segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Chatos

De certo, somente que viramos um povo chato. Ou talvez sempre tenhamos sido. Que talvez por desenho, destino ou desejo, optamos por abandonar o verniz de tolerância que a gente (pelo menos tentava) exibir por ai. Abraçamos a intolerância. E ponto.

Nada de tentar parecer cordial, hospitaleiro, tolerante. Isso é passado. E, tudo indica, distante. Todos apaixonados pela própria voz. Muita voz. Poucos ouvidos. Inteligência, nenhuma.

Faz tempo que a gente não conversa para entender. Cada som, cada palavra, cada ato, é somente para convencer. Ou melhor, converter. E, para aqueles que estão do outro lado da conversa, resta somente a rendição. Ou o combate sem tréguas.

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John Kenn 

Controlar chatos nunca foi ciência exata. Sempre foi arte. Mas já foi mais fácil. Chatos e chatice estavam quase restritos a contatos sociais que, por escolha, poderiam ser ocasionais. Bastava evitar ou sofrer um pouco com a presença desta gente que aos outros encurralava nas festas, ou nas mesas de bar. Era ruim, mas passara. E, melhor de tudo, dava para evitar.

Não é mais assim. Graças à mídia social. Agora, acabou a distancia entre o pensamento e a publicação. Protegidos às vezes pelo anonimato, mas sempre pela frieza da tela, abusa-se do privilégio de falar. Talvez porque não ser compreendido tenha deixado de ser importante. E foi assim que os chatos venceram. E a chatice invadiu tudo.

Agora, todos falam o que desejam sem prestar atenção àquilo que não sabem. Ideias dissonantes são rapidamente combatidas. Aqueles que discordam, rotulados. Com rótulos de todo tipo, desde que seja depreciativo. Ou que sirva para denegrir e destruir reputações e credibilidade. E, se os rótulos não funcionam, vale a ofensa. Nada como violência verbal para destruir comunicação. Funciona mesmo. E, por funcionar, é utilizada a exaustão.

Preferimos perder amigos, brigar com a família, destruir relações a dar o braço a torcer. Impor as próprias ideias é tudo o que importa. Em qualquer circunstancia e ao arrepio dos fatos. Realidade, afinal, não tem mais valor. Apenas o gogó conta. E haja gogó.

Passo a passo, fomos abraçando a chatice. Brigamos com a vida. Ensurdecemos. Embrutecemos. Convivemos com a ignorância. Desaprendemos a sorrir. Quando rimos, é da destraça alheia. Acima de tudo, chatos.

Um país onde a justiça varia não pode ser considerado democrático

Aquela foi uma semana marcada por importantes acontecimentos. Começou com a cassação do mandato de Eduardo Cunha por um escore arrasador, seguiu-se a posse de Cármen Lúcia na presidência do Supremo Tribunal Federal, depois as acusações contra Lula por procuradores da operação Lava Jato e finalmente a resposta do ex-presidente negando fundamento às acusações.

A maneira como aquelas acusações foram feitas não pegou bem, e pior é que, como este jornal divulgou, elas se apoiam numa delação que foi cancelada.

Quero me ater, no entanto, à significação que tem para o país a presença da ministra Cármen Lúcia na presidência do STF, conforme constatamos nas mais diversas manifestações de apoio e otimismo pelo acontecimento. E, se ele já valeu por si só, cabe ressaltar a significação da cerimônia de posse em si mesma.

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Essa cerimônia se caracterizou pela presença de políticos de diversos partidos, além de personalidades como os ex-presidentes José Sarney e Luiz Inácio Lula da Silva, bem como intelectuais, advogados e artistas. Isso indicava, por um lado, o prestígio pessoal da nova presidente do STF, mas também o que significa essa instituição, no momento particularmente crítico da vida política nacional, o que ficou evidente nos discursos proferidos durante a cerimônia, expondo implicitamente essa realidade.

Nesse particular, deve-se ressaltar o discurso da ministra Cármen Lúcia que, não por acaso, fez questão de mostrar que as diversas instituições que expressam o poder do Estado brasileiro, a exemplo do Judiciário, são, de fato, instrumentos da manifestação do verdadeiro poder que emana do povo e em seu nome deve ser exercido. Foi quando ela disse:

"Inicio quebrando um pouco o protocolo ou, pelo menos, interpretando a norma protocolar diferente de como vem sendo interpretada e aplicada: determina se comecem os cumprimentos pela mais elevada autoridade presente. E e justo que assim seja. Principio, pois, meus cumprimentos dirigindo-me ao cidadão brasileiro, princípio e fim do Estado, senhor do poder da sociedade democrática, autoridade suprema sobre nós, servidores públicos, em função do qual se há de labutar cada um dos ocupantes dos cargos estatais".

Por isso mesmo, como diria ela, adiante, irá informar-se de todos os dados relativos aos gastos institucionais e trazê-los ao conhecimento da população, com toda a transparência, para deixar clara a posição que adotaria em face disso. Essa questão envolve o discutido aumento salarial para os ministros do Supremo, que, por sua vez, desencadearia aumentos salariais nos vários setores judiciais, agravando a situação financeira do país.

Outro ponto importante de seu discurso diz respeito à modernização e ao aperfeiçoamento do Judiciário brasileiro, que não atende às necessidades da população, particularmente dos mais pobres que constituem a maioria.

De fato, um país onde a aplicação da Justiça varia de acordo com a classe social a que pertence o cidadão não pode ser considerado efetivamente democrático.

Se o discurso da presidente Cármen Lúcia foi essencialmente institucional, o do ministro Celso de Mello, decano do STF, tocou o cerne do problema que hoje atinge, de maneira alarmante, a vida política nacional.

Para o constrangimento de alguns políticos e autoridades ali presentes, que são investigados pela Operação Lava Jato, ele se referiu aos "marginais da República" que, "por intermédio de organizações criminosas" obtêm "inadmissíveis vantagens e [...] benefícios de ordem pessoal, ou de caráter empresarial, ou, ainda, de natureza político-partidária".

Também o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, abordou o tema da corrupção, destacando a atuação do Ministério Público, que tem desempenhado um papel altamente positivo no combate à ação criminosa de políticos, empresários e altos funcionários de empresas estatais.

A posse da ministra Cármen Lúcia, se teve o significado que teve, deveu-se particularmente ao papel que a Justiça passou a desempenhar publicamente na vida nacional. E a razão disso não é outra senão o alastramento da corrupção exercida, como disse o ministro Celso de Mello, pelos "marginais da República".

Alimentar o mundo

Este mês marca o aniversário de 50 anos do discurso do presidente John F. Kennedy sobre o fim da fome mundial, mas a situação continua ruim. Quase um bilhão de pessoas passam fome no mundo. Faz tempo que produzimos calorias suficientes, cerca de 2,7 mil por dia por pessoa, mais do que o bastante para suprir as necessidades de uma população de 9 bilhões, projetada pela ONU para 2050. Há pessoas passando fome porque nem todas as calorias são para o consumo humano - um terço serve para alimentar animais, 5% são usados na produção de biocombustíveis e um terço é desperdiçado ao longo da cadeia alimentar.

O sistema é insustentável, pois depende de combustíveis fósseis e resulta em danos ambientais. Seu funcionamento é orientado para permitir que a metade do planeta com dinheiro coma bem, enquanto os demais procurem uma maneira de se alimentar gastando o mínimo possível. Paradoxalmente, conforme um número cada vez maior de pessoas pode arcar com o custo de se alimentar bem, a comida vai se tornar mais escassa para os pobres, pois a demanda por produtos animais aumentará, exigindo mais recursos como grãos. Calcula-se que um aumento inferior a 30% na população mundial dobre a demanda por produtos animais. No entanto, não existe terra, água nem fertilizante para que o mundo inteiro consuma carne nos níveis ocidentais.

Pawel Kuczynski-Pawel Kuczynski is a Polish artist that specializes in satirical illustration. Born in 1976 in Szczecin, Poland, he graduated with a graphics degree from the Fine Arts Academy in Poznan. Pawel has been focusing on satire since 2004 and has garnered nearly a hundred prizes and distinctions since then. Much of his artwork deals with serious themes such as poverty, greed, politics and mortality. While his subject matter is stark, his illustrative style is whimsical and cartoonis...:
Pawel Kuczynski
Se quisermos garantir que os pobres comam melhor, precisamos parar de supor que o modelo industrial de produção de alimentos e a dieta que o acompanha, responsável por numerosas doenças, seja desejável e inevitável. É hora de admitir que há dois sistemas alimentares: o industrial e o dos pequenos proprietários, que é mais eficiente. Para o ETC Group, organização de pesquisa de Ottawa, a cadeia alimentar industrial consome 70% dos recursos agrícolas para produzir 30% do alimento mundial, enquanto a "rede alimentar camponesa" produz os 70% restantes usando apenas 30% dos recursos.

Variedades de alto rendimento de qualquer uma das principais espécies de monocultura comercial proporcionarão uma produtividade superior à de variedades dessa mesma espécie cultivadas por camponeses. Mas, ao diversificar o cultivo, misturar plantas e animais e plantar árvores, os pequenos proprietários podem produzir mais comida. Usarão menos recursos e arcarão com um custo mais baixo no transporte, ao mesmo tempo, oferecendo mais segurança alimentar, conservando a biodiversidade e compreendendo melhor os efeitos da mudança climática.

Se definirmos "produtividade" não em termos de quilos por hectare, mas pelo número de pessoas alimentadas pela produção dessa mesma área, veremos que os EUA estão atrás de China e Índia (e também da média global), num patamar equivalente ao de Bangladesh, pois parte daquilo que é produzido é destinado aos animais e biocombustíveis.

