trabalhistas e coisas assim. Poderia, mas não pensa. No fundo, você sabe que esse ministério pode servir, por exemplo, para que Roberto Jefferson, presidente do PTB, proporcione um mimo à própria filha, com direito a lágrimas de emoção e beijos de gratidão. Não tapemos o sol das fotos com a peneira dos decretos de nomeação. Ademais, o PTB tem, no Congresso, uma bancada de 20 deputados federais e 2 senadores que fazem peso quando o placar de votação fica apertado. Revela-se, assim, outra finalidade dos ministérios: eles são intercambiáveis com votos das bancadas partidárias que se credenciam ao direito de designar seu titular. Enfim, poderíamos seguir alinhando outras utilidades e usos maliciosos dos gabinetes na Esplanada: nomear afilhados, fazer negócios, arrecadar contribuições e comissões, ajudar a mídia amiga, atender a companheirada, angariar prestígio, e por aí vai.

Nos regimes de gabinete, parlamentaristas ou semiparlamentaristas, é a maioria formada por afinidade das bancadas eleitas que escolhe o chefe do governo e governa junto com ele. Quando o governo perde a maioria, por abandono ou traição dentro da base, cai. Esse preceito, ao contrário do que parece, tem consequência muito benéfica na conduta dos parlamentos. No presidencialismo, é o governante eleito que, permanentemente, precisa estar no balcão comprando, voto a voto, uma base que o sustente e isso corrompe o governo e o Congresso.

Se você achava ruim a concessão de um ministério à filha do presidente do PTB com vistas aos votos partidários, imagine a criação de 15 ministérios novos com objetivos semelhantes! Em 2002, o governo federal tinha 24 ministérios. Catorze anos mais tarde, o governo Dilma chegou a seu melancólico fim com 39 cadeiras ao redor daquela mesma mesa. E a vida, como se sabe, só piorou. O governo Temer voltou aos 24 e, agora, está criando o 25º para a Segurança Pública.

Muito mais importante do que reprovar o tipo de negócio feito nos prédios da Esplanada dos Ministérios é compreender o quanto é perniciosa a regra desse jogo político que transforma o governo num loteamento e o voto parlamentar em mercadoria com cotação unitária flutuante na bolsa política. É hipocrisia reprovar o eleitor que vende seu voto quando os membros do parlamento, a toda hora, fazem o mesmo com seu “Sim” e seu “Não” no painel de votação.

Paisagem brasileira

BENEDITO CALIXTO,Praia de Itararé,Óleo sobre Tela,22,5 x 32 cm
Praia de Itararé em São Vicente (SP), Benedito Calixto

Intervenção meia-boca

Como todas as iniciativas demagógicas adotadas para algum fim inconfessável e anunciadas como se tivessem por objetivo o interesse público, que dificilmente será alcançado, a intervenção federal sob chefia militar na segurança pública do Rio é, no popular, meia-boca.

O Estado do Rio de Janeiro está clamando por uma intervenção federal por inteiro há muito tempo, desde, pelo menos, a ampla divulgação da roubalheira superlativa que faz do ex-governador Sérgio Cabral protagonista do maior escândalo de corrupção e má gestão da História. E o atual ocupante do cargo (chamá-lo de governador é uma cínica licenciosidade léxica), Luiz Fernando Pezão, não passa de um capataz com carta branca do antecessor, enquanto este passa uma temporada no inferno prisional. Intervir na segurança e mantê-lo no cargo é um acinte para os fluminenses, que terão de continuar a suportar sua óbvia nulidade, e os brasileiros, que pagam a pesada conta secreta para manter essa fantasia de bloco de sujos.

Charge O Tempo 18/02/2018

No editorial Uma intervenção injustificável, publicado sábado, este jornal já fez a pergunta que não quer calar: o que aconteceu nos últimos dias que justificasse a decretação da medida radical antes de ser debatida e votada no Congresso Nacional a reforma da Previdência? Ao que se saiba, nada! A crônica do fiasco anunciado na conquista dos três quintos de votos dos congressistas para aprovar a reforma, sem a qual não há remendo possível para as contas públicas nacionais, é mero pretexto.

Em nome da busca desse ideal, Temer nomeou o mais truculento cabo de esquadra das hostes que herdou, no pra lá de baixo clero do MDB – à época ainda com o pê, não o do início de pudor, mas, sim, o do meio de impunidade –, do colega Eduardo Cunha, hoje habitante do Arquipélago Curitiba, onde se encontra Cabral. Carlos Marun na Secretaria de Governo é o erro de pessoa no lugar errado. Nomeado para seduzir parlamentares resistentes a uma causa improvável, ele só sabe rosnar e morder.

Se seria injusto inculpar só o valentão de circo com porrete à mão pela derrota na votação capital para o equilíbrio das contas públicas, sua instalação no Palácio do Planalto, à direita de “deus-pai todo-poderoso”, é a mais completa tradução da desistência sem honra da votação e do pretexto para evitá-la. Marun é subserviente a Eduardo Cunha a ponto de figurar entre os gatos-pingados que tentaram evitar sua cassação pela Câmara e de ir visitá-lo na cela, com passagem paga pelo contribuinte. E Marun não seria Marun se não tivesse confessado, como o fez há pouco, que a única atitude de que já se arrependeu até hoje na vida foi, sob pressão, devolver essa despesa. Pois, para ele, tudo o que o chefe manda é legítimo.

Resta a segunda questão: por que intervir pela metade, se Pezão já renunciou a governar o Estado? Não é o que ele fez ao se acoitar em seu berço, Piraí, para fugir do caos momesco na capital do Estado, depois de ter anunciado um plano de segurança sem dados, comprometimento de verbas nem metas à vista? A única explicação (usar justificativa seria um engano semântico) é a conveniência para os remanescentes palacianos – Temer, Moreira e Padilha –, que preferiram evitar a investigação do que Rodrigo Janot chamou de “quadrilhão do PMDB” a encará-la.

Eles são do mesmo partido de Geddel, que, ainda que viva aos prantos na Papuda, nunca deu nem indício de origem e destino dos R$ 51 milhões encontrados num apartamento em Salvador usado pelo clã, também formado pelo mano Lúcio, da fiel base de Temer na Câmara, e “mãinha” Marluce, acusada de usar o próprio closet como caverna de Ali Babá. São da patota de Rodrigo (nome pelo qual se identificou Joesley Batista ao entrar no Jaburu para gravar o presidente) Rocha Loures, recordista dos cem metros com mala com R$ 500 mil, sem dono nem fiel depositário. E de Henrique Alves, aquele lá das Dunas.

Convém não omitir Jorge Picciani, chefão na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro que conseguiu de Eduardo Cunha a nomeação do filhote Leonardo para a liderança da bancada do então PMDB na Câmara, vendeu o voto dele a Dilma e terminou aderindo ao companheiro de primeira hora, Temer. Por mercê dessa virada dupla, Leonardo Picciani é ministro do Esporte no ano da Copa do Mundo e, ao que indica seu sumiço, deve estar dando expediente na Rússia.

A terceira causa (usar razão seria um escárnio gramatical) da intervenção pela metade é que, despojado do disfarce de presidente reformista em plena Quarta-Feira de Cinzas, o atual chefe-geral da súcia resolveu apelar para o velho refrão da violência como tema de enredo que todos os governos adotam, mas nenhum se arrisca a enfrentar de verdade.

