segunda-feira, 16 de janeiro de 2017


Cidadão invisível

De tanto ser ignorado, achou que era invisível. Era natural. Não conhecia outras circunstancias. O Estado jamais havia funcionado. E os serviços, pioraram a cada geração. Sempre. “É assim mesmo”, imaginou.

Em outras circunstancias, poderia ter se tornado um líder. Lutaria pela cidadania. Exigiria do Estado respeito a seus cidadãos. Mas achou impossível a meta. Não poderia dar certo. Aprendeu a ficar em silencio. Aceitou ser ignorado. Tornou-se cidadão invisível.

Mesmo sendo invisível, precisava sobreviver. E, se possível, viver. Apesar do Estado. Sem serviços. E com muito imposto. Não era pouco. Nem fácil. E laborou para criar soluções que resolvessem seus problemas sem incomodar ou mudar o Estado.

Resultado de imagem para cidadão invisível
Precisava de educação para os filhos que a escola publica falhava em entregar. Poderia ter tentado melhora-la. Mas acreditou não ser possível. E, se possível, seria demorado e trabalhoso. Preferiu outro caminho. Deixou a escola publica para aqueles que não tinham outra opção. Pagou escola privada.

Apavorou-se com a qualidade dos hospitais. Precisava remédios, médicos, atendimento. Mas sabia que o Estado ignorava seus cidadãos. E achava que não dava para mudar. Afinal, ser ignorado é o destino natural do cidadão invisível. Não tinha jeito. Saúde publica era para os outros. Preferiu pagar por saúde privada.

Um dia, entraram em sua casa. Roubaram alguns valores. Vandalizaram. Destruíram. Foi um choque. Poderia ter gritado. Exigir ser ouvido. Mas não achou viável. Melhorar a segurança publica não parecia solução. Era invisível, afinal. Colocou grades nas janelas.

Andando pela rua, foi assaltado. Percebeu que a cidade estava perigosa. Não queria sua família exposta. Precisava de solução. Urgente. E mudou-se para condomínio. Fechado, claro. Assistiu contente o muro que subia a sua volta. Viu nele a proteção que o Estado jamais daria.

Agora morava longe do trabalho. Precisava chegar lá. Não havia trens. Ônibus eram poucos, lotados, infrequentes, e ruins. Não dava para depender de transporte publico. Adotou o carro. E todos os dias passou a ver vida escorrendo pelos dedos enquanto ficava parado no congestionamento. Por horas a fio.

Percebeu que continuava pagando impostos. Muitos. E pagava mais. Aumentado a cada ano. Saía cedo. Voltava tarde. Chegava cansado. Educar os filhos foi ficando cada vez mais caro. A saúde também. Não ia a parques. Não aproveitava a natureza. Conhecia apenas seus vizinhos. Já não andava nas ruas. Vivia confinado em mundo cada vez menor.

Refletiu. Contemplou seu entorno. Por entre as grades de sua janela, enxergou os muros em volta da casa. Não se sentiu protegido. Estava isolado. Sentiu-se preso. Invisível, enfim.

Havia construído sua própria prisão. E pago por ela, naturalmente.

Paisagem brasileira

Imagem relacionada
Praia de Pipa (RN)

Cinismo em alta

É claro que quero eleições gerais. Mas com algumas condições. É preciso que tenhamos, antes, pelo menos alguma reforma política. E que não haja permissão para réus se candidatarem.

O problema é: satisfeitas estas exigências básicas, em quem votar? Na direita, não. Alckmin é um provinciano cartorial (futuro “socialista”?), cabecinha menor que a de um pardal. Mas também não votaria em Aécio, burguesinho mimado. Nem em Serra, com sua trajetória de autodegradação.

Resultado de imagem para cinismo ilustração

Mas e à esquerda? Também não dá, está muito difícil. Lula vem se apresentando seguidamente como salvador da pátria, sujeito talhado para tirar o Brasil da merda em que o país se encontra. Fanáticos à parte, acho que nem ele e Rui Goethe Falcão acreditam nisso.

O que me impressiona, como delirioso ou até patológico, é que Lula fala com a cara mais limpa do mundo, como se não tivesse culpa alguma no cartório. Mas Lula mente tanto quanto Dilma.

Me lembro de uma roda de conversa masculina, em Furnas (MG), durante a campanha de 2002. Estávamos eu, Ricardo Kotscho, Duda Mendonça e outros. O assunto era sexo e cada um contava uma proeza maior que a do outro – homem falando de sexo mente mais que pescador.

Quando, no giro da conversa, sobrou para Lula, ele cortou com segurança e seriedade: “Já fiz muita coisa errada com minha mulher, mas chega. Se Marisa tiver de sofrer, vai ser pela mão de Deus ou do destino. Pela minha, não”.

Fiquei impressionado com sua integridade. Pura fachada. Anos depois, o país inteiro saberia, pelo estardalhaço nacional da mídia, que já ali ele andava de xodó com Rose Noronha, que logo passaria a carregar escondida no “aerolula”, em viagens ao exterior.

E Lula continua o mesmo. Apresenta-se como salvador da pátria como se nada tivesse a ver com a crise instaurada no país. E tem. Duplamente.

Primeiro, porque foram os governos PT-PMDB, juntos com a Odebrecht, que arrastaram o país ao pântano. Segundo, porque, embora continue se proclamando a alma mais honesta do país, nosso São Francisco de Assis é réu em cinco inquéritos, três dos quais relacionados ao petrolão.

Que o discurso de Lula, apontando para a presidência, tenha sido feito em Salvador, não me espanta. A Bahia será a última região do país a perceber que Lula e o PT já eram.

O velho Octávio Mangabeira (democrata que foi governador local, frasista incorrigível, avô de Roberto Mangabeira Unger) já dizia: “Na Bahia, tudo é tão lento e atrasado que, quando o mundo acabar, a notícia vai demorar um mês para chegar lá”.

A contribuição da filantropia

A verdadeira filantropia deve ser incentivada no Brasil, e não por razões de caridade, palavra que erroneamente se costuma associar ao trabalho de entidades que se dedicam a cuidar do bem-estar dos cidadãos e do desenvolvimento nacional. O incentivo é necessário porque a ação das associações filantrópicas resulta em expressivo ganho para o Brasil, conforme demonstrou uma pesquisa inédita que mensurou a contrapartida desse setor para o País.

A pesquisa, feita pela consultoria DOM Strategy Partners para o Fórum Nacional das Instituições Filantrópicas, indica que, em média, de cada R$ 1 que a Previdência deixa de cobrar dessas entidades, a título de isenção, elas devolvem R$ 5,92 à população. No momento em que o governo estuda maneiras de recuperar sua arrecadação e reduzir o rombo previdenciário, é preciso que as autoridades levem em conta esse potencial da filantropia antes de proceder a cortes que podem inviabilizar um trabalho tão necessário.

Resultado de imagem para filantropia ilustração

As entidades filantrópicas, de fato, não podem viver da imunidade tributária, sendo necessário, para justificar sua existência, que apliquem em assistência social, saúde e educação um valor superior ao que foi concedido como isenção. A esse propósito, a pesquisa mostra que, enquanto as filantrópicas devolvem à sociedade quase seis vezes o que ganham com a imunidade tributária, outros setores da economia beneficiados nos últimos anos com generosos incentivos incorporaram grande parte desse alívio a seus lucros, sem gerar os esperados empregos ou aumentar a produção.

Dos R$ 131,6 bilhões concedidos em isenções da cota patronal da Previdência entre 2012 e 2014, R$ 47,4 bilhões, ou 36%, foram dados na forma de desoneração da folha de pagamento de 56 setores da economia, na tentativa do governo de incentivar a retomada do crescimento. Já a imunidade das instituições sem fins lucrativos chegou a R$ 26,7 bilhões, ou 20,3% do total.

Mas é o capítulo do retorno à sociedade, tangível e intangível, que torna mais evidente o valor das filantrópicas. Essas entidades receberam R$ 10 bilhões como benefício em 2014 e devolveram R$ 62,2 bilhões, que se desdobram em R$ 15 bilhões na área de educação, onde atuam 2.100 associações; R$ 42 bilhões na área de saúde, com 1.400 entidades; e R$ 5,1 bilhões para a assistência social, com 5.000 entidades.

Esses números podem ser traduzidos pela realidade da grande participação das filantrópicas na vida nacional. Em 968 dos 5.570 municípios brasileiros, o único hospital existente é de uma dessas entidades, e não há presença do Estado na saúde. No geral, no ano passado, as filantrópicas foram responsáveis por 31% de todas as internações realizadas no País, e também ofereceram 31% do total de leitos hospitalares. Além disso, essas associações empregam 10% do total dos funcionários da área.

Na educação, as filantrópicas respondem por 14% do total de estabelecimentos de ensino superior e por 17% das matrículas. Ademais, quase 17% dos funcionários que atuam no ensino superior no País trabalham em entidades sem fins lucrativos. Na educação básica, as filantrópicas atendem 1 milhão de alunos, dos quais 204 mil têm bolsa de estudos.

Por fim, na área de assistência social, a pesquisa mostra que as instituições filantrópicas foram responsáveis por 62,7% de todas as vagas disponíveis no País, embora respondam por apenas 14,2% das entidades sociais.

Todos esses números demonstram a amplitude do trabalho das instituições filantrópicas sérias, que fazem bom uso do dinheiro que deixam de pagar em impostos e contribuições. Na ânsia de aumentar a arrecadação, o governo deve ponderar o impacto que uma eventual revisão dessa isenção terá em diversos setores – nos quais o Estado tem sido sistematicamente falho. E é o caso de questionar se não está na hora, até mesmo em razão da crônica crise fiscal, de deixar que a sociedade assuma de vez as tarefas que o Estado não cumpre por incúria ou mesmo falta de vocação.