Obviamente, nem todos os pobres conseguem se alimentar direito, pois carecem de recursos essenciais: terra, água, energia e nutrientes. Com frequência, isso é resultado de ditaduras, guerras, deslocamentos, calamidades naturais ou da apropriação de terras e de recursos hídricos.

O resultado é uma fuga rumo às cidades, onde os camponeses se convertem em trabalhadores mal remunerados e se alimentam mal. Ao chegar a esse ponto, deixam de ser "camponeses" e viram , os pobres trabalhadores dos EUA. É uma fórmula que produz fome e obesidade. Primeiro é removida a capacidade de produzir comida. Em seguida, a capacidade de pagar pela comida, substituindo-a por uma única alternativa: o alimento ruim. 

Mark Bittman (O Estado de S.Paulo - The New York Times)

Imagem do Dia

Casa na Sérvia

A história do homem empalhado e exibido como um animal

No início do século 19, era "moda" entre os europeus recolher animais de vários lugares do mundo, levá-los para casa e colocá-los em exposição. Um comerciante francês, porém, foi além e trouxe para casa o corpo de um guerreiro africano.

O escritor holandês Frank Westerman descobriu o homem em um museu espanhol há 30 anos e decidiu investigar a história por trás dele. 
Leia, a seguir, o seu relato:

AVISO: Algumas imagens ao longo deste texto podem ser consideradas ofensivas

"Uma cerca de arame decorativa nas cores nacionais - azul, branco e preto - marca a sepultura de um dos mais famosos - e menos invejados - filhos de Botswana: "El Negro".

Seu local de descanso em um parque público na cidade de Gaborone, sob um tronco de árvore e algumas pedras, faz lembrar o túmulo de um soldado desconhecido.

Uma placa de metal diz:
El Negro
Morreu em 1830
Filho da África
Trazido para a Europa morto
Levado de volta a solo africano


Sua fama vem de suas viagens póstumas - que duraram até 170 anos - como as para exibições em museus na França e na Espanha. Gerações de europeus ficaram boquiabertos com o corpo seminu, que havia sido empalhado por um taxidermista. Ali ele ficou, sem nome, exibido como um troféu.

De volta a 1983, como estudante universitário na Holanda, eu acidentalmente acabei "cruzando" com ele em uma viagem de carona para a Espanha. Eu havia passado uma noite na região de Banyoles, uma hora ao norte de Barcelona. A entrada do Museu Nacional de História de Darder era coincidentemente na porta ao lado.

"Ele é real, você sabia?", uma garota de colégio gritou para mim.

"Quem é real?"

"El Negro!", a voz dela ecoou pela praça, acompanhada de roncos e risadas de seus amigos.

No instante seguinte, uma senhora apareceu saindo de um salão com um casaco sobre os ombros. Ela abriu o museu, me vendeu um ingresso e apontou na direção da Sala de Répteis.

"É ali", ordenou. "Aí vá passando pelas salas no sentido horário".

Cartão Postal vendido no Museu Darder, na Espanha
Quando eu estava no caminho para o Quarto Humano, um anexo do Quarto dos Mamíferos, passei uma parede de escalada com macacos e esqueletos de gorilas - e, de repente, comecei a tremer. Estava ali, o Negro de Banyoles, empalhado. Uma lança na mão direita, um escudo na esquerda. Curvando-se devagar, ombros levantados. Seminu, apenas com uma tanga laranja.

El Negro era um homem adulto, pele e ossos que mal chegavam a um cotovelo. Ele estava mantido em um recipiente de vidro no meio do carpete.

Ele era um ser humano, mas sendo exibido como qualquer outra amostra de animais selvagens. A história ditou que o taxidermista era um europeu branco e, seu objeto, um negro africano.

O reverso era inimaginável.

Ao ver essa cena, meu rosto corou e senti as raízes do meu cabelo formigarem - simplesmente por causa de uma sensação difusa de vergonha.

Senhora Lola não tinha uma explicação. Ela nem tinha um catálogo ou um livro com a história daquele homem. Me deu um cartão postal que dizia apenas "El Negro" e que trazia atrás "Museu Darder - Banyoles. Bechuana".

"Bechuana?", eu questionei.

Senhora Lola continuou olhando para mim. "Os cartões custam 40 pesetas cada", ela disse.

Comprei dois.

Vinte anos depois, decidi escrever um livro sobre a extraordinária jornada de El Negro de Botswana (Bechuana) até Banyoles e de volta de novo.

Tchau, PT!

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O maior partido de massas que a esquerda já construiu na América Latina está em liquidação
Ricardo Noblat

Extravagâncias

As biografias e os atos dos atuais indicados para o alto escalão do Ministério da Saúde são, por assim dizer, na falta de melhor expressão, invulgares. O ministro é engenheiro, empresário, deputado federal do Paraná, filho, irmão, esposo e pai de políticos. Em dezembro de 2015, como integrante da bancada do Partido Progressista, votou contra a continuidade do processo de denúncias referentes a Eduardo Cunha. E não ficou com as mãos abanando. Indicado para a Saúde pelo Partido Progressista, compôs uma equipe de declarados especialistas em negócios. O segundo cargo mais importante da área da Saúde, de um órgão que concentra 70% do total dos gastos federais (quase equivalente à dotação para o Ministério da Defesa), foi entregue a um administrador de empresas de Minas Gerais, com mais de 20 anos de autodeclarada experiência no desenvolvimento e criação de relações entre o público e o privado.

O nomeado para a função de coordenar as atividades de ciência, tecnologia e inovação também exibe credenciais de gestão de empresas privadas nos setores de agroindústria, imobiliário e entretenimento, bem como de administração pública de políticas de infraestrutura de Alagoas. O time ficou completo com a posse para a área de recursos humanos do SUS de outro engenheiro e administrador de empresas. Este último atuou no ramo de automotores, logística e atividades agrícolas e na Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vinculada ao Ministério da Agricultura. Declarações do ministro, seguidas por desmentidos, sobre o exagerado tamanho do SUS e o uso excessivo de serviços de saúde pela população, especialmente pelas mulheres, tiveram efeito bumerangue. Exorbitante é querer diminuir as proporções das necessidades de atenção e do SUS, quando todas as pesquisas de opinião indicam a saúde como o principal problema para a população.

Em meio às polêmicas ruidosas, boatos sobre cai, não cai, a esquadra de especialistas em outras áreas pôs em marcha os trâmites para a comercialização de planos baratos. Convocaram um grupo de trabalho composto por órgãos governamentais e pela entidade que representa as operadoras e encomendaram um parecer sobre mudanças nas regras do ressarcimento ao SUS. As duas peças encaixadas redesenham o sistema de saúde, o SUS encolhe e empresta para os planos sua rede pública. Com a oficialização da dupla porta, o atendimento para clientes de planos baratos fica com cara de privado e corpo público. Se contar, ninguém acredita, porém, a desmedida, tornar o SUS um ativo a ser transferido para empresas privadas, foi anunciada como “solução única” para a saída da crise. Se não têm emprego, nem renda, comprem plano privado de saúde, para ao fim e ao cabo ficar no SUS, mas garantir e aumentar receitas das operadoras. O estilo Maria Antonieta chocou a galera, mas agradou a setores empresariais.

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A alta empregabilidade do perfil empresário-político ou empresário-indicado por políticos, na saúde, é incomum. Mas, possivelmente, passará para a história apenas como excentricidade de um sistema político que instalou no centro da política social partidos políticos, nada ou pouco afeitos ao cumprimento das normas que transformam impostos em direitos de cidadania. Concordar com o SUS universal não é obrigatório, exceto para quem exerce cargos executivos e deve cumprir a Constituição. Debater o conteúdo, forma e grau da intervenção governamental nas atividades de saúde é uma tarefa permanente. Quando interesses empresariais e as decisões sobre as regras para uso dos recursos públicos são jogados dentro do mesmo saco, as polêmicas democráticas definham. A agenda de privatização da saúde é a expressão de um enclave econômico forte, sai das reuniões de fóruns patronais-governamentais no Planalto, para divulgação, por meio de consultorias e assessorias de comunicação. Contudo, não chega à planície. Não se veem manifestações nas ruas com faixas “Queremos planos privados de saúde”.

Do lado de fora das salas fechadas, nas eleições em cidades às voltas com problemas muito concretos para a obtenção de assistência de qualidade no SUS, que afetam pobres, remediados e ricos, não se promete plano privado barato. Os candidatos defendem programas invariavelmente voltados a melhorar e ampliar o SUS. Retrocesso, a perda dos insuficientes, mas essenciais, avanços de acesso à saúde não consta da dieta de quem precisa de voto. A solicitação de sacrifícios de reputação para aprovação de restrições adicionais de recursos para a Saúde e a Educação, o ajuste radical, previsto pela PEC 241, tem sido sutilmente rejeitada por parlamentares. A personificação do descrédito na saúde pública em uma autoridade governamental, completamente aderida aos empresários e caótica nas presunções sobre relação aos riscos e agravos e doenças, esquenta a chapa do sofrimento social. Um ministro da Saúde pública, porta-voz de planos privados, parece condensar em si o maior dos exageros. O SUS está de bom tamanho, cabe no Brasil do presente e precisa crescer no futuro. Desproporcional é a terceirização de um ministro para o setor privado.

Ligia Bahia

O pano verde das delações premiadas

Em palestra na Academia Brasileira de Letras, Fernando Henrique Cardoso, após examinar as deficiências da democracia representativa, fez um apelo, sugerindo uma reavaliação do processo eleitoral tal como vem sendo aplicado no Brasil e em outros países, afastando, a priori, qualquer tentativa de ditadura e corrupção.