Para isso tomou “na moral” a bandeira de Bolsonaro e apelou para os militares de hábito. Assim foi na Eco-92, nos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Mundial da Fifa em 2014 e na Olimpíada de 2016. Sempre no Rio e com idêntico receituário: um acordo com os chefões do tráfico de drogas, que tiraram férias e deixaram a autoridade brincar de ocupação do Haiti nas praias, longe do seu território. Deu certo enquanto duraram os acordos. E agora?

O problema agora é que um objetivo colide com o outro. A violência campeia porque as Polícias Civil e Militar são corrompidas do topo à base, como constatou Torquato Jardim, “escanteado” ministro da Justiça. E isso só é possível porque os gestores públicos fazem vista grossa após serem comprados como o são os subordinados. Como se reprime o crime organizado se se faz isso para impedir que policiais, procuradores e juízes federais da primeira instância tenham mãos livres para combatê-lo? E isso não é só no Executivo. Quem duvida que o Supremo Tribunal Federal julgue (o que já é um absurdo) e até conceda habeas corpus ao criminoso (condenado por corrupção e lavagem de dinheiro) Lula da Silva? E um fato nega outro.

Ninguém vai ficar para assistir ao desfile final

Irônico: a intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro foi decretada pouco mais de 48 horas depois da proclamação do resultado do desfile das escolas de samba. A campeã e a vice-campeã empolgaram as arquibancadas com enredos de forte crítica social. O outro lado da folia: arrastões pela orla e por bares da zona Sul. Não havia como deixar de lembrar um velho samba de Paulo César Pinheiro e Wilson das Neves: “O dia em que o morro descer e não for Carnaval”. Essa música é de 1996 e, por si, evidencia que o problema da violência no Rio de Janeiro não é de hoje. Há 25 anos, por ocasião da Eco-92, a classe média carioca viu-se aliviada porque as Forças Armadas haviam ocupado as praças e avenidas da Cidade Maravilhosa para garantir a segurança do evento. Finda a festa, a violência e as lamúrias voltaram. O mesmo ocorreu nas Olimpíadas de 2016.


Difícil prever o que virá. As raízes profundas dos problemas do Rio não serão arrancadas. Refiro-me à ausência de perspectivas econômicas de largo espectro e à desigualdade social. Os exércitos do comércio de drogas existem porque não há (especialmente com o declínio da atividade petrolífera) alternativas de ocupações lícitas para grande parte da população. Ademais, vale indagar: que tipo de vida é esse em que consumir droga passa a ser imprescindível para que alguém seja “feliz”? Roubo de cargas, assaltos e furtos diversos não passam de acumulação primitiva para a mercancia de entorpecentes. De quebra, o Estado enfrenta uma crise fiscal que inviabiliza qualquer política pública mitigadora do caos fluminense. E, não bastasse a desigualdade social decorrente de um regime tributário regressivo e da evasão fiscal, castas sociais parasitas se apoderaram dos poderes públicos de forma acintosa e fazem ouvidos moucos aos clamores populares. É bom que se diga: esse diagnóstico vale também para o resto do Brasil!

Há quem anteveja, com a intervenção, o declínio do Comando Vermelho e o crescimento do PCC. Os demais governadores da região Sudeste já se mostram preocupados.

A República Velha e os regime autoritários (Vargas e a ditadura de 1964) representaram décadas de controle dos Estados pela União, e nem mesmo assim a questão da segurança pública foi resolvida de forma satisfatória. Chegou-se ao ponto, durante o regime militar, de um oficial do Exército, tido como notório torturador, ter se tornado o líder do cartel do jogo do bicho e, por tabela, das escolas de samba!

E, para culminar, um Michel Temer “sobranceiro”, como se a criminalidade organizada não rondasse os Poderes da República, declara, do alto de sua condição de jurista, que tornará sem efeito, por alguns dias, o decreto de intervenção federal, para que o Congresso Nacional possa votar a reforma da Previdência. Um drible na letra da lei que pode ser descrito – “digamos assim” – como uma fraude à Constituição. Do jeito que anda o Brasil, mequetrefes povoam as instituições e se arvoram em constitucionalistas eruditos.

Isso, quem sabe, pode dar samba para o próximo Carnaval.

Como escravos entravam na Justiça e faziam poupança para lutar pela liberdade

Em 1883, Rita entrou com uma ação na Justiça da Imperial Cidade de São Paulo contra o Tenente Julio Nunes Ramalho. Poderia ser mais um processo qualquer, não fosse um fato notável: Rita não era considerada cidadã pela lei brasileira. Era escrava. Já o Tenente Ramalho era seu proprietário. O objeto do caso era o interesse de Rita de comprar sua liberdade.

De Rita, a Justiça sabia pouco. Não tinha sobrenome, nem idade certa - "38 anos aproximadamente". As informações eram apenas que tinha aptidão para o trabalho e era cozinheira, escravizada por Ramalho.

Por não ser livre, Rita não tinha direito a procurar a Justiça diretamente e precisou de um intermediário para representá-la. Tendo obtido uma doação de 200 mil réis "em moeda corrente deste Império", queria comprar sua alforria. Pedia, então, que seu proprietário fosse intimado para declarar se aceitava ou não a quantia. Seu representante conclui o pedido dizendo que o fazia "a rogo da suplicante, que não sabe escrever".

Cena urbana no Rio de Janeiro, Jean-Baptiste Debret
O Brasil estava mudando. Depois de mais de três séculos, a escravidão se aproximava do fim. Em 1850, havia sido proibido o tráfico negreiro. Em 1871, foi aprovada a Lei do Ventre Livre, que estabeleceu a liberdade para filhos de mulheres escravizadas nascidos dali em diante - como o menino Benedito, a quem Rita deu à luz três anos após a lei.

Além disso, a Lei do Ventre Livre deu às pessoas escravizadas o direito de juntar dinheiro - fosse fruto de doações, do próprio trabalho ou de economias - e, com ele, comprar sua própria alforria, independentemente da autorização do seu proprietário.

Essa alteração legal multiplicou nos tribunais as chamadas ações de liberdade. A de Rita é uma delas. Está armazenada no Acervo Público do Tribunal de Justiça de São Paulo, junto com dezenas de outros processo centenários, em papel envelhecido e texto manuscrito, movidos por pessoas escravizadas contra seus senhores. Além de São Paulo, há casos semelhantes em diversos pontos do país.

"A ação de liberdade quebra a autoridade senhorial, porque passa a existir uma forma de se libertar da escravidão independentemente da vontade do senhor", afirma a historiadora Keila Grinberg, professora da Unirio e da New York University, e uma das maiores especialistas neste tema no Brasil.

"Isso quebra o mito de que a alforria era apenas uma forma de reconhecimento do senhor (aos seus escravos). Nada disso! Eles também foram para a Justiça para conquistar sua liberdade", completa Lúcia Helena Silva, professora da Unesp, que pesquisou as ações de liberdade em Campinas.

Porém, as ações de liberdade não eram um caminho fácil. "Apenas a minoria das pessoas escravizadas conseguia entrar na justiça. A maioria dos escravos nascia e morria escravo", pondera Grinberg.