Em risco, o Estado de Direito

Aconteceu o que parecia impossível: São Paulo parou. Era uma cidade deserta por volta das 18 horas da segunda-feira 15 de maio de 2006.

Metade da população da Grande São Paulo, algo como 5,5 milhões de pessoas, deixara de trabalhar na ausência de ônibus.

Três em cada 10 estudantes haviam faltado às aulas. O comércio fechara antes do fim da tarde. São Paulo estava sob o ataque do crime organizado.

Foram nove dias de terror que deixaram um rastro de 493 mortos, segundo o Instituto Médico Legal, ou 564, segundo cálculos do sociólogo Ignácio Cano, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, feitos com base em boletins de ocorrência.

Em um único dia, 105 civis morreram a tiros. Não há estimativa sobre o número de feridos. Nunca se soube de quem partiu a ordem para atacar.


Mas o suspeito número um sempre foi Marco Willians Herbas Camacho, Marcola, o chefão do Primeiro Comando da Capital (PCC), organização criminosa fundada sob o lema de “Liberdade, Justiça e Paz”.

Dizia lutar “contra as injustiças e a opressão dentro das prisões”. Antes dos ataques, o PCC existia em 40% das favelas da capital. No final de 2006, em mais de 70% delas.

Marcola e os principais líderes do PCC estavam presos quando desafiaram o poder do Estado naquele ano. Continuam presos.

Um documento interno da polícia de São Paulo, que circula desde a semana passada, informa que o PCC distribuiu armas de fogo para desencadear possíveis novos ataques contra a cidade a partir de amanhã. O governo nem confirma nem desmente a ameaça.

A origem dela pode estar na decisão tomada pelo governo, à vista das mais de 110 mortes recentes em Manaus, Boa Vista e Natal, de transferir Marcola e outros detentos para penitenciárias onde o regime disciplinar é mais duro.

Decisão semelhante, que implicava na mudança de endereço de 730 presos do PCC, incluindo Marcola, foi o que deflagrou em 2006 a onda de medo que varreu a cidade.

Na noite de 12 de maio, antevéspera do Dia das Mães, o PCC matou agentes policiais na periferia da capital paulista, depredou agências bancárias e assumiu o controle de três presídios no interior.

No dia seguinte promoveu 63 atentados em 23 cidades do Estado, matando 25 agentes públicos. No domingo, mais 156 atentados, fora 80 presídios rebelados e sob o domínio do PCC.

Os ataques só cessaram quando o governo recuou da decisão de transferir presos. Mesmo assim, em agosto, o PCC sequestrou um repórter e um cinegrafista da TV Globo e só os devolveu com vida depois que a emissora divulgou manifesto onde a facção deplorava as “condições desumanas dos presídios”.

O episódio serviu para que se pusesse o dedo na ferida pela primeira vez.

Sob o título “Basta de violência”, documento assinado por entidades que reúnem veículos de comunicação alertou:

“O que está ameaçado neste momento não é apenas o cotidiano civilizado a que todos os cidadãos têm direito. É a própria sobrevivência da sociedade democrática, porque sua manutenção depende da autoridade, credibilidade e prestígio das suas instituições”.

Era disso que se tratava há 11 anos. É disso, com mais razão, que se trata hoje.

A segurança nacional está em risco, admitiu na última quinta-feira o presidente Michel Temer. O Estado de Direito, também.

Com a Lava-Jato, e na ausência momentânea de quem o compre, o degradado poder político será uma presa fácil para as 27 facções criminosas disseminadas pelo país.

'Duelo' de titãs

E não se aprende


O horror brasileiro é uma eterna reprise
O Antagonista

Notas do cárcere

Raramente leio páginas policiais. Evito fazê-lo para não acrescentar doses extras de horror a meus próprios calafrios. Vivemos com medo, aferrolhados. Em nossas conversas habituais não faltam relatos de pavor e sangue. São apontamentos nos diários do cárcere, do cárcere em que nos recolhemos, inseguros e acossados. Há um pânico instalado no país e ele não distingue classe social nem cor da pele, campo e cidade. Como consequência, quem de nós, quando um bandido é morto no exercício de suas atividades, não exclama intimamente - "Um a menos!"?

É sobre essa síndrome que escrevo. Ela tem agentes causadores bem determinados. Não encontro pessoas com medo de serem vítimas de grandes crimes novelescos, por vingança, ciúme, herança ou dívida. O que encontro são pessoas com medo da criminalidade hoje considerada trivial, corriqueira, cotidiana. As pessoas temem ser espancadas ou mortas nas calçadas por motivo fútil. Percebêmo-nos sujeitos a isso. Volta e meia alguém, ao nosso redor, foi parar na mala do carro ou experimentou o metal frio do revólver encostado na cabeça. Quem sai vivo de tais enrascadas ajoelha-se gratificado e lava o passeio com lágrimas de ira e júbilo. Um ano depois, os mais extremados rememoram a data, reúnem a família e sopram velinha. Festejam aniversário. São sobreviventes da criminalidade cotidiana.

O que descrevo tem tudo a ver com luta de classes, com pobres e ricos, com oprimidos e opressores. Mas não pelo motivo que lhe indicam certos analistas. É a bolorenta leitura marxista, conflituosa, da realidade social, sem a qual não conseguem pensar, que produz essa inoperância do Estado e suas consequências. É ela que responde pelo abandono do sistema carcerário e pelo desapreço às instituições policiais. É ela que redige a generosa benignidade dos códigos e os favores concedidos por leis penais que desarmam os juízes bons e compõem o arsenal dos maus. É uma leitura da realidade que minimiza aquilo que apavora o cidadão e aterroriza a sociedade. É uma leitura da realidade que legisla e atua na contramão do que todos temos o direito de exigir. Criminaliza a vítima e absolve o réu.

O bandido que nos sobressalta certamente já foi preso. O desmanche para onde vai nosso automóvel roubado durante o assalto já foi fechado várias vezes. Mas alguém no aparelho estatal não fez e não faz o que lhe corresponde. O legislador brasileiro dispõe sobre matéria penal como se vivesse numa realidade suíça. Inúmeros magistrados desvelam-se em zelos para com os bandidos. Elevam desnecessariamente os riscos a que está exposta a sociedade sob sua jurisdição. E não faltam formadores de opinião para pedir penas brandas exatamente para esse tipo de crime cotidiano, covarde e violento, de consequências sempre imprevisíveis. Em tal contexto, conceder indultos generalizados e soltar presos a rodo é uma bofetada oficial nas vítimas.

Progressão automática de regime, na realidade brasileira? Quanta irresponsabilidade! Existe coisa mais escancarada do que o tal semiaberto? Prisão domiciliar? Estão brincando. "Mas faltam presídios!", alegam os protetores dos apenados. A situação dos presídios brasileiros extrai hipérboles do ministro da Justiça. Mas há dez anos o grupo do ministro governa, dá as cartas e joga de mão no país. Quem sabe Sua Excelência espera que os contribuintes, à conta própria, saiam por aí a construir presídios? Lidam irresponsavelmente com coisa seriíssima, senhores! Da rendição do Estado ante a criminalidade sobrevirão a anomia e o caos.

Percival Puggina (Este meu artigo, infelizmente profético, foi publicado no jornal Zero Hora em 18/11/2012).

O horror brasileiro

Estou preparando um texto sobre a Revolução Soviética, que esse ano faz 100 anos. Pouco vejo televisão. Ontem, porém, liguei rapidamente a TV e tive chance de ver os aposentos (sofá, TV, tapete, geladeira, ar condicionado) de um chefão de uma das falanges que se engalfinharam no presídio de Manaus, resultando da luta quase cem mortos (a maioria esquartejada) e quase duzentos foragidos. Um horror.

Fiquei pensando: como aqueles apetrechos decorativos entraram na penitenciária? Certamente não foram as visitas que levaram os brindes para a cela do chefão, que atende pela alcunha assustadora de Garrote. Presumo que um caminhão da Lusitana (“O mundo gira e a Lusitana roda”) parou diante do presídio, descarregou o mobiliário e gente do próprio presídio o levou à cela do chefão. Não pode ter sido de outra forma. Um sofá não cabe no bolso.

Inscrições do PCC em presídio no RN. Pelo menos seis homens, pertencentes à facção criminosa PCC, foram identificados como responsáveis pela rebelião que destruiu parcialmente a penitenciária e o Pavilhão Rogério Coutinho Madruga (Foto: Josemar Gonçalves / Tripé Fotografia)

Este é um aspecto sobre o qual tenho falado: a enorme capacidade que o crime organizado possui de corromper – e aí a coisa vem lá de cima, chegando, em cascata, aos guardas penitenciários, que lidam com os presos no dia a dia e fazem vista grossa ao que presenciam. Isto é assunto tabu, pois se generalizou a ideia de que só políticos e empresários se corrompem. Lamento informar, mas os proletas também são corruptíveis. Preciso dar exemplos?

Ao contrário dos sociólogos e antropólogos que se dizem especialistas no assunto, não tenho como opinar sobre o Plano Nacional apresentado pelo ministro da Justiça, inclusive porque não o li. Mas não vou esculhambá-lo gratuitamente; todos nós, sociedade brasileira, fomos pegos de surpresa pelos acontecimento e a montagem do Plano em tão pouco tempo foi uma exigência da própria sociedade.