Impossível que, depois de séculos que tentaram organizar a sociedade, não surgissem alternativas para a democracia representativa, que se transformou numa roleta econômica em que o dinheiro e o suborno prevalecem. A cada pleito eleitoral, independentemente da situação política e econômica que o país atravessa, o que termina definindo a nova ordem social, o que prevalece são os interesses do poder e do dinheiro. As alianças são pensadas e medidas na base das campanhas, que cada vez custam mais caro.

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Com as delações premiadas, ninguém fica livre de suspeitas e tramoias que determinarão programas e conchavos para saciar os apetites políticos e seus derivados. Nenhum seguimento nacional tem cacife suficiente para bancar uma eleição representativa. A solução é apelar para empresas interessadas em influir decisivamente na vida nacional.

Por menor que sejam, os partidos penduram-se nas contribuições das elites econômicas, com a finalidade de abocanhar um naco do poder, na esperança de conquistar uma hegemonia tal como o PT pretende.

FHC convocou a classe dirigente do país a repensar a democracia representativa tal como ela se apresenta. Impossível que não haja no Brasil um grupo de pensadores que possa não somente eliminar o pano verde em que os pleitos eleitorais se desenvolvem, mas criar alternativas que acabem com os escândalos que, pouco a pouco, estão colocando na cadeia alguns líderes, sem excetuar as vestais que vendem o que não têm e cobram o que pretendem ter.

Egoísmo S/A

Estamos a construir uma sociedade de egoístas. Se a ti te dizem que o que importa é o que compras, e segundo o que compras têm mais ou menos consideração por ti, então convertes-te num ser que não pensa senão em satisfazer os seus gostos, os seus desejos e nada mais. Não existe em nenhuma faculdade uma disciplina do egoísmo, mas não é preciso, é a própria experiência social que nos vai fazendo assim.
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Ao longo da História as igrejas e as catedrais eram os lugares onde se procurava um valor espiritual determinado. Agora os valores adquirem-se nos centros comerciais. São as catedrais do nosso tempo 
José Saramago 

Lula, Dilma, os aviões de carreira e os jatinhos

Quem nunca disse bobagem que atire a primeira pedra. Por prudência, e em benefício das minhas, só me disponho a fazê-lo quando as bobagens passam a ser insistentemente repetidas, tais como o petismo parece prescrever a seus discípulos. É nessa toada de repetir frases sem nexo com a realidade, em busca de um efeito político, que Lula conseguiu a proeza de dizer e repetir três tolices numa única e bem conhecida frase. Ei-las: 1ª) graças aos governos petistas, pobres viajam de avião, 2ª) os ricos a bordo não gostam dessa companhia e 3ª) por coisas assim, os ricos são contra o PT.

Quem dera fosse verdadeira a afirmação de que pobres viajam de avião! Nossas companhias aéreas seriam blue ships na bolsa de valores, beneficiadas pelo ingresso, em seu mercado, de 60% da população nacional! Chega a ser cruel essa afirmação num país em que os pobres têm dificuldades para custear a tarifa dos ônibus. Quem viaja de avião comprando o próprio bilhete não pode ser considerado pobre. Essa possibilidade é ainda menor se levarmos em conta os autoindulgentes parâmetros socioeconômicos desenvolvidos pelo marketing petista que criou uma classe média a partir de R$ 300. Pobre, então, seria alguém com renda inferior a essa.

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Por outro lado, a ideia de que a presença de pobres a bordo das aeronaves comerciais seja incômoda aos outros passageiros é um agravo gratuito tanto a uns quanto a outros. Na minha experiência, a bordo só são incômodos os bêbados, os mal-educados e os malcheirosos. Lula, então, estaria confundindo pobreza com isso e riqueza com esnobismo. Finalmente, afirmar que a suposta ascensão social dos miseráveis teria sido a causa do antagonismo que o PT enfrenta é a maior das três leviandades contidas na tal frase. A ascensão social de todos a todos beneficiaria, ora essa!

Com três tolices em uma única afirmação, Lula e aqueles que as repetem expressam a patologia ideológica que os faz necessitar do conflito (no caso, do conflito de classes) tanto quanto um intelecto livre necessita da verdade. E sobre a relação de Lula com a verdade ninguém pode falar com mais conhecimento de caso e causa do que dona Marisa Letícia.

Aliás, se há transporte do mundo onde pobre não embarca é nesses jatinhos a que Lula e Dilma se afreguesaram. Imagino que há mais de uma década ambos não enfrentam as filas, os apertos e os pacotinhos de bolacha dos aviões de carreira. Essas viagens seriam muito valiosas para aferirem sua popularidade.

Percival Puggina

Carta aberta aos pessimistas em geral

From The Ashes  by graham franciose:
Graham Franciose
Caros pessimistas e negativistas, confesso que relutei em escrever esta missiva. O fiz escondido, pois sinto que estou cercado de pessimistas de todos os lados. Até na família há certo ar de crítica quando deixo escapar um discreto “prevejo uma melhora em médio prazo...”

Sim, é certo que as más notícias dão um baita ibope. Adoramos uma tragédia, nem que seja para soltar o inevitável “coitadinho!”. Mas o que gostaria de conversar com vocês, pessimistas queridos, é sobre esse clima de fim de festa, algo apocalíptico. E o que é pior (ou seria melhor ?) é que estou cheio de notícias boas e temo retransmiti-las e ser vítima de bullying ou cair no descrédito. O clima está tão pesado para nós, otimistas, que quem falar um “bom dia” entusiasmado, em alto e bom som, no elevador, em plena segunda-feira, periga levar vaia ou ouvir “não vai ter golpe!” E olha que estudos mostram que o sorriso em público é altamente terapêutico. Tenho diletos amigos que se ofendem quando alerto para essa visão distorcida, para o negativo, o sombrio, o pessimismo. Eles me olham de forma quase hostil e dizem “sou realista, e você, um romântico platônico”. Meus queridos, pensar o pior é optar por mau humor, revolta, ressentimentos e mágoas. Reclamar adoece, afasta, envelhece.

Algo como acelerar em ponto morto: gasta energia sem sair do lugar. Imagina um dia calorento, abafado, você em um ponto de ônibus e alguém dizendo “que calor, ô vida de cão, só falta atrasar e chegar lotado”. Sem dúvida a sensação de calor aumentará uns 10°C, e, além de tudo, o engarrafamento será do cão! Palavra tem poder...

Mas, se te escrevo, é porque tenho esperança de te encontrar sereno o suficiente para que me dê um minuto do seu tempo. Pessimismo tem cura!

Não é nada de autoajuda nem milagres de aplicativos de internet ou pega bobo de marketing de rede. Nem coisa de otimista inveterado ou cristão deslumbrado.

É avanço da ciência. Larga teu ceticismo e acompanhe o raciocínio: há uma imensa novidade no entendimento do cérebro. Ao contrário do que sempre se pensou, esse complexo e divino órgão, gestor de todas as funções físicas e psíquicas, não é rígido nem inflexível. É ágil, moldável; enfim, plástico. A cada segundo, se constrói e reconstrói. Muda, adapta, se reinventa. Tanto para uma função psicomotora quanto para um novo conceito, que pode mudar sua consciência e, assim, seu comportamento e forma de viver e conviver consigo e com o mundo que o cerca. Fantástico, não acha?!

OK, não acredita, não entendeu ou não quer nem saber. Prefere achar o mundo uma desgraça, o trabalho uma lástima, a família um tormento, a vida uma cruz. Ah! Meu amigo pessimista, até seu negativismo é perfeitamente explicado por essas novas descobertas: você é um viciado em “pensar errado”! Ah, se pudesse fazer um exame, como tomografia funcional, talvez percebesse neurônios e seus terminais em um nó cego, nos seus pre-conceitos, centro de culpa, de punição, desprazer.

Eu te entendo, seu arbítrio é sofrer, você quer ser reconhecido como vítima, masoquista, eterno insatisfeito. Te compreendo, mas não concordo com você. Como te amo e a todos os negativistas que me cercam, doarei sempre o meu sorriso, os meus “bons dias” e a eterna esperança de que, um dia, a paz de espírito, a serenidade, a alegria e o amor morem em teu coração.

Com carinho, seu otimista de plantão.

domingo, 25 de setembro de 2016

Charge (Foto: Miguel)

Roubaram o riso

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Procura-se desesperadamente nos dias de hoje, em tudo o que de alguma maneira diz respeito à vida pública, o senso de humor brasileiro. Onde teria ido parar? A capacidade de rir, de si próprios e da vida, que sempre fez tão bem aos brasileiros, anda sumida nestes tempos azedos em que vivemos. Eis aí mais um belo pedaço do patrimônio nacional que foi roubado neste país. Junto com os bilhões saqueados desde janeiro de 2003 da Petrobras, dos fundos de pensão, dos Correios, da Caixa Econômica Federal, do Ministério dos Transportes e de quase tudo o que tem alguma coisa a ver com governo, levaram também a graça do nosso cotidiano. Bem-­vindos, leitores, ao Brasil do impeachment — e da divisão que está ensinando os cidadãos a odiarem uns aos outros por causa de política. Ria-se de quase tudo no Brasil. Hoje praticamente não se ri mais de nada. Tudo é terrivelmente sério. O país parece ter descoberto, de repente, quanto gosta de emoções como o rancor, o despeito ou a mágoa — ou, mais alarmante ainda, quanto é fácil tratar como inimigo aquele que apenas tem uma opinião diferente. Não gostamos mais de rir. Agora preferimos insultar. Perdeu-se a habilitação para perceber o ridículo. Fora, Dilma. Fora, Temer. Fora isso. Fora aquilo. Estamos ficando um país chatíssimo.