Junto ao pedido de Rita, foi anexado um atestado médico: "Atesto que a preta Rita sofre de anemia e de artrite crônica, moléstias que por muitas vezes a inabilitam para qualquer trabalho". A informação tinha um objetivo estratégico. "Normalmente, o escravo usava a estratégia de se desvalorizar", explica Lúcia Helena Silva.

"Já o senhor fazia tudo possível para dizer que seu escravo valia muito". No caso de Rita, o Tenente Ramanho respondeu à intimação dizendo que não aceitava os 200 mil réis oferecidos. "Considero ser de maior valor a minha escrava. Há três meses, a comprei pela quantia de 800 mil réis".

Quando não havia concordância sobre o valor da liberdade, como no caso entre Rita e Ramalho, não era o fim do processo. Cabia ao Estado fazer a arbitragem do preço, que as duas partes seriam obrigadas a aceitar. Para isso, o primeiro passo era a pessoa escravizada ser mandada para uma avaliação.

"Depois de haverem examinado a dita escrava Rita, tendo em consideração a idade, saúde e profissão da mesma, (os avaliadores) apresentam os seguintes laudos: Salvador avaliava-a em 500 mil réis. Fernando em 320 mil réis. Em consequência da divergência havida, foi aceito o laudo de 320 mil réis".

O resultado da avaliação foi uma vitória para Rita. O valor estava mais próximo dos 200 mil réis que ela tinha proposto do que dos 800 mil réis pedidos por seu senhor. Por intermédio de seu representante livre, Rita apresentou à Justiça os 120 mil réis que estavam faltando e requereu "que lhe fosse passada a carta de liberdade".

 Desembargadores chegando ao Palácio de
 Justiça no Rio,  Jean-Baptiste Debret
Depois de três meses na Justiça, Rita, que nasceu submetida à escravidão no Brasil, se tornou 
finalmente uma mulher livre.

"Apesar de o Estado e suas leis abrirem portas para dar visibilidade a questões dos escravos, não era fácil iniciar um processo judicial e, menos ainda, terminá-lo", explica a historiadora Heloísa Maria Teixeira, que pesquisou a compra de alforrias em Mariana, Minas Gerais.

Em geral, os escravos que recorriam à Justiça viviam nas cidades. Ali, tinham mais acesso a informação. Também podiam receber apoio de redes de solidariedade, formadas por outras pessoas escravizadas e libertas, além de terem contato com ideias e movimentos abolicionistas. Já para aqueles escravizados na zona rural, entrar na Justiça era muito mais difícil.

Ao consultar os documentos mineiros, Heloísa encontrou o caso da menina Eva, escrava de "mais ou menos 14 anos", nascida na década de 1850. Sua história mostra como o fato de estar na cidade facilita o surgimento de uma rede de apoio.

A madrinha de Eva, que não tinha dinheiro, passou a pedir esmolas na cidade com o intuito de libertar a menina. O processo de Eva, inclusive, elenca uma lista de pessoas que participaram da arrecadação de fundos para compra de sua liberdade. Ao final, a madrinha conseguiu reunir 120 mil réis em dinheiro. O valor foi complementado por um burro entregue pelo pai da menina, no valor de 80 mil réis. Com os 200 mil réis totais, foi comprada a carta de alforria de Eva.

Além de processos de compra de alforria, houve no Brasil diversas ações de liberdade baseadas na ilegalidade da escravidão. Em 1883, por exemplo, Antonio - também sem sobrenome - entrou na Justiça de São Paulo argumentando que sua matrícula de escravo informava ser ele africano e ter 51 anos.

Logo, Antonio teria nascido na África em 1832. Porém, uma lei brasileira de 1831 declarou que era livre todo o escravo vindo de fora do Império do Brasil a partir daquela data. Foi a primeira legislação a tentar coibir o tráfico de pessoas escravizadas para o Brasil. Desta forma, como Antonio nasceu depois da lei, ele havia sido trazido para o país de forma ilegal. Por consequência, sua escravidão também era ilegal.

Seu proprietário tentou contra-argumentar. Afirmou que a matrícula do escravo estava errada e que, na verdade, ele tinha nascido cinco anos antes da lei. Em termos práticos, isso faria com que Antonio não tivesse direito à liberdade. Por outro lado, essa linha de argumentação implicaria o reconhecimento de que um menino de cerca de 5 anos tivesse sido transportado nos navios negreiros e vendido ainda criança no Brasil.

Mas a argumentação do dono de Antonio não foi bem sucedida. O juiz do caso concedeu a carta de liberdade ao "africano". Mas sob a condição estabelecida pelo proprietário: de que o agora ex-escravo prestasse serviços por mais quatro anos para seu antigo senhor e sua esposa. Assim, Antonio ficaria livre apenas em 1887 - um ano antes da Lei Áurea ser sancionada pela Princesa Isabel, decretando oficialmente o fim da escravidão no Brasil.

"Esses juízes e tribunais não eram abolicionistas. Tomavam a decisão baseados naquele caso específico. Ninguém ali estava defendendo o fim da escravidão", diz Grinberg.

Furto adquirido

Alguns acharão pesado ou até indevido o título deste artigo. Mas tenho certeza de que para muitos sua motivação estará correta e oportuna. A Constituição Federal, em seu artigo 5º, que trata dos direitos e garantias individuais, reserva especial proteção ao direito adquirido, ao ato jurídico perfeito e à coisa julgada. Graças a Deus, reconheçamos, porque esse é um fundamento da segurança jurídica, cujo comprometimento seria a causa da instabilidade e da exceção.

Mas o que dizer-se dos direitos adquiridos assim consagrados sem que a própria Constituição cunhasse os critérios de sua materialização? As prefeituras, por exemplo – e essa é uma realidade em todo o país –, abrigam absurdos que permitem sangrar seus Orçamentos para pagar privilégios a funcionários escolhidos a dedo, valendo-se de manobras que dispensam empreender-se qualquer estudo mais acurado para saber que foram objeto de argúcia e espertezas da mais sórdida maquinação.

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Há prefeituras literalmente quebradas, sem recursos para atender seus compromissos mais elementares, nas quais amigos de prefeitos ou ex-prefeitos incorporaram como direito adquirido valores que fazem chegar seus vencimentos a cifras absurdas, sem qualquer constrangimento de seus beneficiários em os receber. O caminho quase sempre passa pelas gretas da legislação, e o instituto do apostilamento desponta como o mais usado. Há prefeituras, ao que se sabe, onde há funcionários com até dois apostilamentos incorporados a seus vencimentos. No Senado, na Câmara dos Deputados, em Assembleias legislativas e Câmaras municipais de todo o país há salários que deveriam ser objeto de ação penal e consequente exigência de devolução de parcelas criminosamente recebidas.