Não conheço ninguém que não soubesse que o sistema penitenciário é o inferno que é – e que bandidos de alta periculosidade são irrecuperáveis. Livros e filmes estão cansados de mostrar o que acontece nas penitenciárias no Brasil e no mundo, EUA inclusive. No nosso caso, não só o sistema penitenciário é essa coisa monstruosa: infernais são também os sistemas de saúde (diariamente morre-se em filas, morre-se por falta de tratamento e exames), de educação (crianças saem da escola sem saber ler, escrever e fazer contas, tornando-se facilmente recrutáveis pelo crime organizado), de segurança (cá de fora), de transporte coletivo e, vale dizer, o sistema de convivência humana no Brasil. Ninguém caminha à noite pelas ruas das cidades brasileiras com a certeza que vai chegar incólume ao destino. E não só isso: sabe-se que centenas de pessoas são linchadas no Brasil. Fora, é claro, aqueles que matam por problemas no trânsito.

A verdade é que o Brasil é um país desatinado, desigual, miserável, violento por sua própria natureza, que precisa ser reformado profundamente em vários sentidos e direções. A ministra Carmen Lúcia está preocupada – certo, mas ela toparia liderar, com a voz da sua autoridade, uma reforma profunda no sistema judiciário brasileiro, tornando-o mais célere, mais eficiente, mais justo, menos burocrático e paquidérmico? Toparia correr o risco de enfrentar os interesses encastelados nos diversos escaninhos da justiça brasileira? O Brasil precisa ser passado a limpo, dizia Darcy Ribeiro. Precisa ser lavado com soda cáustica, acrescentou um dia o Brizola. Darcy e Brizola acreditavam na força da educação. Não sei se é o bastante.

Disso tudo, emerge um fato animador: com os massacres em Manaus e Boa Vista, o Brasil tomou consciência de si mesmo. O que vemos nos dá nojo, mas é essencial, o quanto antes, que reformemos o país, de cima a baixo, no Executivo, no Legislativo, no Judiciário e, sobretudo, no caráter do brasileiro.

Imagem do Dia

I see trees like this -- just one, where others could not survive -- and wonder *how* it grows there.  But I never wonder *why*:

Governo vai gastar R$ 306,9 bilhõesem salários

Os brasileiros economicamente ativos terão de se virar para gerar todos os impostos que possibilitem à União sustentar sua máquina administrativa em 2017, uma das mais caras do mundo: serão R$ 306,9 bilhões somente em salários nos três poderes. Nessa conta não estão consideradas despesas de manutenção da máquina, incluindo mordomias, tarifas públicas, material de consumo, medicamentos etc.


O maior gasto da União ainda será com encargos da dívida pública, que se aproximam do trilhão: já somam R$ 946,4 bilhões.

Desenvolvimento Social, que custa R$ 660 bilhões, tem orçamento muito superior a Educação (R$ 105 bilhões) e Saúde (R$ 125 bilhões).

O Congresso custará R$ 10,2 bilhões ao contribuinte, em 2017: Câmara, R$ 5,92 bilhões, e o Senado Federal, R$ 4,24 bilhões.

O Supremo Tribunal Federal (STF), que chefia o Poder Judiciário, tem um dos menores orçamentos da Esplanada: R$ 686 milhões.

Cúmplice, o PT silencia sobre Cunha e Geddel

Um dirigente do PT tocou o telefone para parlamentares do partido, no final de semana, para sugerir o uso das revelações mais recentes da Lava Jato como munição na guerra política contra “o governo golpista” de Michel Temer. Classificou de “bombástica” a acusação de que Eduardo Cunha e Geddel Vieira Lima, íntimos de Temer, trocavam empréstimos da Caixa Econômica por propina. Um dos destinatários da sugestão indagou: “A farra ocorreu na gestão da Dilma, esqueceu?”


Os petistas sentem um prazer quase orgástico cada vez que a Polícia Federal e a Procuradoria penduram um amigo de Temer nas manchetes de ponta-cabeça. Mas a maioria silencia para não passar a vergonha de ter de explicar por que os inimigos de hoje plantaram bananeira dentro dos cofres públicos durante os governos do PT. A Lava Jato tornou a corrupção um fenômeno tão abrangente que a ética virou um valor órfão na política.

Nunca um escândalo teve tantos cúmplices. Considerando-se tudo o que os investigadores já jogaram no ventilador, a desfaçatez foi generalizada. Tudo muito deplorável. Mas quase ninguém no universo da política pode dizer isso sem ruborizar a face. Não há mais inocentes em Brasília, só comparsas.

Obstáculos intransponíveis à reforma política

Salvo algum inusitado, Rodrigo Maia e Eunício Oliveira serão eleitos presidentes da Câmara e do Senado. Nada melhor para o presidente Michel Temer. Os três conduzirão a reforma política de comum acordo, começando pela extinção do princípio da reeleição para presidente da República, governador e prefeito. Nos estados e nos municípios, manterão a prerrogativa de disputar o segundo mandato no exercício do primeiro aqueles que tiverem sido eleitos em 2014. Pairam dúvidas a respeito da duração de seus mandatos, hoje fixados em quatro anos. Poderão ser cinco para presidente da República, governador, prefeito e deputado, a partir de 2018, ainda que para senador não há certeza. Dez anos seria demais. Oito, como agora, determinaria a descoincidência com as demais eleições, e cinco seria impossível.

Eis o primeiro obstáculo ao fim da reeleição. Os 61 senadores votarão pelos dez anos, mas os 513 deputados, contra. Por conta do impasse, vem aparecendo partidários de deixar tudo como está, inclusive a reeleição.

Outro risco refere-se ao número de partidos. Hoje são 35, um absurdo, o ideal seriam quatro ou cinco, mas quais? Junto com os chamados partidos de aluguel, existem os partidos históricos ou ideológicos. Como distingui-los? A cláusula de barreira ou de desempenho causará injustiças, além de se constituir num fator de desentendimento entre as legendas, internamente. O tempo das sublegendas não deixou saudades. Melhor então não mexer? Seria o caso de pelo menos acabar com o Fundo Partidário? Só que a corrupção se multiplicaria.

Em suma, até as reformas que de início parecem unanimidade esbarram em obstáculos intransponíveis.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Guerra aos fatos

Pouca coisa vale tão pouco a pena no Brasil moderno quanto escrever um texto para a imprensa sem sair chutando o governo na primeira linha e, se possível, continuar na mesma partitura até o ponto final. Nem se trata, Deus nos livre, de falar algo de bom ─ basta não falar mal para a pessoa que escreve ver-se exposta ao risco de fazer papel de boba, ou ser acusada de delitos ainda bem piores. O cálculo não é complicado. É só ficar atento à Lei da Malignidade Pública Permanente, que estabelece o seguinte: “Podendo errar, um governo vai errar”. O resultado é que, em condições normais de temperatura e pressão, o governo, qualquer governo, produzirá alguma calamidade logo depois que o infeliz tiver escrito o tal artigo neutro, ou sem hostilidades declaradas. O autor, se alguém lhe der três reais de importância, se verá então acusado de leniência, para usar uma palavra da moda, ou de ser parcial, mal informado e nocivo aos interesses da sociedade. Para que viver sob essa ameaça? É melhor apostar no certo. Bata no governo ─ se você não sabe por quê, o governo haverá de saber.

Sim, estamos aí diante de uma manifestação maciça de preconceito. Mas é justamente por isso que há tanto estímulo para atirar primeiro na autoridade pública e perguntar depois ─ ou, melhor ainda, não perguntar nada, nem antes nem depois. É muito mais cômodo. Preconceitos, no fim das contas, são excelentes instrumentos para economizar tempo: permitem ao indivíduo formar uma opinião sem ter o trabalho de verificar os fatos. Melhor ainda, ao agirem desse jeito, as pessoas não precisam pensar, e isso parece duplamente recomendável nos dias de hoje. Em primeiro lugar, como dizia Henry Ford, pensar é a coisa mais difícil que existe ─ talvez seja por isso que tão pouca gente tenta. Em segundo lugar, trata-se de uma conduta muito mal ­vista no Brasil do momento. O indivíduo que pensa, ou sugere a aplicação de raciocínios lógicos no debate sobre as questões públicas, pode provocar a formação de um tipo de corrente contínua capaz de gerar ideias e outras doenças transmissíveis. É muito mais conveniente entupir o público com afirmações não combustíveis ─ aquelas imunes a faíscas e que, assim, não contêm o risco de causar mudanças que possam incomodar sua visão do mundo e da vida.

O inconveniente disso tudo é que os cidadãos ficam sem a oportunidade de informar-se com mais exatidão, clareza e realismo sobre o que está acontecendo ao seu redor ─ e não é possível a ninguém estar mal informado e, ao mesmo tempo, decidir bem. Os fatos não param de existir só porque pouca gente está falando deles. Neste momento, foram apresentadas pelo governo, para apreciação do público e adoção pelo Congresso, questões decisivas para o bem-estar do país em seu futuro próximo. A lista é conhecida. Um dos seus primeiros itens foi a fixação de limites para o aumento dos gastos do governo. Há também a mudança nas regras das aposentadorias, para dar oxigênio a um sistema em situação de pré-falência. Sugere-se uma reforma trabalhista, para alterar leis que hoje funcionam como um veneno para a criação de empregos. Foi proposto o estabelecimento de um novo ambiente para o aproveitamento das reservas de petróleo ─ e assim por diante, numa série de movimentos que pretendem estimular o dinamismo de uma economia paralítica. O que há de correto nisso tudo? Antes de prever se alguma coisa vai dar certo, é preciso saber se ela faz sentido. Mas não é assim que está funcionando: de cara, para a maioria dos que se manifestam, já fica decidido que é ruim porque vem do governo. Ficar a favor, ou simplesmente ver lógica em medidas como essas, é ser “governista”. É ser “cúmplice da corrupção”, ou querer a eliminação de direitos ­adquiridos da população brasileira.