No caso de Dilma ainda vai. A presidente deposta tem um talento raro na arte de se tornar malquista — e isso ajuda muito, claro, no culto geral ao mau humor que existe em relação a ela e seu falecido governo. Mas Michel Temer? Nunca houve a menor necessidade de ficar com raiva de Michel Temer. Em mais de quarenta anos de política o novo presidente nada fez para merecer paixões — e muito menos ódio. Ao contrário, é o tipo clássico do perfeito “gente fina”. Um país que consegue ficar com ódio de Michel Temer realmente decidiu viver de péssimo humor. Pior: um país que se queixa porque uma figura como a ex-presidente foi embora parece ter tomado a opção de não rir nunca mais na vida — sim, pois, se até isso é motivo para choradeira, onde alguém conseguirá encontrar algum motivo para achar graça em alguma coisa? É uma grande pena que o mundo esteja assim, porque senso de humor faz falta. E faz falta porque não é, no fundo, uma questão de rir das coisas. É uma questão de entender como elas são. Na vida prática, o senso de humor acaba funcionando como a manifestação mais básica do bom-senso; aliás, trata-se possivelmente da mesma coisa. Como seria viável, sem a ajuda do riso, achar que algo faz sentido no nosso dia a dia? Viveríamos num mundo perfeitamente insuportável.

Parece que o Brasil criado nesses treze anos de corrupção — e no trauma que tem sido o combate legal para tirar a chave do cofre da turma que controlava o governo da República — resolveu ignorar o bom-senso na discussão pública. É virtualmente impossível, por exemplo, ler do começo ao fim um jornal, uma revista ou uma página de noticiário eletrônico e ter vontade de dar um único e apagado sorriso ao longo de toda a leitura; é tudo desespero, choro e ranger de dentes. O mesmo se pode dizer dos telejornais ou dos programas informativos do rádio. Não se encontra um mínimo de humor nem mesmo entre os humoristas — que, no entanto, teriam a obrigação profissional de tentar fazer as pessoas rir um pouco. A maioria dos comunicadores dá uma importância ilimitada às próprias virtudes. Eles usam a soberba para compensar-se pelo muito que imaginam ser e não são; esquecem o senso de humor que deveria compensá-los pelo que são na realidade. Tudo é gravíssimo, mesmo fora da vida pública. O porre espetacular de um nadador americano na Olim­píada do Rio de Janeiro, com certeza uma das melhores histórias de bêbado dos últimos tempos, nunca chegou a ser piada; foi, do primeiro ao último minuto, um insulto mortal ao Brasil. Parece, em suma, que há brasileiros demais ativamente empenhados em ser infelizes. Dedicam tanto tempo e energia a essa tarefa que ficam sem tempo e energia para aproveitar um pouco melhor a vida.

Os leitores do romance O Nome da Rosa se lembram do tenebroso Frei Jorge e do pensamento que serve de alicerce para a sua vida — e, muito pior ainda, que ele quer impor à vida dos outros. O mais maligno de todos os pecados é o riso, acredita esse grande caçador de pecadores. Muda a face das pessoas, afasta a sua mente da virtude e as aproxima do macaco. Ele se esquece, como observa Frei William, que na verdade o homem é o único ser vivo capaz de rir. O Brasil de hoje tem Frei Jorge demais circulando por aí.

Ironias ideológicas

Os governos Lula e Dilma castigaram a Petrobrás com suas políticas erradas e prejudiciais à empresa. A Eletrobrás tenta sair do fundo do poço, para onde a desastrada queda da tarifa de energia a empurrou em 2013. O dinheiro do BNDES privilegiou grandes grupos, os chamados campeões nacionais, e o S de Social da sigla foi completamente esquecido. Multiplicar, fortalecer estatais e investir na área social figuram com destaque no discurso político-ideológico do PT. Só que as ações marcham no sentido inverso. Seja por incompetência ou por ímpeto populista, a verdade é que as políticas sociais dos últimos 13 anos não se sustentaram e acabaram canceladas ou suspensas porque o dinheiro acabou. Exceção feita ao bem-sucedido Bolsa Família e ao Minha Casa, Minha Vida, que cambaleia.

É verdade que na gestão de Lula milhões de brasileiros saíram da miséria, mas é verdade também que dois anos de recessão econômica, desemprego e queda na arrecadação desmancharam muitos destes ganhos e a população pobre, mais vulnerável à crise, passou a enfrentar o caminho de volta para a miséria. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a desigualdade social piorou na gestão Dilma: a renda dos trabalhadores mais pobres, que recebem menos de um salário mínimo, caiu 9%, enquanto a renda média total do trabalho se reduziu em menos da metade (4,2%) e a da faixa mais rica aumentou 2,38%.

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Na semana passada a Petrobrás divulgou seu plano de negócios para os próximos 5 anos. Entre itens importantes, como focar em exploração e produção de petróleo e gás e sair de outras áreas, uma surpresa: o plano reduziu de US$ 42,6 bilhões para US$ 19,5 bilhões a venda de ativos da estatal. Desmoronou o mito privatista da gestão pós-PT: a Petrobrás vai desestatizar menos da metade do que pretendia a equipe anterior do governo Dilma.

Também o BNDES anunciou seus planos: vai investir pesado em capital humano, atuando em parceria com governadores, abrindo créditos para saneamento, eficiência energética, iluminação pública e infraestrutura e gestão em educação, com ênfase no ensino médio. Acabaram os privilégios às empresas amigas, aos campeões nacionais, e o banco, enfim, dará sentido e conteúdo ao S do Social que carrega no nome.

Pedro Parente e Maria Silvia Bastos pertencem a um grupo de economistas de pensamento econômico liberal, que os petistas propagam só se preocupar com o mercado financeiro e desprezar o lado social da economia. No Ministério da Fazenda do governo FHC, Pedro Parente ajudou a formular as regras e comandou a maior renegociação das dívidas dos Estados com a União de que se tem notícia. Além disso, administrou com sucesso a saída da crise do apagão elétrico de 2001. Maria Silvia foi diretora do BNDES no governo Collor e, em breve passagem pela Secretaria da Fazenda da prefeitura do Rio de Janeiro (1993-1996), tirou as contas do atoleiro e deixou no caixa US$ 1 bilhão. Foi dirigir a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e, depois, ocupou cargos públicos e privados. Os dois têm perfil técnico, são movidos pelo desafio de vencer obstáculos sem preconceitos ideológicos e nunca pensaram em participar da política ou se candidatar em eleições.

No plano de negócios, Parente tenta corrigir os erros de Lula e de Dilma ao transformarem a Petrobrás num braço das políticas do governo ao congelar o preço dos combustíveis, obrigando-a a apresentar planos de investimentos pomposos e irreais, levando-a a um endividamento que rebaixou sua classificação de risco e reprimiu seu crescimento, a aceitar a absurda posição de única operadora do pré-sal e a comprar plataformas e embarcações da hoje fracassada indústria naval pelo dobro do preço externo. Enfim, arrasaram com a empresa. A saída imaginada por Dilma seria vender seus ativos fatiados, fazer o que o PT sempre acusou FHC de ter a intenção de fazer: privatizá-la.

O mensalão e a vasta corrupção na Petrobrás mostraram que o PT enganava o público ao se mostrar como único partido ético e honesto. Sua passagem pelo poder também vai revelando a farsa de seu discurso ideológico.

Suely Caldas

Imagem do Dia

Enchanting woods:
Mata "encantada" de Brufe, em Portugal

Mantega, o homem da mala, sabe tudo

A Lava Jato acertou na veia prendendo Guido Mantega, mas, infelizmente, movido por sentimento humanitário, o juiz Sergio Moro revogou a prisão do ex-ministro da Fazenda de Lula. É uma pena, pois Mantega, que ficou quase dez anos no cargo nos governos petistas, tem muita coisa para falar sobre a corrupção do partido e o dinheiro que ele desviou das empresas públicas para a candidatura dos ex-presidentes. Mantega, como se sabe, foi o responsável pela derrocada econômica do Brasil e um dos principais lobistas da indústria automobilística. Além disso, atuou diretamente no perdão das dívidas de bilhões de reais de grandes empresas sonegadoras da Receita Federal.

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Eike Batista, ao depor para os procuradores da Lava Jato, não deixou dúvidas sobre a participação de Mantega nas mutretas petistas. Disse, com todas as letras, que Guido Mantega solicitou que ele colaborasse com 5 milhões de reais para a campanha da Dilma. Mais da metade dessa fortuna, segundo Eike, chegou às mãos do marqueteiro João Santana e da sua mulher Mônica, no exterior, a pedido do ex-ministro no período pós-eleitoral.

O depoimento de Eike levou Guido para a prisão, mas ele não chegou a testar o chão frio da cela nem dormir numa cama de cimento porque o juiz Sergio Moro compadeceu-se do fato da mulher dele está se submetendo ao tratamento de câncer no hospital Albert Einstein.

Mais uma vez, os ministros do STF divergiram quanto a prisão. Gilmar Mendes, o contestador, falou que o ato foi “constrangedor”. Já Celso Melo não viu exagero na decisão de Sergio Moro de pedir a prisão do ex-ministro. Segundo o decano do STF, um dos mais respeitados do tribunal, mandado de prisão não escolhe local ou hora para ser executado, portanto, nada foi ilegal, tudo constitucional, como reza a lei.

Apesar da divergência dos dois ministros do STF, o fato é que a prisão de Mantega já deveria ter acontecido há mais tempo, desde que a PF provou a sua participação na operação Zelotes que tinha como objetivo “anistiar” multas bilionárias de empresários sonegadores. Mantega e também Palocci foram ministros da Fazenda danosos à nação, irresponsáveis, incompetentes e intermediários de dinheiro sujo para as campanhas do Lula e da Dilma. Palocci, inclusive, foi denunciado por um caseiro por promover bacanais em uma casa de luxo em Brasília, alugada com dinheiro público. Nas duas vezes em que deixou o ministério foi por envolvimento em atos de corrupção.