Mas quem tomará tal iniciativa, especialmente em prefeituras, se muitas vezes prefeitos enfiam na administração pública, como assessores de deputados e senadores, suas mulheres, seus filhos, suas amantes, ou quem a eles mais convier? Se todos os dias se tem notícia de que vereadores e até mesmo deputados e senadores – vários assim o fazem – nomeiam como assessores seus parentes, suas empregadas domésticas ou seus jardineiros, ou os pilotos de seus helicópteros, ou ainda – o que chega a ser nojento – cobram participações e metem em seus bolsos parte dos vencimentos recebidos por tais assessores? Há Câmaras municipais em Minas que, sozinhas, têm Orçamentos maiores do que de importantes prefeituras; com toda a autonomia para gastar, pagar, contratar, jogar no lixo ou o que entenderem mais apropriado, ao talante de seu presidente.

Quem julgará como ilegais – porque imorais não há dúvida que sejam – tais trapaças? Nosso Poder Judiciário, que defende, esse sim, uma Lei Orgânica da Magistratura, na qual não cabem mais penduricalhos, farta e diariamente denunciado, como, por exemplo, pelos tão badalados auxílios-moradia e pelas verbas de custeio do ensino dos filhos dos magistrados? O Judiciário, cuja Corte Suprema, com 11 ministros, consegue gastar R$ 620 milhões por ano para manter em seus quadros quase uma centena de secretárias, 90 bombeiros civis, 51 copeiros e garçons, apenas como exemplo? Ou será o CNJ, no qual seus membros, quase todos, ganham muito acima do teto constitucional? A transparência dos atos públicos é, isso sim, um direito adquirido e de toda a sociedade. Vale gritar.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Nossa esquerda

Quanto mais agressiva se mostra, ou finge se mostrar, mais a esquerda brasileira aparece à luz do sol como ela realmente é. Já faz muito tempo que se transformou numa espécie de Federação Nacional das Ideias Mortas. Agora, com as desventuras do ex-presidente Lula e as incertezas quanto ao seu futuro próximo, está se tornando apenas absurda. Seus líderes gritam em público que não existe uma democracia no Brasil no momento, mas escondem-se no Senado Federal e na Câmara dos Deputados para desfrutar das “imunidades parlamentares” que os protegem do Código Penal. Falam em exterminar os adversários, mas na vida real ficam do lado do senador Aécio Neves para impedir que ele seja processado por extorsão; em troca, recebem o apoio de sua turma. Dizem que a Justiça brasileira vendeu-se para permitir a fabricação de provas falsas contra Lula ─ mas continuam entupindo os tribunais com recursos, ameaças e advogados caros. Convocam a população para ir às “ruas” e ali mesmo derrubar o regime. Não reconhecem mais “as instituições”. Propõem que o povo brasileiro, em pessoa, assuma o governo daqui para frente. Nada disso, naturalmente, faz o menor nexo. O resultado prático é que acabam provando, a cada dia mais, que viraram uma contrafação ─ são dinheiro falso, pura e simplesmente, embora não exista nada de simples, e muito menos de puro, em qualquer coisa que façam.

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De onde está vindo essa gente que se vê por aí no papel de “homem de esquerda”? Teoricamente, um agrupamento político com a fúria exibida hoje nos palanques pelo PT e seus satélites, deveria produzir, se não uma revolução, pelo menos uns revolucionários ─ ou, vá lá, uma imitação decente do guerreiro-fantasia das lutas populares, capaz de ter ficha na polícia secreta e assustar um pouco a burguesia. Mas os revolucionários que estão saindo atualmente do forno da esquerda brasileira são uma lástima. Vivem de verbas d
o governo e de instituições internacionais de caridade política. Traficam com cestas básicas, casas populares construídas com dinheiro do erário e financiamentos do Banco do Brasil. Têm direitos e garantias legais ─ que dizem não existir no país, mas usam em seu favor todos os dias. Precisam de ônibus fretados, lanche e pagamento de diária para juntar gente na rua. Atacam propriedades indefesas. Querem criar no Brasil a “Ditadura dos Oprimidos”, como diz o professor Luiz Felipe Pondé, mas estão toda hora correndo para o colo do Ministério Público, atrás de algum tipo de proteção legal.




O grande problema da esquerda brasileira, no fundo, é que seus guerrilheiros têm medo de bala de borracha. O que poderia representar melhor que isso a situação a que chegaram ─ ou o déficit de fibra, têmpera e coragem militar demonstrado por seus movimentos? Um revolucionário com um mínimo de respeito por si próprio não pode exigir, principalmente do governo que pretende “derrubar”, o direito de ser tratado com gentileza pela polícia. Não pode pedir que a autoridade pública elimine qualquer risco de dor física para ele quando vai invadir terrenos, quebrar vidraças ou bloquear a livre passagem dos cidadãos por estradas ou avenidas. O que diria de uma coisa dessas um Lênin, ou mesmo um mero Fidel Castro? Iam para a luta cientes de que o inimigo estava armado, e que faria uso de toda a munição que tivesse; jamais lhes passou pela cabeça requerer ao governo a proibição do uso de algum tipo de bala. Aqui é uma tristeza. Se a esquerda tem medo da bala de borracha, o que dizer, então, da bala de chumbo? Assim não há revolução que aguente.

A força da esquerda nacional, hoje em dia, é unicamente a que lhe é dada pela covardia das autoridades, que morrem de medo dela e de sua presença na mídia. Suas lideranças e “militantes” não existem porque têm por trás de si o apoio das “massas populares”, como dizem. Só existem porque têm, na prática, a permissão do governo para agredirem o direito de ir e vir, cultivarem a baderna como método natural de ação política e destruírem propriedade privada ─ inclusive centros de pesquisa, quando não gostam do objeto das pesquisas. A autoridade, em vez de aplicar a lei, se intimida com as ameaças e concorda em “dialogar”. Na verdade, está protegendo a liberdade de praticar delitos. Nega ao cidadão comum, que tem os seus direitos legais desrespeitados pelos “movimentos sociais”, a proteção permanente que fornece à “militância” da esquerda. É isso. Nossos esquerdistas, no fim das contas, fazem parte do Brasil que dá errado. São o dínamo do atraso. Não vão sair daí nunca.

Do Porto de Santos, de Temer, ao Porto de Nápoles, de 'Gomorra'

Caminha para desaguar no brejo – assim como a Reforma da Previdência, afogada pela intervenção militar e a indicação do General Walter Braga Neto para mandar, de fato, no estado do Rio de Janeiro-, a manobra desastrada (ou desesperada?) tocada pelo novo chefe da Polícia Federal, Fernando Segovia, com o infeliz propósito de abafar ou fulminar de vez as investigações que envolvem o mandatário atual da República, Michel Temer, no rumoroso caso do Porto de Santos.

Pior, mesmo, só o desastre e o quadro indecente de terra arrasada – sem governantes, sem lei, sem segurança e sem perspectivas – que o Rio apresentou ao mundo nos dias do carnaval. Agravado, na madrugada da quinta-feira, deste início da Quaresma , pelo temporal que caiu por lá, em meio às mazelas e omissões de governador e prefeito, trêfegos e ausentes. E, desde sexta-feira,16, sob imprevisível mando militar .