Nenhum dos problemas que o país vive no momento foi criado nos sete meses de atuação do governo que está aí; os direitos autorais dessa desgraça toda pertencem unicamente aos seus antecessores. Mas o debate político atual parece decidido a declarar guerra aos fatos. Não costuma dar certo.

Imagem do Dia

Lauterbrunnen, Suíça.:
Lauterbrunnen (Suíça).

O país da gambiarra

Desde a carnificina no presídio de Manaus, seguida pela matança em Boa Vista, especialistas na questão penitenciária são unânimes em criticar a ausência de planejamento para o setor. Nada de novo. O Brasil não tem plano nem para o sistema prisional nem para coisa alguma. É e sempre foi o país das gambiarras, dos remendos.

Mais de 100 mortes depois, o que se vê agora são medidas requentadas, muitas delas acertadas, mas que não precisariam ser emergenciais tivessem sido cumpridas em urgências anteriores e se tornado práticas permanentes.



Um exemplo é o esforço concentrado reivindicado pela presidente do Supremo, ministra Cármen Lúcia, para que os Tribunais de Justiça dos estados acelerem o exame dos processos de presos, muitos deles sem julgamento ou com pena já cumprida. Em 2008/2009, o Mutirão Carcerário do Conselho Nacional de Justiça fez exatamente isso, libertando 45 mil presos. Não se sabe por que parou.

Como não são absorvidos como políticas de Estado, programas desse tipo, por mais bem intencionados, não prosseguem. E têm de ser reinventados quando as crises anunciadas explodem.

Outros, como a construção de novos presídios, são apenas mais do mesmo, já se sabendo, de antemão, que não têm o condão de resolver o problema.

O improviso não se limita à política carcerária. Está em todos os cantos, em todas as esferas de poder.

Em 2013, as megamanifestações de junho, inicialmente concentradas no congelamento das tarifas de ônibus urbanos, levaram a então presidente Dilma Rousseff a anunciar investimentos de R$ 50 milhões em mobilidade, com nada ou quase nada saindo do papel.

Dilma foi mais longe. Tirados sabe-se lá de onde, lançou cinco propostas inexequíveis, por ela apelidadas de pactos, sem dizer de quem com quem. Pacto pela responsabilidade fiscal, princípio para o qual o seu governo fazia pouco caso. Outro, pela saúde, incluía apenas a importação de médicos (a maioria cubanos) para solucionar as graves carências do SUS. O pacto pela Educação se limitava a dedicar 100% dos royaties do pré-sal à área, e o mais inusitado de todos, o da reforma política, viria por meio de uma Constituinte exclusiva.

Fora a desoneração na folha de pagamentos dos operadores de transporte urbano, nenhum dos demais pactos andou. Valeram apenas como marquetagem. Assim como várias obras do PAC, programa que se dizia revolucionário e empacou nas suas duas versões, lançadas com pompa e circunstância para satisfazer o calendário eleitoral.

A reforma política é a campeã nas gambiarras. Há décadas vem à tona como solução para todas as panes. Mas nunca ganha corpo. Só alguns remendos, a maior parte em benefício dos autores, aprofundando o abismo entre o eleitor e o eleito. Mexe-se no periférico - fundo partidário, tempo de propaganda no rádio e TV, prazo de desincompatibilização para ser candidato -, deixando de lado o essencial: sistema de votação, se proporcional, distrital ou misto, possibilidade de recall e voto facultativo.

Na área econômica não é diferente. O sistema tributário brasileiro é indecifrável. Sobre as costas do cidadão pesa uma das maiores cargas tributárias do planeta, embutida aqui e acolá. No final, ele não sabe o que paga, quanto paga e a quem paga.

A barafunda é tamanha que leis tributárias são criadas para corrigir erros de outras, sem que as anteriores sejam extintas. Um caso típico é a compensação dos Estados no caso de desoneração de ICMS. O Supremo teve de fixar prazo até o final deste ano para que o Congresso aprove a lei complementar prevista na Lei Kandir, de 1996, e que nunca foi feita.

O improviso, que nas artes se conecta com a criatividade, é, na política, fruto do desinteresse, da indiferença, do desdém - e da corrupção -, itens fartos no ambiente da coisa pública.

Predomina na educação, com políticas alteradas a bel prazer dos governantes da vez, seja na União, nos estados ou nos municípios. Nas obras de infraestrutura, na burocracia que atrasa e encarece a vida de muitos e enriquece alguns, na totalidade dos serviços que o Estado tem obrigação de colocar à disposição das pessoas.

O desprezo é de tal monta que a ausência de remédios ou médicos em postos de saúde é tida como natural, que soterramentos em épocas chuvosas são tratados como acidentes imprevisíveis, que esperar anos a fio faz parte da dinâmica de uma Justiça que sempre tarda, que homicídios têm de frequentar o cotidiano dos brasileiros.

Estão corretíssimos aqueles que reivindicam planejamento. Mas não só na questão carcerária, e sim na totalidade das áreas delegadas pela a sociedade à gerência do Estado. E há de se avançar além dos planos -- anunciados com espalhafato e poucas vezes executados --, sem o que se perpetua o império do descaso.

Cinzas na paisagem

O mundo da política é, frequentemente, povoado por cinzas. Principalmente em democracias incipientes. Massas escuras se acumulam nos espaços e nas distâncias, dificultando a visão de atores e espectadores.

É assim que o Brasil hoje se apresenta. Há nuvens plúmbeas esmaecendo a claridade para qualquer canto que se olhe.

Para onde os políticos irão após a conclusão das meticulosas investigações da Operação Lava Jato?

Chega a 200, comenta-se, o número de habitantes dos largos dutos abertos nas curvilíneas estruturas da afamada empreiteira que virou fonte maior da corrupção no país.

A imagem pode conter: texto

O Poder Judiciário recebe as glórias do aplauso, cantado e aclamado por camadas de todas as classes. Merece tantas loas?

O Poder Legislativo, o mais aberto e exposto à indignação, vegeta no mais profundo poço da descrença. Seus participantes passam a vergonha do apupo quando se identificam em lugares de afluxo popular.

O Poder Executivo, decidido a puxar a locomotiva de mudanças para tirar o país do atoleiro, continua a ser alvo de críticas do grupo que abriu o maior rombo nas finanças do Estado em todos os tempos.

Dissonâncias e paradoxos se multiplicam nos vãos e desvãos da República, a indicar acentuada falta de bom senso tanto por parte daqueles que se dão ao trabalho de interpretar os acontecimentos quanto por parte das massas.

As trilhas do labirinto

Percorramos trilhas desse labirinto. Comecemos com o Judiciário, onde o juiz Sérgio Moro, elevado às alturas, tornou-se símbolo da moralidade.

Não há como negar a coragem e, sobretudo, sua determinação de seguir um roteiro bem traçado para apurar os desvios que se acumularam ao longo dos anos nas malhas do Estado sob o mando de um grupo treinado na arte de trocar favores.

Mas o exemplo de Moro serve para pavimentar a trajetória do Judiciário ou ele é uma exceção?

Se lembrarmos, por exemplo, que dos quase 700 mil presos no Brasil, cerca de 40% ou mais esperam por julgamento? A inferência torna-se obvia: as rebeliões e os massacres que ocorrem no território, com destaque para as matanças de Manaus e Boa Vista, apontam o Poder Judiciário com sua parcela de responsabilidade na paisagem da insegurança nacional.

Ainda na esfera do Judiciário, não há como deixar de apontar a fúria legisladora que usa para reinar sobre uma pletora de assuntos.

Será que o Congresso Nacional não tem competência, por exemplo, para dizer se o presidente de um mandato-tampão na Câmara dos Deputados pode ou não ser candidato à presidente na legislatura seguinte?

Um juiz pode proibir a concessão de aumento de tarifas de transportes? Tem ele de se imiscuir no planejamento financeiro de empresas de transportes e nas planilhas governamentais?

Subamos ao STF. Por falta de uma legislação infra-constitucional, o Supremo tem se transformado em fabriqueta de leis, sob o argumento de que apenas cumpre a missão de interpretar a Constituição.

A avalanche legislativa chega até o terreno da primeira instância, onde juízes paralisam serviços da Internet, proíbem aumentos nas tarifas de transporte urbano etc.

Quanto à questão dos massacres nas prisões, só mesmo incautos e desinformados enxergam a União como a responsável única pela situação dos presídios, quando a tarefa da segurança é, primordialmente, dos Estados. Mas a segurança pública é uma questão que afeta a todos os Poderes.

A vigilância de nossas fronteiras é crucial para fechar as fontes de abastecimento das gangues. Tarefa da União.

Recursos do Poder federal devem ser disponibilizados para o adequado funcionamento dos presídios.

Do Legislativo devem sair os instrumentos legais para o duro combate aos arsenais da bandidagem.

Nesse momento, porém, o Poder Legislativo se debruça sob sombras. Daí ser turva a visão do que poderá ocorrer com os cerca de 200 habitantes do planeta empreiteiro. Haverá para eles luz no fim do duto?