Os petistas, mais uma vez, estão indignados com as decisões dos procuradores da Lava Jato. No caso da prisão de Mantega, o presidente do partido, o fundamentalista Rui Falcão, falou em um ato desumano, seguido por Lula que trilhou o mesmo caminho para condenar a prisão. Ora, sejamos menos hipócritas: ao decretar a prisão de Mantega ninguém sabia que a mulher dele no mesmo dia estaria fazendo exames pré-operatórios, portanto, nem os procuradores nem a Polícia Federal cometeram algum ato de truculência. E a reparação foi imediata: Moro, por compaixão cristã, revogou a prisão do marido quando soube da enfermidade da mulher.

A prisão de Mantega pode levar a Lava Jato a puxar o fio do novelo que falta para esclarecer a ligação de Lula com Eike. O ex-presidente virou lobista de luxo do empresário e foi visto várias vezes na companhia dele depois que largou o governo. Em uma dessas aparições, ele viajou no avião de Eike para vistoriar seus empreendimentos financiados com dinheiro subsidiados do BNDES. Lula também ajudou o bilionário a conseguir grandes obras da Petrobrás com contratos e licitações fraudulentas. No depoimento aos procuradores, Eike deixa claro que contribuiu para as campanhas do PT. Citou apenas os R$ 5 milhões. Falta revelar o montante das propinas distribuídas nos mais de dez anos para alimentar o PT no poder. Os procuradores esperam que o Eike abra o jogo se não quiser passar o resto dos dias na cadeia.

Agora, como evangélico, o empresário precisa confessar seus pecados se quiser alcançar o reino do céu.

Quem seria o verdadeiro responsável pelo acervo?

Você, leitor, já se interessou em saber qual o protocolo que rege o recebimento e a guarda de presentes ofertados por autoridades estrangeiras às nossas autoridades?

Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso, como bem sabemos. Mas há uma regra comum à maioria dos países: os presentes recebidos de visitantes estrangeiros – a troca de presentes é cerimônia tradicional da vida diplomática – devem ser muito bem inventariados, pelos mais sensatos motivos.

Em quase todos os países há um limite máximo tanto para o presente a ser oferecido quanto para o presente a ser recebido.

Na Alemanha, por exemplo, presentes muito caros são considerados ofensivos. Dão a impressão que há alguma intenção oculta por trás da ostentação.

Na Inglaterra, os presentes cujo valor ultrapasse £140 não podem ser guardados por quem os recebeu.

Nos EUA, se o valor ultrapassa U$375,00, o presente pertence ao governo americano que o conservará nos Arquivos Nacionais, a não ser que o presenteado decida comprá-lo pelo valor de mercado, o que é permitido.

Comum à maioria dos países, no entanto, é a publicação de um inventário meticuloso dos presentes recebidos, qualificados como emblemas duráveis da cooperação e amizade internacionais.

Já o inventário dos presentes oferecidos é registrado no departamento competente mas não é divulgado “para que os presenteados não saibam quanto custou seu presente”, é a explicação formal.

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Pois foi ao me interessar pelo assunto que descobri que, ao contrário do que a declaração do senhor Paulo Okamoto dava a entender, nós também temos leis e regulamentos sobre esse assunto.

Para começo de conversa, temos um Código de Conduta Ética dos Agentes Públicos (Decreto 4.081/2002). Como presentes de até R$100,00 não entram na proibição do Código de Ética, era importantíssimo que fosse publicado, quanto antes melhor, a lista minuciosa dos bens que lotavam os 14 contêiners que saíram de Brasília para São Paulo levando os presentes que o ex-presidente Lula recebeu no exercício do cargo.

Será que tudo merece ser guardado? Quem fez a avaliação? Quem separou o que pode ser considerado pessoal do que é obrigatoriamente um bem pertencente ao Brasil? Tudo que está nesses contêiners é presente recebido pelo Lula?

Por que ainda não foi publicado um inventário completo do conteúdo dos tais 14 contêiners que carregavam, segundo Okamoto, parte integrante do patrimônio cultural brasileiro, bens de interesse público?

Se é do interesse público, não devia ser do Governo Federal a responsabilidade pelo transporte, guarda e conservação?

Quando li que foi a OAS quem pagou um total de 1,3 milhão de reais pela guarda e conservação do acervo, não acreditei: então o Brasil não tem um lugar oficial e público para abrigar e expor os presentes recebidos por nossos presidentes da República? Foi preciso apelar para que uma empreiteira bancasse os custos do armazenamento num depósito de uma empresa privada?

Por tudo isso, penso que é nosso direito, como cidadãos, ver publicado o inventário do conteúdo dos 14 contêiners. Quanto mais cedo melhor.

Com quem está a cópia do inventário?

Alegria no Domingo



Balé "Zorba, o Grego", baseado no romance homônimo de Nikos Kazantzakis, com a música de Mikis Theodorakis criada para o filme de mesmo título dirigido por Michael Cacoyannis com Anthony Quinn e Alan Bates

Ensino mais flexível

Pareceu-me correta a linha geral da reforma do ensino médio proposta pelo governo Temer. A medida provisória aposta na flexibilização das disciplinas, com o objetivo de reduzir os absurdos níveis de evasão registrados nessa etapa, e na ampliação da carga horária, o que tende a ter impacto positivo sobre a qualidade, hoje estacionada em níveis muito abaixo dos aceitáveis. Há, porém, várias dúvidas e uma série de problemas.

O primeiro diz respeito ao método escolhido para introduzir a reforma. É esquisito fazer uma remodelação dessa magnitude e importância através de uma medida provisória e não de um projeto de lei, mais democrático e aberto a aprimoramentos. Se o governo não é capaz de mobilizar sua ampla base parlamentar para votar com rapidez uma proposta tão fundamental para a educação, então não tem muito a oferecer ao país.

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Também me parece estranho propor, neste momento, um grande aumento da carga horária, que passaria das 800 horas anuais para 1.400. Mesmo considerando que a ampliação seria gradual, isto é, distribuída ao longo de vários anos, estamos, numa conta de guardanapo, falando de uma majoração de custos operacionais da ordem de 75%. Não é crível que isso possa ocorrer num contexto em que muitos Estados estão quebrados e as verbas federais para a educação também deverão experimentar um longo período de restrições. Teria sido mais honesto deixar o projeto de ensino médio em tempo integral para outra hora.

Para não ficar apenas em aspectos negativos, achei muito bacana eliminar a obrigatoriedade de quase todas as matérias. É claro que a própria flexibilização seria impossível se as 13 disciplinas hoje obrigatórias permanecessem nessa condição, mas gostei de ver alguém finalmente colocar a autonomia dos alunos à frente dos interesses corporativos. Vamos ver se essa mudança vai resistir à força dos lobbies.

A eleição do enfado, da desesperança e da descrença

Domingo que vem, com exceção dos que vivem no Distrito Federal, o eleitorado estará votando para prefeito e vereador. Houve tempo em que as atenções se voltavam para os candidatos a prefeito das capitais dos estados, pois nelas despontavam lideranças capazes de nos anos seguintes virarem astros de primeira grandeza, disputando os governos estaduais e até a presidência da República.

Dessa vez, a safra é reduzida, para não dizer inexistente. Dos favoritos a ganhar no Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, entre outros, não se encontra um só em condições de ascensão. Claro que surpresas sempre acontecem, mas o conjunto não anima ninguém.

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Começa pela falta de embasamento partidário. A ausência de programas e de ideologia nos postulantes às prefeituras mais importantes faz a eleição um deserto de homens e de ideias, diria Ruy Barbosa se estivesse por aqui. Entre veteranos e jovens, não se aponta quem possa despertar entusiasmo.
Claro que as capitais andam pela hora da morte em se tratando de recursos para empreender seu desenvolvimento. Só estão em situação de penúria um pouquinho superior aos respectivos estados.

Tome-se São Paulo. Nem Russomanno nem João Dória, muito menos Marta ou Haddad, este já se despedindo de um sofrível primeiro mandato, conseguirão levar os paulistanos a acreditar em dias melhores. No Rio, Crivella inspira bocejos. Em Belo Horizonte, assiste-se a uma disputa restrita aos atleticanos. E assim por diante.

Foi-se o tempo em que Jânio Quadros, Ademar de Barros, Carlos Lacerda, Negrão de Lima, Miguel Arraes, Leonel Brizola e outros faziam de suas capitais trampolins para Brasília.

É preciso atentar para o índice de abstenções, apesar de o voto ser obrigatório. Mesmo em se tratando dos que comparecerão às urnas, o sentimento parece de enfado, desesperança e descrença.

Ele não tem nada com isso

Talvez seja muita pretensão achar que Deus, com tantos problemas graves para resolver no mundo, vai dar atenção às nossas eleições municipais, ainda mais sabendo que elas transformaram a fé em moeda de troca de votos.
Zuenir Ventura 
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Afundou o país e foi à praia

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Não há PowerPoint que consiga explicar a pedalada de Dilma Rousseff na Praia de Ipanema. Tranquila, sem contratempos, ela foi até o Leblon e voltou. Numa boa. No dia seguinte, seu ex-ministro da Fazenda foi preso.

Como a torcida do Flamengo já sabia, Guido Mantega era mais um despachante da companhia. Vejam como a senhora das pedaladas é honesta, conforme um pedação do Brasil adora acreditar: Mantega, Paulo Bernardo, Fernando Pimentel, Gleisi Hoffmann, André Vargas, Erenice Guerra, João Vaccari... Chega. Já sabemos que a cada enxadada corresponde uma minhoca. Todo o estado-maior de Dilma, e o menor também, está enrolado com a polícia. E ela está na praia.