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Vamos por parte, para não transformar em caos definitivo, incluído no rol do “sem jeito”, a situação já suficientemente grave . O JN (TV Globo) divulgou o memorando dos delegados da Polícia Federal do Grupo de Inquéritos do STFl, responsáveis pela investigação de detentores de foro privilegiado. “Em face dos recentes acontecimentos amplamente divulgados pela imprensa, os delegados integrantes deste Grupo de Inquéritos junto ao STF vêm a dar conhecimento de que, no exercício das atividades da Polícia Judiciária naquela Suprema Corte […], não admitirão, nos autos do inquérito 4621/STF ou em outro procedimento em trâmite nesta unidade, qualquer ato que atente contra a autonomia técnica e funcional de seus integrantes, assim como atos que descaracterizem a neutralidade político-partidária de nossas atuações”, diz o memorando em recado duro, direto e de certeira pontaria, em seguida à entrevista de Segóvia, distribuída pela Reuters.

Resta saber se alguém (e quem) vai pagar para ver. Porque se for levada a fundo investigação sobre malfeitos no Porto de Santos – não só neste caso nebuloso da Rodrimar, mas também no largo período de controle do PMDB (Temer à frente) sobre o mais importante complexo portuário do Brasil-, a terra vai tremer. Em 1999, quando presidia o Senado e emendou os bigodes com o atual mandatário , Antonio Carlos Magalhães afirmou, de público: “As coisas morais nunca foram o forte do senhor Temer. Se abrir um inquérito no Porto de Santos, ele ficará péssimo”, disparou ACM.

Portos escondem segredos em suas docas, em seus navios, em seus contêiners e em suas águas. Roberto Saviano – jornalista infiltrado na máfia napolitana -, fala sobre o Porto de Nápoles, no capítulo inicial de seu livro-reportagem, “Gomorra”.: “O contêiner balançava enquanto a grua o deslocava para o navio. Como se estivesse flutuando sozinho no ar, o sprider, gancho que prendia a grua, não conseguia domar o movimento. Suas portas mal fechadas se abriram bruscamente e dezenas de corpos começaram a cair”… Não deve ser a mesma coisa por aqui. Mas há quem desconfie – e até aposte – , que há segredos e esqueletos escondidos também nos contêiners do Porto de Santos. Metaforicamente ou não. Agora é aguardar, para ver onde os delegados da PF vã o chegar.

Vitor Hugo Soares

Guerra de narrativas

Sair do País por um tempo, ainda que breve, sempre é bom. Em especial para nos desintoxicarmos das narrativas que circulam intensamente no Brasil. O Brasil de hoje vive uma guerra de narrativas. Membros do Ministério Público anunciam, a cada instante, que a Operação Lava Jato pode acabar por isso e por aquilo. Outros dizem que as eleições presidenciais só serão legítimas com a participação do ex-presidente Lula na disputa. Ou que a democracia brasileira caminha para o abismo porque o 4º Tribunal Regional Federal confirmou a condenação de Lula e ainda aumentou a pena estipulada na primeira instância. Pelo seu lado, o juiz Sérgio Moro justifica receber auxílio-moradia dizendo que o benefício compensa a falta de reajuste salarial entre a classe, mesmo sendo dono de apartamento na cidade em que vive.

Adversários da Reforma da Previdência afirmam que não existem privilégios a serem combatidos no sistema previdenciário brasileiro. Outros apregoam a impossibilidade de votá-la, embora o tema esteja na pauta. O que será que vai acontecer? Apesar do alarmismo de alguns, a Lava-Jato não morreu nem vai morrer sem antes causar mais estragos na política nacional.

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Lula será ficha-suja e nem por isso a democracia brasileira irá para o abismo. Com ou sem Lula, as eleições serão legítimas. Aliás, mais legítimas do que as últimas, turbinadas pelo doping ilegal e imoral das doações por dentro e por fora (via caixa dois). A reforma da Previdência, apesar de ir contra os interesses das corporações, será aprovada, nem que seja aos poucos e em fatias. Moro e os demais juízes continuarão a receber auxílios diversificados mesmo obtendo reajustes salariais.

A guerra de narrativas sempre fez parte da realidade humana. A questão atual é a sua intensidade, por conta dos avanços tecnológicos. Qualquer um pode se inserir no mundo midiático com suas narrativas pessoais. Daí surgirem, do nada, blogueiros e youtubers a caminho da consagração. Em sendo uma guerra, quem é a vítima? Basicamente, a verdade. O que fazer?

Ter uma postura cética acerca de tudo o que é dito é uma boa decisão. Sabemos que a verdade está contaminada. Aliás, sempre esteve. É preciso filtrar o que é dito. Devemos também desenvolver mecanismos de validação sobre quem diz o quê e como. Afinal, não podemos duvidar de tudo e de todos a todo o momento. Paradoxalmente, duvidar e ter confiança são os melhores caminhos para bem viver no mundo de hoje. A questão é saber como. A saída é a reflexão. Como disse Virginia Wolf, o único conselho que uma pessoa pode dar para outra sobre ler notícias “é não seguir conselho de ninguém, seguir seus instintos, usar sua razão e chegar às suas próprias conclusões”.

Vale para a guerra de narrativas dos tempos atuais.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Guerra dos meninos é anomalia brasileira

Em condições normais, nenhuma intervenção humana seria capaz de alterar a monotonia da curva de mortalidade nas sociedades que venceram obstáculos elementares de nutrição e saúde.

Há um pico inicial na taxa de mortes no primeiro ano de vida, logo revertido, seguido de um incremento suave nas primeiras décadas, que se acentua bastante a partir dos 45 anos. O padrão entre os sexos também segue um curso previsível.
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De 0 a 80 anos, homens morrem mais que mulheres, mas a diferença é altamente concentrada nas três décadas que vão dos 45 aos 75 anos de idade. Características fisiológicas masculinas ainda não acessadas pela medicina provavelmente comandam essa divergência de rotas.

No Brasil, a escala da matança de meninos de 15 a 25 anos modificou o que a nossa economia de renda média faria prever. Essa curta etapa da vida, em que normalmente poucas pessoas morrem e as taxas de mortalidade entre homens e mulheres mal divergem, responde por 8,8% de toda a diferença de mortes entre brasileiros e brasileiras de 0 a 79 anos.

Na Alemanha, que poderíamos tomar por um país normal, apenas 1,2% da diferença na mortalidade entre os sexos ocorre na faixa de 15 a 25 anos. Em resumo, no Brasil morrem sete vezes a quantidade esperada de homens nessa faixa etária. São cerca de 20 mil vidas desperdiçadas a cada ano dessa arriscada juventude.

A violência é o fator que, em conjunto com a estúpida cifra de mortes no trânsito, retira o Brasil da trajetória demográfica que seu nível de desenvolvimento asseguraria. É uma guerra em que meninos matam e morrem aos montes, como naqueles conflitos africanos entre exércitos de crianças. Aqui, entretanto, eles são travados em regiões metropolitanas populosas.

Os senhores que vão tomar conta da segurança no Rio em nome da União deveriam estar cientes desse diagnóstico.

Fred & Ginger.

Seus produtos domésticos são tão poluentes quanto seu carro

A imagem que temos da poluição não voltará a ser a mesma. Uma equipe de cientistas dos Estados Unidos observou, na cidade de Los Angeles, que as emissões de produtos comumente usados em casa — como tintas, vernizes, purificadores de ar, laquê, tintas de impressão, adesivos, pesticidas, cosméticos e produtos limpeza — já contribuem tanto para a poluição atmosférica urbana quanto as emissões de automóveis.