A luzinha que se vislumbra é a vela do caixa dois. Isso mesmo. Recursos financeiros para partidos e candidatos teriam duas origens: o caixa oficial, que recebe recursos doados e comprovados pelos partidos; e o caixa dois, com recursos não contabilizados, sujeitos, sim, a uma pena, porém não tão grave como a propina. Essa é a tese que ganha força nas interlocuções.

Enfiar uma grande parcela do Parlamento na prisão provocaria uma balbúrdia monumental.

As reformas

Quanto ao Poder Executivo, vê-se um governo profundamente interessado em fazer decolar a nave da economia, sob o bumbo de grandes reformas, como a PEC do teto de gastos, a reforma da previdência, a modernização da legislação trabalhista e a reforma educacional, entre outras.

Do outro lado da rampa, em palanques politiqueiros, o comandante Lula, sempre de vermelho a tiracolo, anuncia uma possível candidatura em 2018 para (vejam bem) “recuperar a confiança, a credibilidade” do país. É mesmo para gargalhar. 13 anos de PT queimaram as bandeiras da esperança e da fé. A confiança no país ruiu. E agora reaparece Lula invertendo a ordem das coisas.

Mais: pregando o crescimento com o uso do “compulsório” (dinheiro retido dos bancos) e das reservas internacionais.

O pior é que a galera que, por anos a fio, ganhou trocados para gritar slogans e aplaudir o verbo roto e saturado de Lula, volta a vê-lo como o santo que vai salvar o Brasil.

Lula, com 5 processos nas costas, espera uma revolução das ruas caso seja condenado em segunda instância e impedido de se candidatar à presidente em 2018.

Há muito mais a se ver sob as cinzas que cobrem o território.

Mocinhos e bandidos se abraçam fazendo uma algaravia.

Constroem-se estátuas para heróis, alguns merecendo o epíteto, outros nem tanto.

A expressão demagógica ressurge como se o ontem já estivesse de todo sepultado. É o caso de pinçar o verso do poeta Reinhold Niebuhr: “Senhor, dai-me serenidade para aceitar o que não pode ser mudado; coragem para mudar o que pode ser mudado; e sabedoria para distinguir uma coisa da outra."

Há 122 anos

Conhecido como um autor de romances famosos no século XIX, Leon Tolstói passou por uma fulguração comparável àquela de São Paulo no caminho de Damasco. Depois de um consagrador sucesso, renegou seu modo de viver que lhe dava trânsito nos salões dourados das aristocracias russa e europeia, virou a página, escrevendo a obra-prima “O Reino de Deus Está em Vós”.

Rompeu, com antecedência de alguns séculos, os paradigmas sociais, políticos e culturais de seu tempo. Sem inventar nada. Apenas adotando o Sermão da Montanha como filtro de seu olhar, fez uma crítica penetrante ao sistema vigente em sua época, à forma de governar e dominar as massas. Mostrou que as vias da não violência e o respeito à verdade são imprescindíveis para uma sociedade harmoniosa.

Resultado de imagem para tolstoi cartoon

Imediatamente excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa e banido pelo governo do czar, Tolstói passou a sofrer perseguições em toda a Europa. Seu livro profético, entretanto, chegou ao cidadão indiano Gandhi, depois reconhecido como Mahatma (grande e excelso homem), transformando radicalmente o curso de sua vida, despojando-o de qualquer ambição material e colocando-o a serviço de uma missão superior, social e política aqui, na terra. Especialmente na subjugada e miserável Índia, fracionada em classes intransponíveis e explorada pelo império inglês.

O livro desapareceu de circulação, queimado nas fogueiras, e foi reeditado apenas em 1988, quando inspirou os movimentos de ecologistas, pacifistas, intelectuais do bem que anseiam pela sobrevivência da humanidade num modelo sustentável e universal. O livro se mantém atual como nunca, mereceria ser estudado nas escolas e estar na cabeceira dos homens de poder, especialmente dos políticos que, ao assumirem um mandato, anseiam pelo bem-estar de uma nação sem prejudicar as demais.

“Veja quanto é inútil e injusto recolher impostos do povo trabalhador para enriquecer funcionários (ocupantes de cargos públicos) ociosos”, apostrofou Tolstói.

“Quanto mais alta é a posição de um homem na hierarquia corrompida, tanto mais instável (e nociva) sua presença, pois ele tem fé na duração ilimitada da organização (criminosa) existente, que lhe permite cometer barbaridades com a maior e a mais perfeita tranquilidade de espírito, como se não agisse em seu proveito (para se locupletar)... Essa é a situação quase comum dos funcionários (do Estado) que ocupam posições mais lucrativas (e estratégicas) de quanto poderiam ocupar em outra organização (por mérito real e pessoal)”, escreveu no ano de 1894.

“Na função pública, a tendência (de exploração do poder) se estende do mais humilde policial à mais alta autoridade”, anotando, infelizmente, que o poder se presta aos interesses pessoais. O governo defende a cobrança de impostos para atender a saúde pública, mas não se esforça hoje, no Brasil contemporâneo, para livrar-se da corrupção que o devasta. Insiste em cobrar mais, quando poderia primeiramente gastar menos cortando os desvios monumentais.

Bilhões são subtraídos na forma de impostos para aplicar em aposentadorias injustas, privilégios descabidos para autoridades. Práticas que apenas sobrevivem no Brasil quebrado e castigado por filas infindáveis no atendimento.

Outros bilhões são desviados cinicamente, com juros da dívida, de obras públicas desnecessárias, da merenda escolar, do programa Bolsa Família, num país que enfrenta parcela assustadora de crianças e jovens sem alimentação suficiente e que, bem por isso, pagam com graves prejuízos em sua formação.

Escreveu Tolstói há 122 anos: “A corrupção consiste em tomar do povo suas riquezas por meio de impostos e distribuí-las às autoridades constituídas, que se encarregam de manter e aumentar a opressão (e o desserviço). Essas autoridades compradas, desde os ministros até os escreventes, formam uma invencível união pelo mesmo interesse: viver em detrimento do povo. Enriquecer, tanto mais quanto maior é a submissão” aos esquemas perversos que exploram o poder.

Para chegar a isso, observa que é o “hipnotismo” do povo, que consiste em deter o desenvolvimento moral dos homens, com diversos métodos, inserindo o arcaico conceito de vida materialista, apegada a vícios, superstições e prazeres ilusórios.

Faleceu como “subversivo excomungado”, pregando que os “deveres de cidadão devem ser subordinados aos deveres superiores da vida eterna de Deus” e lembrando, do Atos dos Apóstolos (5, 29): “É preciso obedecer antes a Deus que aos homens”.

Domingo de MPB

E vergonha na cara, neca!

Estamos vivendo a coincidência de crises muito extensas e profundas: a política, a econômica e a moral.
 
A Lava Jato está mostrando isso: governador preso, ex-ministro preso, empresas quebradas, a política tendo como objetivo o enriquecimento pessoal
General Sergio Etchegoyen, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional

Uma ética para o futuro

A estratégia de Gandhi de ação contra a injustiça, até hoje não mereceu a receptividade devida no Ocidente, apesar de encontrarmos ecos em lutas como a de Luther King, por exemplo. No Brasil, o seu pensamento ainda é desconhecido nos meios acadêmicos, embora popularmente seja apropriado no mais das vezes por um misticismo que obscurece o actor político e pensador arguto que ele foi. A experiência gandhiana com a Verdade não se limita nem se subordina ao moralismo imposto pelas religiões ou pela esfera dos negócios públicos, antes, dirá ele, “a verdadeira moralidade não consiste em seguir caminhos já trilhados, mas em encontrar o caminho verdadeiro para nós mesmo e segui-lo com intrepidez. Todo verdadeiro progresso é impossível sem tal perseguição incansável da verdade” . 

Nesse caminho contra a injustiça, Gandhi (que leu Thoreau, embora antes disso já agisse como ele indicava), diria “que obedecer a todas as leis, sejam boas ou más, é uma invenção recente.(...) Para os seres humanos que queiram levar uma bela vida moral, uma lei deve antes de tudo ser justa. A política moderna faz da lei um ídolo, simplesmente porque é a lei”. O caminho dessa desobediência e resistência será, entretanto, não o da revolução sangrenta , mas o da não-violência como uma “resistência activa” (como a denominava Gandhi, repelindo a expressão resistência passiva) : “para encontrar a Verdade e Deus, o caminho inevitável é o amor, isto é, a não-violência. Ora, creio firmemente que o fim e os meios são termos relacionáveis e não hesito em dizer que Deus é Amor.” (Gandhi, 1994). Deste modo o padrão tradicional de acção política seria rompido por Gandhi, na medida em que para ele os fins eram condicionados pelos meios na mesma medida em que considerava o futuro como contido no presente. Para isto renunciou a quaisquer métodos conspirativos contra o adversário. Isto transformou as suas batalhas contra o governo inglês em combates rituais nos quais as regras eram conhecidas de ambos os lados. Esta relação extraordinária entre meios e fins era correlata à ideia subjacente à satyagraha de que o processo e não os resultados era o mais importante. A experiência da verdade implica na renúncia aos frutos da acção e focaliza a sua atenção nos princípios éticos do agir político. Não há planos rigorosos a seguir, nem teologias e finalismos, mas fundamentalmente o momento presente.
Únicos bens deixados de herança por Gandhi
“Satyagraha, literalmente, significa agarrar-nos à verdade, isto é, significa que a verdade é força. A verdade é alma e espírito. Satyagraha é, portanto, força da alma. Exclui o uso da violência , porque o homem não tem a capacidade de conhecer a verdade absoluta e, por isso, não pode tomar a liberdade de punir. A desobediência civil que é um aspecto da satyagraha, é uma violação civil, isto é uma violação não violenta das leis imorais do Estado. Outro aspecto da Satyagraha é a não cooperação, a recusa de colaboração com o Estado quando, na opinião do colaborador, ele se torna corrupto. Por sua própria natureza, a não cooperação é acessível até mesmo àqueles que são de mentalidade infantil, e pode ser praticada pelas massas”(Young Índia, 23.03.1931 in Woodcock, 1993).