Com a saga de Guido Mantega no governo popular — que vai sendo revelada pela mulher do marqueteiro, por Eike Batista e outros inocentes torturados pela Lava-Jato, — o farol de Curitiba começa a apontar para as catacumbas do BNDES. As negociatas de Fernando Pimentel, amigo de Dilma e governador de Minas (nesta ordem), somadas às tramas de Lula com suas empreiteiras de estimação, já indicavam que as paredes do gigantesco banco público têm muito a contar. Agora vai.

Mantega foi um dos peões de Dilma no colossal esquema da contabilidade criativa, que o Brasil só notou quando foi apelidado de pedalada, e mesmo assim não acha muita graça. É um enredo impressionante envolvendo BNDES, Tesouro, Caixa e Banco do Brasil, para esconder déficits e liberar dinheiro público para os companheiros torrarem em suas olimpíadas eleitorais. Isso aconteceu por mais de uma década, e foi um par de flagrantes desse assalto que despachou a presidenta mulher para Ipanema — o famoso golpe.

Se Lula é o sol do PowerPoint, Dilma é, no mínimo, a lua. Guido Mantega deu sequência às obras dela na presidência do Conselho de Administração da Petrobras, sob o qual foi montado e executado, nos últimos 13 anos, o maior esquema de corrupção da República — se é que há algo de republicano nesse populismo letal. A literatura obscena da Lava-Jato, e em especial a denúncia do Ministério Público contra Lula (que o Brasil não leu, porque é muito longa), mostra tudo. Lula e Dilma cultivaram os ladrões camaradas nos postos-chave para manter a dinheirama irrigando os cofres partidários.

Mas Dilma diz que não tem conta na Suíça como Eduardo Cunha. Vamos esclarecer as coisas: Eduardo Cunha é um mendigo perto do esquema bilionário que sustenta Dilma, a mulher honesta.

O que também sustenta Dilma, e todos os delinquentes do bem, é a ação corajosa dos progressistas de butique. Eles não se importam que as bandeiras de esquerda tenham sido usadas para roubar o país. O papo do golpe é uma mão na roda: Dilma, a revolucionária, foi massacrada pelos velhos corruptos do PMDB. Todos sabem que estes viraram ladrões de galinha diante da ópera petista, mas lenda é lenda. Ser contra o golpe dá direito a ser contra a ditadura militar, a violência policial, o racismo e o nazismo. É um pacote e tanto.

Também dá direito a ir à posse de Cármen Lúcia no Supremo Tribunal Federal — o mesmo STF que presidiu o impeachment de Dilma. Deu para entender? Vários heróis da resistência democrática contra o golpe foram lá, pessoalmente, festejar a nova presidente da corte golpista. Contando, ninguém acredita.

Teve até show de MPB — a mesma que ouviu da própria Cármen Lúcia o famoso “cala a boca já morreu”, contra aquele projeto obscurantista de censurar biografias. Alguém já disse que é proibido proibir. Mas debochar da plateia está liberado.

Nem é bom citar esses acrobatas da ideologia. Vários deles são artistas sensacionais, que colorem a vida nacional. Melhor esperar que desembarquem de suas canoas furadas a tempo, e parem de alimentar essa mística vagabunda — porque, atenção, comprar o barulho do governo destituído e seus genéricos não tem nada a ver com ser de esquerda. Ao contrário: além de destruir a economia popular, essa gangue fraudou as bandeiras da esquerda. Adaptando Millôr: desumanizaram o humanismo.

Foi uma dessas turminhas de humanistas desumanos que hostilizou uma jornalista de TV com seu bebê de 1 ano numa calçada da Gávea. São jovens simpatizantes de um desses candidatos bonzinhos que incentivam a porrada. Eles são contra o sistema (seja lá o que isso signifique) e contra a mídia burguesa. Assim morreu o cinegrafista Santiago Andrade. No dia 2 de outubro, os cafetões da criançada ignara vão às urnas buscar seus votos progressistas.

Os heróis da resistência ocuparam o Canecão. Ótima ideia. Melhor ainda se tivesse sido executada há quase dez anos, quando o PT fechou esse templo da música — fingindo que estava defendendo a universidade pública de empresários gananciosos. Onde estavam vocês quando aconteceu esse golpe hipócrita contra a arte?

Vamos falar a verdade, queridos cavaleiros da bondade. Antes que a praia vire passarela de quem devia estar vendo o sol nascer quadrado.

Guilherme Fiuza

Ainda existe esquerda no Brasil? Que esquerda? A do PT?

Vamos, numa série de artigos, dar um passeio pelo cenário político-partidário do País, para saber onde estão os personagens da verdadeira Esquerda. 

Comecemos pelo PT, que se diz “de Esquerda”. No Brasil, quando falamos de Esquerda, lembramos do PCB, de 1922, comunistas marxistas-leninistas de Astrojildo Pereira e, depois, Prestes, hoje de Ivan Pinheiro, e suas históricas dissidências e linhas; no PSB de João Mangabeira, depois do contraditório Arraes; nos Trabalhistas-Nacionalistas, a Esquerda Democrática do PTB do Getúlio eleito em 1950, de Jango e Brizola, depois PDT; nos trotskistas dissidentes do PCB de 1962, que criaram o PCdoB, de Grabois, depois de Amazonas, no partido agora em falência nas mãos do PT; nos Socialistas cristãos discípulos de Maritain, defensores do Dom Hélder Câmara pós-64, habitantes de vários partidos; no MR8 próximo do antigo MDB, por ele acolhido; do saudoso PSDB de Covas e Montoro; e em outras vertentes populares e progressistas.
Tem-se falado muito, nos atuais estertores do PT, que a Esquerda sofreu um duro golpe, mortal, com o Petrolão e a Lava-Jato. Insistem: E, agora, com o PT desmoralizado, moribundo, considerado antes, ainda no Mensalão, “uma quadrilha” pelo Judiciário; o Lula, segundo o Ministério Público, comandante da “propinocracia” que aparelhou o Estado, saqueou a Petrobrás e vários órgãos públicos, incluindo os “Fundos de Pensão”; o Zé Dirceu alquebrado, condenado, em reclusão, pairando o risco de uma delação “laureada”, cartártica, dele para ele mesmo, com um gravador camuflado na cela; com os esquálidos e minguados “líderes” e ex-ministros processados; parlamentares, presidentes e tesoureiros da sigla na cadeia – o que será da Esquerda? Pergunto: E o que tem a ver o PT com a Esquerda Brasileira? Nada. Ou quase absolutamente nada.

No passado, antes de o Lula ser revelado apenas como um hábil, sagaz, vitorioso negociador e líder sindical; depois, político fisiologista, ladino, oportunista e arrivista, ideologicamente oco, dono pragmático de um “partido”; demagogo sem ideias, sem rumos, sem posições, hoje réu por corrupção e outros crimes em mais de um processo – pensou-se até que o PT, filosoficamente e na práxis premonitória, fosse um partido de Esquerda. Nem todos.

Muitos lembraram que o PT votou contra o passo democrático que foi a eleição de Tancredo, que não assinou a “Constituição Cidadã”, foi contra o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal. Entretanto, muita gente, verdadeiramente de Esquerda, bem intencionada, além dos pato-oposicionistas a qualquer governo, dos ingênuos, dos tolos e dos esquerdistas (estes na pior acepção que Lênin definiu), embarcou no PT.


Antes de o PT ser governo já se exibia, ética e politicamente, muito mais como hordas tontas e oportunistas de pelegos sindicalistas e de grêmios estudantis do que um partido político.
O primeiro sinal de que não havia seriedade foi a hopozissão burra e cega, bem como a decisão de não apoiar Brizola, um líder com história política e consistência ideológica, após a sua volta do exílio e a sua natural candidatura à Presidência. Consequência: a humilhante derrota para Collor. E mais duas derrotas.

Com a eleição e posse de Lula configurou-se o embuste, a fraude, uma gestão para remunerar sindicalistas sem jornadas e candidatos derrotados, intelectuais sem cérebros, esquerdistas profissionais (como havia e ainda há os “estudantes profissionais”), uma estrutura de milhares de cargos comissionados para pessoas despreparadas que os assumiram avidamente; e mais: cabides de empregos destinados a párias sem ofício a viver do filantrópico Fundo Partidário, dispostos a tudo. Quais os sintomas, os sinais dessa realidade distante dos valores e dos ideais socialistas? Foram muitos, inúmeros.

Em menos de trinta dias no Planalto, Lula começou a rasgar as bandeiras do PT que empunhava por mais de vinte anos e confirmou os caminhos neoliberais de FHC, com destaque para a continuidade da política econômica, a elaboração do orçamento com superávits primários em desfavor do País, para pagar juros da dívida, pela consolidação dos programas que os petistas chamavam de privataria, a taxação dos aposentados etc.

Além de adotar e ampliar os programas sociais do PSDB, que tanto criticavam e combatiam, logo, iniciou-se o aparelhamento total do Estado e, em seguida, o Mensalão. O Bolsa-Família, sêmen de Cristóvam Buarque, sistematizado e aprimorado por FHC, teoricamente um programa de inclusão e promoção social, ao invés de ser uma alavanca contra a fome e a miséria, condicionada à Educação e à Saúde, tornou-se uma caridade institucional eleitoreira permanente, lugar de desvios e corrupção, onde uma porta é aberta aos miseráveis para um curral de gado apascentado paternalisticamente, sem saída, reproduzido geometricamente, objetivando a perpetuação do “partido” no poder.