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A explicação são os compostos orgânicos voláteis, hidrocarbonetos que se apresentam em estado gasoso à temperatura ambiente. A atmosfera oxida esses compostos, emitidos por produtos comuns no lar e, através de uma cascata de reações químicas, acabam sendo integrados em partículas suspensas de menos de 2,5 milionésimos de metro. Essas minúsculas partículas entram na parte mais profunda dos pulmões e podem causar doenças respiratórias.

"É surpreendente. Estamos há seis ou sete anos discutindo se era possível. E eu estava entre os defendiam que não era possível", afirma o engenheiro químico José Luis Jiménez, coautor do estudo, publicado na sexta-feira na revista Science. Apenas 5% do petróleo é refinado para obter ingredientes desses produtos para o consumo diário, enquanto 95% é destinado aos combustíveis. No entanto, os pesquisadores afirmam que as emissões de compostos orgânicos voláteis se dividem em 50% entre essas duas fontes em Los Angeles.

"Perfumes, desodorantes, xampus, adesivos, tintas... emitem compostos orgânicos voláteis. Medimos esses compostos na classe da minha universidade, e são muito mais altos pela manhã do que à tarde", explica Jiménez, nascido em Zaragoza, em 1968, e professor da Universidade do Colorado (EUA).

O estudo é baseado em dados coletados na cidade californiana com uma abrangência sem precedentes, mas Jiménez acredita que suas conclusões podem ser estendidas para outros países industrializados. No entanto, reconhece que a falta de dados torna "impossível saber se, na Espanha, é de 15% ou 40%" a porcentagem de compostos orgânicos voláteis emitida por produtos de consumo.


"Os compostos orgânicos voláteis são os grandes esquecidos na avaliação da qualidade do ar", diz Javier Roca, diretor técnico do Laboratório do Centro de Meio Ambiente da Universidade Politécnica da Catalunha. Roca, que não participou do novo estudo, lembra que há compostos orgânicos voláteis extremamente perigosos para a saúde, como o benzeno e o cloreto de vinil; e outros que podem causar danos significativos ao meio ambiente, tais como o acetaldeído, a anilina e o tricloroetileno.

"Cada Governo estabelece limites máximos para cada atividade industrial, e não está claro quais são os tipos de critérios seguidos. O benzeno é o único que aparece nas diretrizes europeias", afirma.

Em 2015, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Castela-Mancha, entre eles a química Florentina Villanueva, analisou os compostos orgânicos voláteis dentro de cerca de 20 casas na cidade de Puertollano, um polo industrial de 50.000 habitantes em Cidade Real. Não encontraram nada preocupante. Para Villanueva, os resultados do estudo de Los Angeles são "surpreendentes".

"Nos países em desenvolvimento, onde grandes quantidades de combustíveis fósseis ou madeira são queimados em ambientes fechados para cozinhar ou aquecer, as emissões de dióxido de nitrogênio ou de partículas podem afetar o ar exterior. No caso de compostos orgânicos voláteis de países desenvolvidos, claramente mais estudos serão necessários para que isso possa ser confirmado", afirma com ceticismo.

Villanueva lembra que não há legislação para o ar interior, enquanto o ar exterior é monitorado por redes de vigilância e sujeito a rigoroso controle. "Por enquanto, minha maior preocupação é como o ar interior afeta a saúde, uma vez que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, passamos 90% de nosso tempo em ambientes fechados, onde as concentrações de muitos poluentes podem ser duas a cinco vezes maiores, como no caso do formaldeído", alerta a pesquisadora. Esse gás incolor, classificado como cancerígeno, é encontrado em pequenas quantidades em muitos produtos de uso diário no lar, como lava-louças, amaciantes e cosméticos, segundo a Agência para o Registro de Substâncias Tóxicas e Doenças dos EUA.

Mario Montes, professor de engenharia química da Universidade do País Basco, acredita que o novo estudo é "impressionante em sua dimensão" e "rigoroso" em sua análise. Na sua opinião, a maior importância relativa dos compostos orgânicos voláteis no ar urbano é uma consequência natural da redução das emissões do tráfego. Na falta de dados concretos, Montes acredita que a situação na Espanha possa apresentar "a mesma tendência, com o habitual atraso em comparação com o que acontece nos EUA".

O novo trabalho foi liderado por pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica e da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, ambos localizados em Boulder (EUA). Jiménez, da Universidade do Colorado, pede tranquilidade: "Não há motivo para se preocupar. É uma oportunidade de sermos mais eficientes. Para reduzir a poluição mais rapidamente, é preciso saber de onde ela vem".

Lápide

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Cada página da história é uma lápide e um epitáfio. Embaixo dessas inscrições dormem os séculos
Raul Pompéia

Viva a ditadura

Abaixo a ditadura. A causa que uniu as esquerdas latino-americanas na segunda metade do século passado já havia se perdido quando o encantamento por Cuba cegou os que escolheram aplaudir os desmandos de Fidel Castro. Agora, diante da tirania venezuelana, foi enterrada de vez. Pior: substituída por “vivas”.

Em defesa do regime insano de Nicolás Maduro, partidos ditos de esquerda do Brasil e no que resta dos governos bolivarianos – Bolívia e Nicarágua – se negam a enxergar a desgraça que se abateu sobre os venezuelanos. Gente sem comida, sem remédios, sem qualquer saída que não seja a fronteira mais próxima.

Mais de um milhão já emigraram, a maior parte para a Colômbia e o Brasil.

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Cerca de 80% dos 30 milhões de venezuelanos vivem na pobreza, metade deles na miséria. Com inflação superando a casa dos 2.500%, o salário de um mês do sortudo que ainda está empregado mal dá para uma pasta de dentes.

Isso em um país com uma das maiores reservas de petróleo do planeta. E que sem o menor pudor atribui sua miséria a essa riqueza extraordinária. Repete a mesma cantilena cubana contra o imperialismo do Tio Sam, que deu sobrevida à ditadura de Fidel por mais de 50 anos.

Por aqui, mais do que vistas grossas às prisões de opositores e outras agressões aos direitos dos venezuelanos, o Partido dos Trabalhadores aplaude Maduro.

Em outubro, a presidente nacional da sigla, senadora Gleisi Hoffmann, louvou o ditador e o PSUV, vitoriosos em eleições cuja lisura foi questionada interna e externamente. Como se vivêssemos em outro planeta, a nota foi inserida no site do PT com o título “Venezuela: mais uma vez, exemplo de democracia e participação cidadã!”

Na sexta-feira, dois dias depois de o presidente Michel Temer decretar estado de emergência social em Roraima, que já recebeu mais de 40 mil refugiados venezuelanos, o PT, por meio de sua Secretaria de Relações Internacionais, disparou mais uma nota pró-ditadura vizinha.

Desta vez em repúdio à “ingerência imperialista” e à “postura subserviente” de chanceleres ao cancelar o convite a Maduro para a próxima reunião da Cúpula da Américas. Segundo a nota, o encontro de Lima, nos dias 13 e 14 de abril, poderá se transformar “em mero convescote do clube de amigos de Donald Trump”.

Surpreendente — mesmo para um partido que fantasia a realidade. Para o petismo, Maduro é perseguido assim como Lula. A fome e a evasão de milhares de venezuelanos são mentiras deslavadas, assim como o mensalão e a corrupção na Petrobras, Correios, fundos de pensão, etc.