Não-violência e Verdade tornam-se, deste modo, instrumentos específicos na construção de uma cultura de paz, importantes na estratégia de luta política (e cabe lembrar o grande estratega que foi Gandhi). A não-violência é um combate espiritual (e nesse sentido indissociada da Verdade) e político cujas armas são o Contacto com o adversário, a Não-Cooperação e a Desobediência Civil. Mesmo distanciando-se muito da concepção tradicional de política e pertencendo a tradições filosóficas distintas estes pensadores, embora com diferenças marcantes, une-os uma concepção do espaço público, não como esfera autónoma, mas como campo marcado pela eticidade e neste sentido é que irão elaborar directa ou transversalmente reflexões sobre uma cultura de paz, entendida como uma utopia, como um processo a ser construído. Esse eixo é que nos permite estabelecer pontes entre tradições filosóficas e religiosas distintas. Especialmente para Gandhi, Buber, Levinas, Ricoeur e Mounier, a relação humana, em suas dimensões privada e política, antes de ser essencialmente violenta é, na verdade, uma travessia em direcção ao Outro, ocorrendo no sentido de se olhar para ele como meu igual, aquele que, sendo ou não ele meu adversário, compartilha comigo uma raiz fundamental: a humanidade e pelo qual tenho responsabilidade. Retomá-los faz-se necessário a fim de se analisar sem preconceitos as possibilidades de construção de outros valores alternativos aos apresentados pela violência, isso num momento no qual no mundo moderno se aprofundam ainda mais a indiferença em relação ao Outro exposta na apologia ao mercado, na fetichização da globalização, na política espectacularizada, nas massas miseráveis jogadas nos braços da barbárie de maneira subtil, porém , não menos cruel do que Auschwitz . A construção de símbolos, valores e práticas em torno da paz é essencial para a sobrevivência da humanidade, não é algo para agora, mas semelhante à proposta de Hans Jonas, uma ética para o futuro. 

Num mundo no qual as grandes narrativas fundadoras do comportamento humano foram eliminadas, onde o niilismo se faz acompanhar de relações pautadas na razão instrumental, a reflexão sobre não-violência em suas relações com a política é de importância máxima. O desafio é como podemos tecer relações no espaço público que ultrapassem o vazio ético no qual vivemos, para utilizar a expressão de Hans Jonas. Vazio esse que se apresenta de maneira mais contundente com a crise na figura do Estado e a deslegitimação da política mesma enquanto possibilidade de construção do bem colectivo, o que conduz à apatia entre os cidadãos e a sua substituição pela figura do consumidor. O fenômeno é observado em todo o mundo mas em especial assume dimensões singulares na América Latina. Como alternativa a isso os mecanismos de ação violenta nos processos sociais e políticos se tornaram lugar comum, banalizaram-se, passando mesmo a ser legitimados.

O que importa destacar é que no debate sobre a cultura de paz é possível, repetimos, o estabelecimento de nexos entre tradições filosóficas distintas mas que têm um eixo em comum: o deslocamento em direção ao Outro e a percepção deste como aquele pelo qual se tem responsabilidade.
Kátia Mendonça, "Em torno do conceito de cultura de paz"

Papel democrático do jornalismo

No ano que ficou marcado pela veiculação recorde de notícias falsas na internet, a confiança dos brasileiros nos jornais cresceu. De acordo com a Pesquisa Brasileira de Mídia 2016, feita pelo Ibope, 60% dos entrevistados afirmaram confiar sempre ou muitas vezes nos jornais. Em 2015, o porcentual foi de 58% e em 2014, de 53%.

A pesquisa revelou também um aumento no índice de leitura dos jornais. Em 2016, 32% dos entrevistados responderam que, ao menos uma vez por semana, leram algum jornal. No ano anterior, o índice foi de 21%. “Há claros sinais de revitalização do meio jornal, e a alta credibilidade conferida pelo público é a maior demonstração disso”, afirmou o presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech, ao comentar a pesquisa do Ibope.

Resultado de imagem para mentira nas redes sociais charge

Outro dado captado pela enquete foi o aumento da leitura do jornal na versão digital. Entre os leitores habituais de jornal, o porcentual de pessoas que afirmaram ler mais na versão digital subiu de 10% para 30%, entre 2015 e 2016.

Além dos jornais, outros meios de comunicação que fazem jornalismo profissional também têm boas taxas de confiança. Por exemplo, 57% dos entrevistados afirmaram confiar no rádio; 54%, na TV; e 40%, nas revistas.

Em contrapartida, cresceu a desconfiança nas redes sociais. Segundo a pesquisa do Ibope, 84% dos brasileiros confiam poucas vezes ou nunca confiam nas informações obtidas por meio das redes sociais. No estudo anterior, o índice de desconfiança era de 71%. Também se observou um aumento da desconfiança em relação aos blogs – de 69% para 83% – e aos sites – de 67% para 78%.

Os dados mostram que o público consegue distinguir, na mesma plataforma digital, as diferentes fontes de informação e perceber que cada uma merece um específico grau de confiança. Tal discernimento é de grande importância para a vida social e política.

De fato, o novo relatório Digital News Project 2017, do Reuters Institute, alerta para os efeitos das novas tecnologias sobre a qualidade da informação e da democracia. Ainda que sempre tenham existido notícias falsas, o fenômeno ganhou com as redes sociais uma nova proporção, com novos efeitos. Como lembra o relatório, citando Mark Thompson, “nossos ecossistemas digitais desenvolveram um ambiente quase perfeito para que notícias falsas ou distorcidas prosperem”.

A fragilidade do sistema informativo das redes sociais ficou evidente nas semanas prévias às eleições norte-americanas, quando houve um boom de compartilhamento de notícias falsas, dizendo, por exemplo, que o papa Francisco apoiava o então candidato Donald Trump ou que Hilary Clinton teria vendido armas ao Estado Islâmico. Nesse contexto, a vitória de Trump só fez crescer os temores em relação aos algoritmos utilizados pelas redes sociais para definir quais informações terão maior visibilidade.

É simplesmente impossível que a informação qualificada, com sólido suporte em fontes confiáveis, seja produto tão somente de uma fórmula matemática, necessariamente limitada ao aspecto quantitativo da realidade. Na apuração da notícia, continua sendo necessário o elemento humano, com seu olhar a captar aspectos imperceptíveis ao computador.

O funcionamento da democracia depende da qualidade da informação. Opiniões políticas baseadas em mentiras nada mais são do que uma perversa manipulação das vontades. Por isso, é tão importante que a população seja capaz de discernir entre o que é jornalismo e o que não é. Só assim ela não estará vulnerável aos aproveitadores de plantão, que manobram com destreza as fragilidades do mundo digital em benefício próprio.

Notícia não é mero conjunto de caracteres, nem tampouco uma commodity. Ela tem muitas e graves consequências sociais e políticas. É por isso que a internet só fez aumentar a responsabilidade democrática do jornalismo. Mais do que nunca, cabe a ele prover à sociedade uma informação que vá além dos interesses dos poderosos.

Editorial - O Estadão

Paisagem brasileira

albano-carvalho-praia-das-pitangueiras-o-s-t-635-x-79-cm-assinado-e-datado-1948-no-c-i-e-e-titulado-localizado-ilha-do-governador-rj
Praia das Pitangueiras, Ilha do Governador (1948), Albano Agner de Carvalho

Só se nós fizermos...

“Feliz Ano Novo! Depois desse horrível 2016...’’ Foi o que mais se ouviu na passagem de datas. Pois sim... Deu o dia 1º, e o chamado Estado Islâmico matou 39 pessoas em Istambul. — Começo ruim, mas quem sabe... — No mesmo dia, rebelião no presídio de Manaus matou mais de 60 detentos. Bastou? Nada. No dia 6, outro levante, esse em Rondônia, deixou mais 33 decapitados. Sim, decapitados. Nas duas penitenciárias a selvageria se arrematou com a decapitação dos vencidos. — Briga entre grupos criminosos, disseram. Um pavoroso acidente, foi a fala presidencial, depois de um longo silêncio. A isso chegou a banalidade na percepção do mal. Um secretário do governo federal não se envergonhou de afirmar que uma limpa dessas devia ocorrer toda semana. E o diretor da penitenciária de Manaus pontificou que ali ninguém era santo. — Mas foram os próprios detentos que praticaram essa barbaridade, dizem os apressados da vida. — Mas estavam sob a guarda do Estado. — Mas a gestão era privada. — Ah, bom, então... — Que começo de ano!