Nos governos do PT, quem ganhava três salários mínimos o IPEA e o IBGE transformaram em classe média. Eis a falsa inclusão. Vamos gastar, fazer prestações, comprar automóveis. Os bancos nunca se fartaram tanto. Vamos endividar as famílias. Vejam onde e como estamos!
Mostrava-se, então, através de várias decisões demagógicas, populistas e dissimuladamente “de esquerda”, atitudes tortas, coxas, antinacionais, de suicídio em médio prazo, como se comprovou adiante, na gastança criminosa, na orgia administrativa orçamentária e fiscal, que o PT estava longe da Ética e dos programas tradicionalmente da Esquerda, de igualdade, distribuição de riquezas; da justiça social responsável, das posições nacionalistas e universalistas; da participação popular, de rédeas e regulação do capital; do controle, fiscalização e intervenção estatal na economia, na vida do País, visando à igualdade; serviços públicos de qualidade e a oportunidade para todos. Ao final do segundo governo Lula, os desmandos, a ineficiência e a corrupção já eram os principais agentes e programas da era petista.

Os poucos homens e mulheres verdadeiramente de Esquerda deixaram o PT. Foram cuidar de suas vidas ou, em erro, se abrigaram em outras siglas – PSOL e Rede – desgraçadamente, hoje, forças auxiliares do PT. Onde estão as pessoas de Esquerda do PT? No PCB, no PCLCP – Pólo Comunista Luiz Carlos Prestes, minguadamente dispersos em alguns partidos, na academia, de pijamas, na Literatura, na Ensaística, no Jornalismo.

Alguns desistiram, se ocultaram, viraram apicultores, recolhidos às suas resignações, percorrendo suas vocações apolíticas, entre outros destinos. Não há gente de Esquerda no PT. Permanecem no PT, ainda e incrivelmente, inocentes inúteis, bobocas de crachá, dogmáticos sem dogmas, sem saber por quê, carreiristas sem escadas… mas Socialistas de ideias e de fato, sérios, retos, de doutrina, convicção e militância, nenhum. E o País? Ainda é cedo. Ainda não sabemos.

Belos, cálidos dias

A gente nasce sem querer, numa família não escolhida (ou cada alma escolhe a sua?), com uma bagagem de genes que nem Deus sabe direito no que vão dar — lançados no grande mundo, ainda por cima tendo de desempenhar direito nosso papel.

Que papel? O que a família exige? O que a sociedade espera? O papel que cobramos de nós mesmos enquanto corremos entre acertos e trapalhadas, dor e graça, tateando num nevoeiro de confusões, emoções, razões e desesperos – ou contentamento? Atores sem preparo, sem roteiro, sem papel e sem alguém que nos sopre nossas falas, nesse palco desmesurado e instável. Se for difícil demais, nos matamos de tristeza, de tédio, de medo, de solidão e vazio, ou por vingança por algo demais cruel. É quando não conseguimos desempenhar papel nenhum: escolheremos então o nada, se é que a morte é nada.

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Mas em geral gostamos da vida, não nos matamos, até nos sentimos bem. Não que eu ache que somos farsantes ou falsos. Apenas fomos aqui plantados, em geral desejados, quase sempre amados, algumas vezes desamados, mal criados e erradamente educados. A gente comparece do jeito que dá, desde quando começa a ter consciência – acho que isso também ninguém ainda determinou (o Google não me deu muita certeza): quando começa a consciência de existir, e das coisas ao redor?

Minhas memórias se iniciam aos dois anos e pouco, deitada no assoalho claro da casa, espiando embaixo de um móvel grande e escuro, admirando bolinhas de poeira que dançavam segundo minha respiração: para mim, eram seres vivos. Ou sentada no assoalho da casa da avó que costurava, eu espiando alfinetes cintilantes entre as frestas das tábuas. Tudo era mágico naquele tempo, e eu não precisava ser nenhum personagem.

Mas a vida se impõe, com chamados, deveres, conselhos, promessas, agrados, punições, por mais brandas que fossem: havia uma ordem em tudo. E a gente tinha de se adaptar, para que os castigos (não ganhar sorvete, não poder brincar com as amigas) não fossem mais numerosos do que as alegrias. Na verdade, os castigos eram poucos, quase bobos, mas eu me assustava: alguma coisa chamada "des-ordem" existia, eu me enredava com ela. Todo mundo devia ser calmo, acomodado, pressuroso, obediente, não lembro mais todas as qualidades que nos faziam boas meninas e bons meninos naquele tempo quase remoto.

E as perdas: amados e amigos se vão, jovens ou já velhos, a gente soltando pedaços. Ou os afetos simplesmente empalideceram. Mas há os que chegam: maravilhosamente chegam filhos, netos, novos amigos, velhos amigos permanecem, os livros, os filmes, os quadros, as músicas, a montanha, o mar, as horas de encantamento, as viagens – e voltar para casa, doce "zona de conforto". Acolhimento, segurança dentro do possível neste mundo em que o crime compensa, o cinismo floresce, a autoridade fracassa, a confusão impera, a mediocridade se impõe. Seja como for, vamos desempenhando ou reinventando nossos papéis, ou não os cumprindo e levando rasteira. Não é ruim, não é bom: é a vida.

Belos, cálidos dias de primavera. O país, quem sabe, começando a se mover para se recompor. Aquela criaturinha chamada esperança canta no peitoril da minha janela. Quem sabe, quem sabe?

Lya Luft 

sábado, 24 de setembro de 2016

O império dos fatos

O velho adágio de que os cães ladram e a caravana passa ilustra bem o atual cenário político brasileiro. Enquanto o PT, exposto a um strip-tease moral sem precedentes, exerce o chamado jus sperniandi, a Lava Jato prossegue incólume sua trajetória.

Contra fatos, não há argumentos – e o que há são os fatos. Sua excelência, o fato, dizia Ulysses Guimarães. E o que deles se conhece, já de si avassalador, é pouco mais de um terço do que há por vir, segundo a Força Tarefa. A Lava Jato tem pelo menos mais um ano de serviço pela frente. Há ainda muita lama por emergir.

Lula, réu pela segunda vez – em Brasília e em Curitiba -, vai aos fóruns internacionais, aciona sua militância, proclama-se vítima e perseguido político, na vã tentativa de dar cunho ideológico a acusações de natureza penal. O que está em pauta, porém, nada tem a ver com ideologia. Trata-se de roubo, que não é de esquerda, nem de direita: é apenas crime, nos códigos penais de todo o planeta.

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E é disso que se trata. O ex-presidente é acusado de chefiar a maior quadrilha de que se tem notícia na história do país – da Colônia à República. Quando a Força Tarefa, semana passada, fez a denúncia, os advogados de Lula, coadjuvados pela militância, se empenharam em depreciar como inapropriada aquela iniciativa.

O argumento é de que não se pode fazer da justiça espetáculo. É possível, mas também não se podia fazer da corrupção método de governo, como foi feito, acionando-se depois máquinas de propaganda para obstruir e denegrir as investigações.

Com réus heterodoxos, não cabe ortodoxia. O que irritou o petismo foi o fato de ter sido possível, pela primeira vez, traduzir para a compreensão de um público maior a extensão e gravidade do que se está investigando – e o que, dentro disso, representam, por exemplo, o tríplex e o sítio de Lula.

Esta semana, mais um petista graduado, Guido Mantega – ministro da Fazenda de Lula e de Dilma -, foi trazido ao centro das investigações, acusado de participar da propinocracia. Ele pediu ao empresário Eike Batista, segundo denúncia deste, “contribuição” para as despesas da campanha de Dilma, que viria da rapina da Petrobras.

Dilma, até há pouco preservada de suspeitas, já integra o rol de investigados. Presidia o Conselho Administrativo da Petrobras e era ministra de Minas e Energia no início da Era Lula, quando tudo começou. A seguir, comandou a Casa Civil e sucedeu o Chefe – ou seja, esteve sempre na cabine de comando.

Os fatos são esses e as investigações agora afunilam. Se há inocentes a bordo, a oportunidade de prová-lo chegou. Não adianta ir à ONU e aos tribunais internacionais – e muito menos apelar à solidariedade de governos bolivarianos, à beira do naufrágio.

Outro revés petista deu-se esta semana: a Corte Especial do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região manteve, por 13 votos a um, o arquivamento da representação contra o juiz federal Sérgio Moro interposta por 19 advogados em abril.

Os advogados recorreram contra a decisão do corregedor-regional da 4.ª Região, em junho, de arquivar as reclamações. A representação postulava instauração de processo administrativo disciplinar contra Moro e seu afastamento cautelar da jurisdição até a conclusão da investigação – na prática, o fim da Lava Jato.

Moro, segundo seus acusadores, teria cometido ilegalidades ao divulgar comunicações telefônicas de autoridades com privilégio de foro – mais especificamente a conversa entre Lula e Dilma, que inviabilizou a nomeação do ex-presidente à Casa Civil.

O relator do processo, desembargador Rômulo Pizzolatti, foi curto e groso: “Não há indícios de prática de infração disciplinar por parte de Moro”. Assunto encerrado: PT, saudações.

Lula e aliados já não são matéria política. Têm encontro marcado com a Justiça. As atenções do meio político voltam-se agora para o futuro: a gestão do trágico legado econômico-administrativo do PT. Câmara e Senado começam a discutir a PEC 241, que trata do teto dos gastos públicos, questão espinhosa e incontornável, que centraliza as atenções do governo Temer.

O país quer olhar para a frente, se reerguer, enquanto a Força Tarefa aciona o espelho retrovisor do camburão.