A democracia que o PT afirma existir na Venezuela é tão verdadeira quanto a honestidade e a inocência do ex-presidente Lula.

Mary Zaidan

Cinco razões para descrer da intervenção no Rio

Claro que a ideia de uma intervenção capaz de pacificar o Rio de Janeiro é sedutora. Mas a versão segundo a qual as Forças Armadas travarão contra a bandidagem aquilo que Michel Temer chamou de “batalha em que nosso único caminho só pode ser o sucesso” transforma a iniciativa numa espécie de teatro de bonecos —do tipo em que o boneco é manipulado por pessoas vestidas de preto dos pés à cabeça.


Na coreografia do Rio, os manipuladores de Brasília querem que você acredite que o boneco-interventor (pode me chamar de general Walter Souza Braga Netto), levando a virtude no coldre e distribuindo rajadas de civilização, vai estraçalhar o crime organizado em dez meses. E Temer, em Brasília, vibrando. Reconquistando por procuração, sem sair do Jaburu, o território que separa as praias dos morros cariocas. Vão abaixo cinco razões para você não fazer papel de bobo.


1. Faltou planejamento: Decidida na terça-feira de Carnaval, a intervenção foi sacramentada na madrugada de sexta-feira. O decreto foi redigido a toque de caixa. O interventor Braga Netto, recém-chegado das férias, desconhecia a intervenção até 5 horas antes de sua efetivação. A absoluta ausência de planejamento revela que Michel Temer encontrou na astrologia, na quiromancia ou no tarô o otimismo que o levou a prometer que ''o governo dará respostas duras, firmes e adotará todas as providências necessárias para derrotar o crime organizado e as quadrilhas”, devolvendo a paz ao Rio até 31 de dezembro de 2018.

2. Falta Dinheiro: A União está endividada até a raiz dos seus cabelos, caro contribuinte. E a penúria, ninguém ignora, é o caminho mais longo entre um projejo e sua realização. Pois bem. Até o momento, o governo federal não disse uma mísera palavra sobre o custo financeiro da intervenção no Rio. Ao blog, um integrante do staff do ministro Henrique Meirelles (Fazenda) disse que é impossível estimar quanto será aplicado no Rio. Por quê? Ora, muito simples: não havendo planejamento, não há como fazer as contas. De antemão, o auxiliar de Meirelles reitera o óvio: “O cobertor do Tesouro Nacional é curto.”

3. Falta sintonia: Para Temer, o crime organizado do Rio é “uma metástase que se espalha pelo país”. Perguntou-se ao general-interventor se a coisa é mesmo tão grave. E Braga Netto, fazendo sinal de negativo com o dedo: “Muita mídia.” Quer dizer: como um médico que prefere culpar a radiografia a tratar a doença, o general parece responsabilizar o noticiário pela proliferação do sangue, dos assaltos e da violência. O primeiro passo para resolver um problema é falar a mesma língua. Mas Temer e seu preposto conseguem se desentender falando o mesmo idioma.

4. Sobra desconfiança: Na analogia construída pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, a intervenção federal no Rio é comparável a um “salto triplo sem rede”. O deputado acrescentou: “Não dá para errar”. A metáfora circense é muito apropriada, pois os personagens envolvidos no trapézio da intervenção precisariam confiar um no outro de olhos fechados. Contudo, o próprio Maia, em privado, manifesta dúvidas quanto aos objetivos de Temer. E membros do alto comando do Exército suspeitam que a iniciativa tenha propósitos meramente eleitoreiros.

5. Falta nexo: em outubro de 2017, o ministro Torquato Jardim (Justiça) fez um diagnóstico aterrador da segurança pública no Rio. Conforme noticiado aqui, Torquato declarou que o governador Luiz Fernando Pezão e o secretário de Segurança do Estado, Roberto Sá, agora demissionário, não controlam a Polícia Militar. Pior: o comando da PM no Rio decorre de “acerto com deputado estadual e o crime organizado.” Muito pior: “Comandantes de batalhão são sócios do crime organizado no Rio.”

As declarações de Torquato abriram uma crise entre os palácios do Planalto e da Guanabara. Contudo, autoridades de Brasília admitiam longe dos refletores que o quadro era, já naquela época, de intervenção. Alegava-se que faltava a Brasília, além de dinheiro, autoridade moral para combater a corrupção alheia.

Cabe perguntar: com que autoridade o general Braga Netto, sendo um ''boneco'' de Temer, vai expurgar os corruptos da polícia? Ora, o presidente da República, ele próprio um colecionador de denúncias criminais, não demite auxiliares denunciados por ladroagem. Tampouco se importa de conviver com o correligionário Luiz Fernando Pezão, ex-secretário de Obras e ex-vice na gestão cleptocrata do presidiário Sergio Cabral.

É contra esse pano de fundo, tão impregnado de cinismo e hipocrisia, que a intervenção no Rio fica parecida com o teatro de bonecos. A diferença é que, no teatro original, a presença dos manipulares de preto no palco é enfatizada. O fingimento da plateia é parte do espetáculo. No palco organizado por Brasília, os manipuladores pedem que você acredite que eles não estão lá e que o general Braga Netto tem ampla autonomia e meios ilimitados para alcançar seus objetivos. . Ou seja: há mais verdade no teatro de mentirinha do que na pantomima da intervenção..

Paisagem brasileira

Hélio de Castro - Óleo sobre tela, assinado no canto inferior direito e verso, 40 cm x 50 cm
Paisagem com rio (1960), Hélio de Castro 

A desgraça como alegoria

Vou tentar fugir do pode não pode, do skindôlelê. Tudo pode. O “É Proibido Proibir” ecoou bonito como tema em vários blocos de rua este ano. Mas há de se pensar muito quando a “solução” das terríveis situações em que vivemos são saudadas como espetáculos desfilando em escolas de samba e em tropas do Exército nas ruas

À base de Bic’s ou Montblancs. Decretação de Intervenção Federal na segurança do Rio de Janeiro. Decretação de calamidade social em Roraima. De canetada em canetada, de pulo em pulo, de reunião em reunião, de declaração em declaração vai se tentando resolver as mazelas do país da forma mais desorganizada. Aos soquinhos. A última foi a extrema de botar general no comando geral da PM e o Exército nas ruas do Rio de Janeiro: o presidente Michel Temer deixa claro que não gostou nadica dos desfiles onde apareceu como, digamos, destaque.

A alegoria de mão virou, então, a caneta dos decretos. Preparem-se, outros Estados! Receberão baciadas de venezuelanos refugiados para darem um jeito. E certamente receberão, com a mala e a cuia na mão, além do fuzil, claro, os líderes meliantes cariocas vindos refugiados dos morros e matas. Quando o Morro do Alemão foi tomado há alguns anos, bandido correndo para tudo quanto é lado, a região metropolitana de São Paulo foi aprazível morada onde vários deles se fixaram.