Istambul já foi Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente. E, antes, Bizâncio, centro da cultura grega depois de Atenas. Fica montada sobre dois continentes. É Ásia por um lado, atravessa-se uma ponte e já se está na Europa. Há ali esse simbolismo. A ponte é um traço de união para quando o Ocidente e o Oriente puderem não mais se estranhar. O EI terá tido essa intenção? Que depois do Bataclan e dos bares de Paris, há pouco mais de um ano, agora estaria na hora de avançar sobre quem dança entre o Leste e o Oeste do mundo? Foi mesmo igual. Jovens se divertiam, bebiam e dançavam, cantavam e estavam felizes — e, depois, não mais. Depois, corpos e sangue. E silêncio. Não era novidade, já tinha ocorrido na capital da França. O choque então foi imenso. Paris ainda é o centro do mundo. Istambul não é mais. Menos manchetes, menos manifestos. Mas o mesmo pavor. O mesmo perpetrador. O terror do Estado Islâmico vai chegando ao Oriente. Está mais perto de casa. Deve ter um sentido esse movimento. Não o compreendemos. Resta-nos o espanto da repetição. Daqui a pouco, nem isso. Repetição é rotina. Um dia apenas constataremos: aconteceu de novo. Deus nos livre da rotina na percepção do mal.
Charge O Tempo 14.1.2016
O Estado Islâmico entrou no mapa da barbárie com as imagens espantosas das decapitações. O soldado imponente, a vítima de joelhos, a lâmina suspensa. E a imagem nas redes. Foi uma novidade. Em Manaus, já não mais. Uma facção decapita a outra, exibe as cabeças e os facões, faz fotos e selfies. E põe na rede. Uma parte do país se revolta. Menos de metade. Para os outros, o diretor do presídio tem razão: não há santos ali. Se quiserem se entredestruir, é um favor que fazem. — A quem? — A nós, os bons. O Ano Novo começou assim.

A resposta das autoridades é macha, enérgica: mais presídios! É guerra! Domingo passado um caminhão em Jerusalém repetiu a manobra assassina de julho em Nice e lançou-se sobre civis inocentes. Com requintes: deu marcha a ré sobre os corpos para se assegurar do seu sucesso. De novo, a barbárie solta, o Terror. O Terror, não temamos a palavra. Os terroristas. — A reação veio rápida: intensificação dos ataques aos palestinos. O diretor de Manaus talvez rejubilasse: entre eles, não há santos.

Há, às vezes, um certo pudor entre nós em dizer que é o Terror, hoje, o inimigo global. Ainda é recente a memória de quando todos que nos opúnhamos às ditaduras da América Latina éramos chamados de terroristas. Mas não tenhamos receio em dizer que no mundo globalizado o Terror é o inimigo global. Não tem limites nem fronteiras. Nem alvos, muitas vezes. Atira onde der, acerta em quem pegar. Seu alvo é a vida. Para distribuir mãos cheias de medo. Terrível semeadura! Não colhamos seus frutos. Mas não nos enganemos: o medo global é o objetivo do Terror. Não tenhamos medo.

É bem perto de nós que temos a fome pandêmica. As meninas proibidas de estudar. As violências e segregações. Os corpos martirizados das mulheres. A repressão aos amores fora da cartilha. As navegações da morte sem porto. As guerras sem sentido e sem fim. A violência dos Estados. O ressurgimento da extrema direita. — Todas essas são doenças que andam por perto. Têm vítimas e responsáveis. Nós os conhecemos. O Terror, a despeito de todo o seu poder, paira acima delas, acima da vida desgraçada do abandono e da desesperança. Vamos cuidar dessas, as de perto. Não vivemos ‘‘no global’’. Nossas vidas são sempre locais, encarnadas. Viver onde nossas vidas realmente se passam, maciamente, olhando para nossos companheiros de caminho, tantos estraçalhados, pode ser uma boa estratégia. Viver. Tirar o oxigênio do Terror. Não ceder a ele no concreto das nossas existências.

O ano de 2017 não começou bem. Mas não precisa estar condenado a repetir a rotina do Mal
.
Marcio Tavares D’amaral

Massacres em série extirpam ponto de exclamação dos hábitos dos brasileiros

Espantosa época essa que o Brasil atravessa. Uma época em que o horror adquire doce naturalidade. As facções criminosas promovem massacres em série nas penitenciárias do país. E poucos brasileiros parecem dispostos a fazer a concessão de uma surpresa. É matança de bandidos? Pois que venha o extermínio. E com decapitações.

Depois da mortandade de presos em Manaus e Boa Vista, sobreveio, entre a tarde de sábado e a madrugada deste domingo, a chacina da Penitenciária Estadual de Alcaçuz, na região metropolitana de Natal. De um lado uma franquia potiguar do paulista Primeiro Comando da Capital (PCC). Do outro, o Sindicato do Crime do RN, que opera em regime de joint venture com o carioca Comando Vermelho (CV).

Em duas semanas, três massacres. Mais de uma centena de execuções. Os criminosos superaram os anseios de Bruno Júlio, aquele ex-auxiliar de Michel Temer que perdeu a chefia da Secretaria Nacional de Juventude depois de lamentar a baixa produtividade da usina de auto-extermínio que funciona nas cadeias: “Tinha é que matar mais”, ele disse. “Tinha que fazer uma chacina por semana.”

A contabilidade dos horrores de Natal ainda é desconhecida. Na noite passada, o governo estadual admitiu em nota a existência de dez cadáveres. Entretanto, vídeo pendurado na internet indicava a existência de pelo menos 17 corpos. Não foi possível concluir a escrituração porque o poder público estadual, impotente, decidiu que só entraria na cadeia depois do nascer do Sol.


Resultado de imagem para cabeças cortadas no rn
Caio César, secretário de Segurança do governo do Rio Grande do Norte apressou-se em divulgar um vídeo para tranquilzar a população (assista abaixo). “Não houve fuga”, disse o secretário a certa altura. “A população pode ficar tranquila e realizar suas atividades normalmente.” O que a autoridade máxima da segurança no Estado disse aos cidadãos de bem, com outras palavras, foi o seguinte: “Fique calmo. A cadeia está cercada. Lá dentro, os bandidos estão se matando uns aos outros. Nada que mereça a sua preocupação.”

.O Datafolha informou, há três meses, que 57% dos brasileiros concordam com a máxima segundo a qual “bandido bom é bandido morto.” Quer dizer: as facções criminosas não estão senão satisfazendo, por meio do auto-extermínio, a vontade da maioria. Produzem novos carandirus sem a participação da Polícia Militar. É como se a bandidagem unisse o útil ao agradável. Defendem seus territórios e seus negócios. Simultaneamente, atendem à demanda social por sangue.

Nesse contexto, só os chatos, com seu humanismo arcaico, ainda pedem providências e punições. Só os ingênuos, com seu horror postiço, ainda não suprimiram dos seus hábitos o ponto de exclamação. Atentas ao avanço da sociedade brasileira rumo à Idade Média, as facções criminosas já não querem só comida. A bandidagem também quer diversão e arte. A falência do Estado dá ao criminoso a chance de oferecer seu vernissage semanal de cadáveres.

Alô, Brasília, que vergonha

Em artigo anterior, com o título "Cria Cuervos", mostrei como o Brasil foi se tornando um criatório de maus cidadãos, de patifes, mentirosos, velhacos, corruptos, traiçoeiros e dirigentes de igual perfil. Os cuervos, afirmei, são criados por quantos chamam bandido de herói e herói de bandido, combatem a polícia, riem da lei, proclamam a morte da instituição familiar, ridicularizam a virtude, aplaudem o vício, enxotam a religião, desautorizam quem educa ou usam a Educação para fazer política, e relativizam o bem e a verdade.

Resultado de imagem para rodrigo maia charge

Observe as movimentações para eleição da presidência da Câmara dos Deputados. Quem for escolhido pela maioria de seus pares, além de comandar a Casa e exercer várias outras atribuições importantes, será o substituto eventual do presidente da República. A disputa se trava entre Rodrigo Maia e Jovair Arantes. O primeiro dirigiu aquela sinistra sessão em que - forçando um poquito pero no mucho a expressão - as dez medidas contra a corrupção se transformaram em regras desmedidas a favor dos corruptos. E fez o possível, Rodrigo Maia, para que tudo acontecesse conforme articulado nos bastidores, inclusive o tardio horário em que se desenrolou a escabrosa parte deliberativa da sessão. Do segundo, é dito que representa o centrão, grupo de deputados do baixo clero, cuja principal atividade parlamentar seria usar os votos e o poder do bloco para intercambiar favores que, na maior parte dos casos, não se distinguem de meros negócios. Tudo indica que estamos lidando com títulos de estampado valor de face.

A essas alturas, impõe-se perguntar se não há naquele plenário alguém com estatura para o cargo. É claro que há. E não são poucos, embora não sejam muitos nem em número suficiente, os homens e mulheres que honram seus mandatos e os exercem com integridade, voltados ao bem do país. No entanto, eventuais disposições para concorrer à liderança maior da casa, que entre eles surjam, tropeçam num grande obstáculo. Nesse parlamento dominado por indivíduos de péssimo caráter é muito difícil a uma pessoa de bem articular, ao seu redor, um grupo que viabilize suplantar, em votos, os atuais disputantes. Sei que há iniciativas. Tomara que funcionem. Mas o cenário que desenho é real.

A sociedade que cria corvos é a mesma que os elege. E a experiência já mostrou que, no atual quadro institucional e moral do país, se o Poder Judiciário não afastar do poder os criminosos, não há lei de "fidelidade partidária", nem da "ficha limpa", nem projeto das "dez medidas", nem o que mais ocorra à criatividade nacional, que consiga aprimorar o tipo de representação política da nossa sociedade. Chega a ser ridículo. O Brasil foi levado para essa perdição como um adolescente conduzido por más companhias.