Parabéns

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O futuro era muito melhor antigamente
Luis Fernando Verissimo que completa 80 anos na segunda-feira

A Lava Jato fica e a tigrada passa

Questionar eventuais equívocos e excessos de uma operação ampla e complexa como a investigação da corrupção generalizada no governo é uma obrigação dos cidadãos conscientes. A mídia tem feito isso, exemplarmente. Mas há uma enorme diferença entre a crítica objetiva e isenta e a deliberada e maliciosa tentativa de induzir as pessoas a acreditar que o erro não é a exceção, mas a regra, e que, portanto, a Operação Lava Jato deve ser proscrita, como uma coisa “do Mal”.

Um dos efeitos maléficos da prolongada – mais de uma década, tempo em que o lulopetismo conseguiu se manter no poder – divisão do Brasil entre “nós” e “eles”, personificações do Bem e do Mal, foi a crescente incapacidade de uma verdadeira legião de brasileiros que se considera bem pensante – artistas, acadêmicos, jornalistas, intelectuais em geral – de demonstrar um mínimo de isenção e objetividade diante dos principais fatos que movimentam o amplo e tumultuado cenário político nacional. O fenômeno que talvez melhor ilustre essa situação é justamente a Operação Lava Jato, símbolo do combate à corrupção na gestão da coisa pública.

No cumprimento da missão de investigar e levar à Justiça os responsáveis pela corrupção no governo, a Lava Jato acabou mirando, obviamente, gente do governo, figurões políticos e operadores do PT e de seus aliados, além de empresários delinquentes para quem o princípio da livre concorrência está baseado na capacidade de oferecer a maior propina. Lula e o PT – isso tem sido reiteradamente afirmado neste espaço – não inventaram a corrupção. Na verdade, chegaram ao poder prometendo acabar com ela e “com tudo de errado que está aí”. Mas, em nome da perpetuação de seu projeto de poder, renderam-se à pragmática conclusão de que é mais fácil comprar apoio político com dinheiro do que conquistá-lo por meio do debate de ideias. Mensalão e petrolão, essencialmente a mesma coisa, tornaram-se então método político do lulopetismo.

iotti

Ocorre que Lula e a tigrada delinquiram em nome de um “projeto popular” apresentado como a quinta-essência da política “do Bem”. E quem não se alinhou a essa política passou a ser “do Mal”, ou simplesmente “eles”, a quem “nós”, os adoradores de Lula, o Supremo, declararam guerra sem trégua.

Logo, se sou “do Bem”, como posso tolerar um aparato investigatório que ousa apontar o dedo para os principais heróis do projeto de salvação nacional que só não deu certo, ainda, por culpa da globalização da economia e da sabotagem dos inimigos do povo? Para quem pensa assim – melhor dizendo, reage assim – a Operação Lava Jato é coisa armada por “eles”. Mas pega mal dizer isso com todas as letras, até porque a corrupção deixa um rastro muito evidente de podridão e fedor. Então, atacam pelas beiras, explorando detalhes, para exaltar seus heróis e denegrir os defensores da lei.

Essa é a estratégia de ilustres lulopetistas que formam a quinta coluna. Na primeira linha ficam celebridades mais afoitas, abraçando Lula e Dilma em ambientes protegidos e exibindo cartazes de “Fora Temer” e “Diretas Já”.

A indisfarçável intenção de Lula e seus seguidores – os que ainda restam – de desmoralizar a Operação Lava Jato para salvar a própria pele coincide com a igualmente clara disposição de políticos do PMDB e muitos outros partidos ex-aliados dos petistas, e que se mantêm governistas, de “estancar essa sangria”, como já disse o senador Romero Jucá.

Para alegria e orgulho dos brasileiros honestos, o fato é que a conspiração contra o combate à corrupção oficial, também com certa ironia, revela que as instituições democráticas têm sido suficientemente fortes para resistir ao assédio de quem só pensa em tirar proveito político e pessoal do poder. O povo brasileiro está cansado de ser enganado e espoliado por governantes inescrupulosos e aposta firme no saneamento do aparelho estatal, até o ponto em que isso é humanamente possível. A Lava Jato fica, a tigrada – a que não for presa – passa.

Imagem do Dia

Cambridge, Inglaterra

Acabou a lua de mel de Lula com os servidores públicos?

Causou-me bastante estranheza o ataque desferido pelo ex-presidente Lula a uma parcela tão significativa do eleitorado do PT (e demais partidos linhas auxiliares) na última quinta-feira. Ver o mais novo denunciado pela Lava-jato desagradando eleitores bovinamente fiéis como os servidores públicos concursados (em sua esmagadora maioria) foi deveras inesperado, especialmente porque, neste momento, ele precisaria angariar apoio, e não desgostar parte de seu público cativo, sempre tão grato pelos inúmeros certames realizados durante seus dois mandatos, e pelos gordos reajustes concedidos. Desde então, diversas foram as reações ao discurso inflamado, mas acredito não ter visto nenhuma que tenha acertado o real motivo da indignação de Lula. Senão vejamos:

– Lula estaria, de fato, enciumado com o fato de que “servidores passam no concurso e só ficam esperando a aposentadoria”? Não creio: o maestro do Petrolão já recebe mais de oito mil reais mensais apenas como indenização por ser sido anistiado político, e ele sabe que as regras para aposentadoria de políticos são extremamente benéficas. Para se ter uma ideia, o Deputado Tiririca, caso queira voltar ao circo depois de findado seu segundo mandato, pode requerer aposentadoria de quase nove mil reais. Inveja de quem precisa trabalhar 35 anos, definitivamente, não foi;

– Lula teria sentido uma pontinha de inveja de quem cursou o ensino superior? Improvável: Lula sempre se gabou de não ter estudado e, ainda assim, ter assumido o mais alto posto da República. Além disso, ele já foi agraciado, por professores universitários militantes da Esquerda, com diversos títulos de Doutor honoris causa. Inveja de quem ralou muito estudando é impossível;

– Lula acha errado ser julgado por “analfabetos políticos que não sabem o que é um governo de coalizão”? Bom, Dilma também não sabia, a tal ponto que conseguiu desfazer toda a base de apoio construída por seu antecessor no congresso nacional. Entretanto, ele seguiu até o último instante tentando impedir seu impeachment, oferecendo benesses a partir de seu bunker no hotel Royal Tulip. Então não foi isso;

– Lula gostaria de não precisar encarar o público e ser chamado de ladrão a cada eleição? Difícil acreditar: Luiz Inácio é praticamente um palanque ambulante, e sua habilidade de soltar disparates e bravatas com um microfone na mão é diferenciada. Claro que seria ótimo ficar Ad Eternum no poder como os camaradas irmãos Castro, mas eu duvido que ele não se divirta a cada dois anos tentando eleger seus postes;


Eis o que tenho certeza que despertou a ira de Lula: tanto Procuradores do MPF quando Juízes Federais não só são estáveis na carreira (não podem ser demitidos sem justa causa) como são inamovíveis, isto, é, não podem ser transferidos de seu local de trabalho sem que tenham requisitado tal remoção. O sonho de Lula seria encostar em algum apadrinhado político seu e exigir a exoneração tanto de Delton Dalagnoll quando de Sérgio Moro, ou, se estivesse de melhor humor, apenas pedir que ambos fossem mandados para o Oiapoque. Ou para campos de concentração, se estivesse em Cuba.

Mas ele não pode. Por quê? Ora, os dois são concursados. Não foram, portanto, nomeados como retribuição de favores (moeda de troca eleitoral), e não podem, por isso, serem demitidos ao bel prazer de qualquer autoridade. Tais prerrogativas (dentre outras previstas no estatuto da Magistratura e na lei orgânica do Ministério Público) possibilitam que estes agentes de imposição da lei batam de frente com pessoas poderosas e bilionárias sem temer represálias de qualquer natureza. Ou alguém discorda que, se assim não fosse, Marcelo Odebrecht & Cia já teriam mexido os pauzinhos para acabar com a carreira de todos os membros da Lava-jato?

O concurso público visa atender aos princípios constitucionais da eficiência e da impessoalidade. Pode-se discordar do número de concursos realizados na última década (que incharam o Estado, gerando muita despesa permanente, e criaram uma verdadeira indústria de cursos preparatórios, afastando muitos profissionais gabaritados da iniciativa privada) ou do formato adotado (muitos defendem que as seleções, atualmente, não privilegiam os melhores profissionais), mas triar os candidatos é essencial, até mesmo para permitir que qualquer pessoa possa desempenhar uma função pública – ainda que não possua qualquer indicação política e seja oriunda de famílias de baixa renda.

Mas Lula, se pudesse, gostaria de indicar todo e qualquer funcionário público dos três Poderes, e utilizá-los como peça do seu esquema criminoso de poder (tal qual afirmou o STF no julgamento do Mensalão), como fez, como singelo exemplo, com Paulo Roberto Costa na Petrobras. E está espumando de raiva porque assim não é.

É claro que alguém poderia alegar que a estabilidade é uma prerrogativa que não deveria ser estendida a todos os funcionários públicos – e eu irei concordar. Apenas autoridades que necessitam de muita autonomia e independência no desempenho de suas funções deveriam usufruir deste direito/garantia. Caso contrário, fica muito difícil reduzir a folha de pagamento da administração pública em momentos de recessão. Todavia, não se pode duvidar que, não fossem estáveis os membros da Lavajato, e a capital do Paraná jamais teria se transfigurado na República de Curitiba.

Lula está claramente perdido. Tentou dar um tiro no próprio pé, afugentando alguns de seus últimos apoiadores. Mas nem tanto. Certamente, a maioria dos servidores públicos vai fabricar alguma justificativa para as frases desmedidas do ex-presidente, contemporizando seu discurso. Quem sabe podem até levar bolo para ele na Papuda.

Ricardo Bordin