Mas o que importa, não é mesmo? Além da imagem, da cara de bravo, frases bonitas, da imponência do discurso cheio de metáforas anunciando “restaurar a tranquilidade do povo”. “Nossos presídios não serão mais escritórios de bandidos, nem nossas praças continuarão a ser salões de festa do crime organizado. Nossas estradas devem ser rotas seguras para motoristas honestos", disse Temer, sem corar, do alto do pedestal.
Oi? Uai, a tal intervenção não é só no Rio de Janeiro?

Aí reside o perigo. Se a população que nessas primeiras horas estou vendo aplaudir a medida - até porque o povo carioca vivendo uma guerra insana se agarrará a qualquer coisa - der boa mídia - o Exército que se vire. Podem ser chamados para preencher outros buracos nacionais de poder, de incompetência, de desmandos. Até porque ou haverá uma chacina, ou os “elementos” se espalharão. Prender não tem onde. Já há sérias dúvidas de como os soldados irão comer, onde dormirão, essas coisinhas básicas.

O que irrita é que a falta de planejamento das medidas, da ordenação social, do desenvolvimento das cidades é tão comum que acabamos nos acostumando a arroubos em crises. Seja na segurança perdida, no transporte público travado, nas tragédias sem amparo.

O maniqueísmo culpa a imprensa. Duas cândidas escolas de samba do Rio batem no peito como vitoriosas porque botaram na avenida o que o ano inteiro passou diante dos nossos olhos e ouvidos, e, destaque-se, pela imprensa – assaltos, arrastões, tiroteios e balas perdidas, protestos e muitos etcs –esqueceram que elas próprias são dirigidas por meliantes que incentivam tudo isso. O governo seguiu o exemplo. Botou os soldados em marcha e anuncia que – ah, agora vai! – também vem por aí mais um Ministério! Da Segurança Pública. Dado o nível dos atuais ministros e indicações, só mais umas vagas abertas para negociações.

Tudo isso me lembra muito um problema que estou às voltas: formigas, formiguinhas. Pequeninas, andam em todos os cantos, menos onde poderiam ser pisadas. Impossíveis de serem contidas. Se abandonam um lugar, daqui a pouco surgem em outro local, sempre inusitado, birrentas, num organizado desfile e muita união.

Marli Gonçalves

Desobediência

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Sempre que os juristas tentam justificar a desobediência civil com fundamentos morais e legais constroem a sua argumentação sobre a imagem ou do objecto de consciência ou do homem que testa a constitucionalidade de um texto legal. O problema é que a situação do participante na desobediência civil não tem qualquer analogia com nenhum deles pela simples razão de que ele não existe nunca como individuo isolado; só pode funcionar e sobreviver como membro de um grupo. Isto raramente é admitido e, mesmo nas raras circunstâncias em que o é, só marginalmente é mencionado; "a desobediência civil praticada por um indivíduo não tem probabilidade de ter muito efeito. O indivíduo será olhado como um excêntrico mais interessante de observar do que de suprimir. A desobediência civil significativa, portanto, será praticada por um certo número de pessoas que têm uma comunidade de interesses" 
Hannah Arendth, "Desobediência Civil"

Temer improvisa combate à violência tirando sofá da sala

Conhece aquela história manjada do sofá? É parecida com a intervenção que o Temer fez no Rio. Ele acha que retirando o sofá da sala está resolvido o problema do adultério. Pois é, na falta de planejamento, de recursos e de uma polícia inteligente ele manda botar o Exército nas ruas – repõe o sofá na sala - e pronto: está resolvido o problema da segurança pública. É um show de pirotecnia que não vai dar certo, pois a droga distribuída no Rio envolve bilhões de reais e hoje, por incrível que pareça, é quem ajuda a movimentar a economia falida do estado. E mais: não se combate o crime criando mais um órgão para alimentar o cabide de emprego e sacrificar o contribuinte. Se o ministro da Justiça é incompetente, a solução é simples: demita-o. É mais honroso, melhor do que esquartejar o seu ministério.

Ao contrário do que ocorreu na Colômbia, onde os chefes das drogas foram mortos e alguns deportados para os Estados Unidos, no Rio e em outros estados da federação, o narcotráfico não tem apenas uma cabeça, mas várias. É como a Medusa da mitologia Grega: você extermina uma cabeça e logo aparecem outras e mais outras para fortalecer o monstro que o poder público germinou na terra apodrecida.

Charge do dia 18/02/2018

Boa parte da polícia do Rio está comprometida, tem afinidade com o tráfico e com a venda de armas. O poder público faliu, e o Pezão, para não ficar sem os dedos, preferiu entregar os anéis. Não resistiu a intervenção porque já não governa, chafurdou na lama da corrupção junto com o seu parceiro Cabral e perdeu a moral e a credibilidade para liderar o estado. A declaração inusitada de que aceitou passivamente a intervenção federal é o resultado de um governo fraco, corrupto e inepto. Seria menos vergonhoso que ele renunciasse ao cargo e fizesse uma declaração pública da sua ineficiência e incapacidade e saísse de fininho do palácio.

Na verdade, quem decretou a intervenção no Rio foi o Jornal Nacional com suas edições sobre a violência na cidade. Temer e seus auxiliares foram pautados pela TV Globo, como sempre. Por isso, não acredito na eficiência das suas medidas por improvisadas, pois o problema é epidêmico e envolve fazer uma assepsia na polícia e prender os milionários narcotraficantes intermediários e, por que não dizer, combater com rigor o comércio e o consumo das drogas em alta escala.

O ataque frontal à guerra do tráfico no Rio apenas inibe temporariamente o negócio, mas depois tudo volta ao normal. Durante o policiamento ostensivo, vive-se uma aparente segurança, os bandidos inteligentemente dão uma trégua para simular rendição e depois voltam aos pontos de venda das drogas a céu aberto. Há muito tempo o Rio vem dando sinais de falência na segurança. Os crimes brutais, os tiroteios e os arrastões evidenciam a falta de comando em um estado que foi tomado pela corrupção hierarquizada de cima para baixo. Quando uma criança é assassinada por bandidos ainda dentro do ventre da mãe, conclui-se que a nova geração já nasce morta, vítima dessa violência brutal desmedida que se instalou na cidade.

Engana-se quem pensa que a polícia do Rio vai colaborar com o Exército. Existem atritos entre as corporações: A PM diz-se autônoma e, portanto, vai fazer corpo mole, e a polícia civil, certamente, vai cruzar os braços e torcer pelo fracasso das operações do Exército, que não tem capacidade de desenvolver uma polícia inteligente, pois não foi preparado para fazer investigações no varejo.

A postura do governo federal, repito, é a do marido traído que vê no sofá da sala todos os seus males. Faz-se um alarde danado, alimenta a população de esperança, usa as medidas demagógicas e depois levanta acampamento deixando para atrás uma população assustada, insegura e desprotegida, pois o poder público no Rio de Janeiro definitivamente faliu.

Bem que gostaria de acreditar no arrefecimento da violência na cidade, mas duvido da eficácia da sua operação pela forma amadorística como é conduzida. O ministro da Defesa, Raul Jungmann, que já havia identificado o conflito entre o Exército e as forças policiais do estado, decidiu incentivar a intervenção para assumir sozinho a responsabilidade pelo combate a violência.

É uma aposta arriscada quando você desloca tropas do Exercito, formadas por jovens soldados, para combater outro exército, o da droga, que conhece palmo a palmo o seu campo de batalha.