Percival Puggina 

sábado, 14 de janeiro de 2017

A morte do homem cordial

A aliança de modernismo e ufanismo alimentou, desde cedo, a ilusão do brasileiro como protótipo do homem cordial. Faz parte daquelas fantasias que impulsionaram a virada do século XX. A efusão da natureza, a força do sertanejo e a cordialidade inata são capítulos de uma história precipitadamente edificante. Foi surpreendida por algumas curvas do caminho, quando certos desvios inesperados, a urbanização avassaladora, a irrupção das massas e a privatização da esfera pública agravaram o quadro insólito.

A percepção aguda de Mário de Andrade já havia identificado, na sua “Pauliceia desvairada”, sinais evidentes de um desvario que se expandiu por todo o território nacional, de Porto Alegre a Manaus.

A máquina de trituração da metrópole avançou sem pedir nem aceitar licença de ninguém. O tripé republicano, com mecanismo de acesso controvertido, se visivelmente abalado, em meio a licitações ilícitas, negócios escusos conduzidos pelas municipalidades de várias geografias. A representação política perde legitimidade e, consequentemente, representatividade.

O poeta Carlos Drummond de Andrade certamente perguntaria: E agora, José?


Resultado de imagem para o homem cordial ilustração

A própria ideia de cordialidade já era um resíduo essencialista, que os pensadores plantados teriam dificuldades de absorver. Porque nenhum homem é ou deixa de ser cordial fora do seu horizonte existencial. Ou seja, indiferente à sua circunstância (Ortega), à sua situação (Sartre), aos angustiantes sinais do ser no tempo (Heidegger).

Assim sendo, o homem cordial brasileiro levantou voo sem gasolina no tanque, e deu no que deu. Alguma coisa parecida com o trajeto da Chapecoense.

O capítulo da escravidão nunca foi um exemplo de cordialidade. E fomos os últimos na América Latina a se livrar dessa praga. Os índices de violência hoje, segundo agências idôneas, ultrapassam aqueles que têm lugar em países em estado de guerra. As taxas de homicídio, praticados dentro e fora dos presídios, nos conferem medalha de ouro (falso) na olimpíada da criminalidade. A junção de violência social e violência política denuncia o quadro de calamidade, que começa a ser institucionalizado em todo o país. A privatização do público é a negação da cordialidade.

Grande parte do que vem acontecendo se deve ao fato de que a educação e a cultura não foram chamadas a participar do encaminhamento dessas questões. Duas entidades estruturalmente solidárias, a serem pensadas conjugadamente, no polo oposto do que supõem as corporações nervosas.

A educação é, em princípio, a cultura escolarizada. Enquanto a cultura é a educação transescolar, mais virtuosa que virtual. Ambas têm de conviver hoje com a internacionalização e com a internetização.

Não são da competência apenas de uma repartição ou de um ministério. São ambas, ou uma só, políticas de Estado. Por essas e outras razões, tem faltado cultura à educação e educação à cultura. E, na falta de ambas, facilita-se ou contribui-se para a proliferação da violência e da criminalidade.

O homem cordial já se encontrava respirando por aparelhos. Ultimamente, ao que tudo indica, esses aparelhos foram desligados.

É claro que tudo tem a ver com a prática da justiça social. Quando aumenta a desigualdade, diminui a cordialidade.

Daí a necessidade de uma reforma política, ampla, geral e irrestrita, a ser conduzida jamais pelos protagonistas do caos, e sim pelo mais íntegro diálogo societário.

Eduardo Portella 

A cartada final de Lula

Lula continua encenando o papel de presidenciável. Sabe que as chances reais de exercê-lo de fato são tão remotas quanto as de Dilma Roussef voltar à vida pública.

Lula é réu em cinco processos criminais - e em breve o será de outros mais, podendo ser preso a qualquer momento.

Queixa-se com frequência de que já não pode comparecer a locais públicos sem ouvir desaforos. Viajar em aviões comerciais, nem pensar. Viaja em jatos particulares, cedidos por amigos. Hoje, só fala a plateias amestradas – e mesmo aí já enfrenta resistências.

Na quinta-feira, por exemplo, num encontro em Brasília, foi vaiado pelo PSTU, legenda da esquerda radical que o considera um traidor da causa. E a causa, óbvio, é a revolução, abandonada ou negligenciada na medida em que Lula enriquecia e se aburguesava.


Com todas essas credenciais adversas, Lula insiste, como disse esta semana em Salvador, em que, “se for necessário”, voltará a disputar a presidência da República. Não esclarece que necessidade seria essa. Do país, seguramente, não é.

O rastro de destruição – política, econômica, social e moral - que o período por ele inaugurado, em 2003, e encerrado em 2016 com Dilma, deixou confere-lhe uma das maiores taxas de rejeição de toda a história. Dilma é parte de sua obra, concluída com um impeachment e a revelação do maior escândalo de corrupção já visto em todo o mundo. Corrupção e má gestão, soma fatal, que impôs ao país a crise atual, da qual procura acusar os que a herdaram.

Diante de tal cenário, sua candidatura a presidente só não é uma piada porque serve a uma causa real: sua blindagem, pessoal e política. Mantendo-se presente e atuante no cenário público, dá concretude àquilo que dele falou o presidente Michel Temer, a quem finge odiar, mas com cuja complacência tem contado.

Temer, numa recente entrevista ao programa Roda Viva, se disse contrário à prisão de Lula por achar que tumultuaria a paz pública. Com isso, conferiu-lhe um prestígio que já não tem – e o transfigurou em salvo conduto, inibindo, de maneira oblíqua, a ação dos que têm a responsabilidade de fazê-lo pagar por seus delitos.

Não parece ter sido por mera simpatia que o fez. Temer receia o que está por vir – as delações, sobretudo as da Odebrecht - e parece inclinado a estabelecer um armistício com o PT, de que dá testemunho a preservação de aliados da velha ordem em cargos estratégicos da administração pública.

PMDB e PT, afinal, foram parceiros. Embora o comando da Organização Criminosa (nas palavras de Celso de Melo, do STF) coubesse ao PT, o PMDB desfrutava de alguns feudos dentro da máquina pública, de que dão notícias operações da Polícia Federal.

A mais recente delas, ontem efetuada, flagrou uma rapina organizada dentro da Caixa Econômica Federal, entre 2011 e 2013, envolvendo o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o vice-presidente daquela instituição, Geddel Vieira Lima, até há pouco ministro do núcleo duro do governo Temer.

Para sorte de Temer, Geddel caiu antes desse escândalo, por outro comparativamente menor. Mas a lama do PT, como é óbvio, salpicou também – e com frequência - no PMDB.

Lula investe nisso ao atacar o governo Temer, ao tempo em que busca um protagonismo oposicionista, que o transfigure de mero (ou por outra, mega) gatuno em perseguido político.

É um jogo esquizofrênico em que, de um lado, pede a cabeça do presidente da República e, de outro, manda PT e aliados apoiar o candidato do Planalto à presidência da Câmara, Rodrigo Maia.

Claro está, portanto, que não postula a presidência para valer; quer apenas tornar mais complexa ou mesmo impossível a operação de colocá-lo atrás das grades. Joga sua cartada final.

Imagem do Dia

Praia de Salento (Itália) coberta de neve

Maior que o Brasil

(Lava Jato) é o maior caso de corrupção já documentado. O maior do mundo. Já investigado e provado. Pode ter existido algum outro, mas não documentado como esse.
 Resultado de imagem para lava jato  brasil charge
Impressiona o gigantismo da corrupção
Bruno Calabrich, procurador do Ministério Público Federal

Memória demolida

Fechado, sem dono e saqueado, o Maracanã se desmancha às nossas vistas. Gramado, túneis, vestiários, salas, vidros, esquadrias, tudo destruído. Sumiram fiações, computadores, extintores, mangueiras, milhares de cadeiras e, para completar, o busto de Mario Filho —o jornalista cuja campanha foi decisiva para a existência do Maracanã e que, desde sua morte em 1966, honrava-o com seu nome.

Talvez haja aí um componente simbólico: que bom que nem em busto Mario Filho esteja lá para ver o que fizeram com seu estádio. E, assim como ele, tantos outros que escreveram tão bem sobre futebol: seu irmão Nelson Rodrigues, João Saldanha, Sandro Moreyra, Armando Nogueira, Ney Bianchi, Achilles Chirol, Sergio Porto. Todos, em algum momento, cronistas do Maracanã. Nenhum deles, hoje, entre nós.

Resultado de imagem para mario filho no maracanã
Reinauguração do estádio em 2013 com as autoridades reinantes
Mas há um jornalista ainda vivo e que teria ainda mais motivos para sofrer com o estupro a que submeteram o estádio: Sérgio Cabral, historiador do Carnaval e da música brasileira e vascaíno histórico. A partir de 1950, nos degraus do Maracanã, ele viu Ademir, Ipojucan, Pinga, Vavá, Roberto, Romário e Edmundo levarem o Vasco a muitas conquistas.

Às vésperas dos 80 anos, dos quais abençoado há três por uma forma irreversível de demência senil, ele parece não saber muito bem das acusações que pesam sobre seu filho e homônimo, o ex-governador do Rio Sérgio Cabral.

Em sete anos de Sérgio filho à frente do Estado (2007-14), o Maracanã foi derrubado e reconstruído tantas vezes em nome da Copa, do Pan e da Olimpíada que perdemos a conta. Conta esta que a Odebrecht sempre teve de manter em dia, para pagar as supercomissões que, segundo as delações, ele levava. O fato é que, em cada metro de cimento do Maraca que Sérgio filho mandou quebrar, uma parte da memória de Sérgio pai também se esfacelou.
Ruy Castro