terça-feira, 27 de junho de 2017

Charge O Tempo 27/06/2017

A tradição como argumento de defesa

Conjugadas com o que tem sido confessado com ar de superioridade e de modo finório por empreiteiros e empresários em suas delações premiados, revelando como corromperam políticos e compraram medidas provisórias com o objetivo de definir os marcos jurídicos das áreas em que atuam, as tentativas de anistiar parte do mundo político e colocar o Congresso como contraponto à Procuradoria-Geral da República e à Justiça Federal dão a medida do grau de deterioração das instituições. Dentre os problemas daí decorrentes, dois merecem destaque.

O primeiro diz respeito ao impacto político e jurídico de uma eventual revisão da decisão do STF que autoriza a prisão de quem foi condenado em segunda instância, obrigando-o assim a recorrer aos tribunais superiores de dentro de uma cela. Se as regras do jogo forem mudadas no desenrolar do próprio jogo para assegurar imunidade a quem se apropriou criminosamente de recursos públicos, o direito será relativizado como marco referencial, comprometendo a credibilidade das instituições judiciais – inclusive o STF. Quando regras são alteradas conforme conveniências de governantes e parlamentares envolvidos em negociações escusas com empresas incapazes de competir sem desonestidade, a coerência doutrinária do sistema jurídico se rompe. Ele perde sua identidade sistêmica. O resultado é a insegurança jurídica. No limite, uma crise do Estado de Direito.


O segundo problema está associado à percepção desse cenário por investigados e delatores. Nos últimos meses, eles alegaram que o caixa 2 faz parte dos costumes da política. Também afirmaram que essas práticas – proibidas por lei – consistiriam, culturalmente, no modelo prevalecente de financiamento de campanhas eleitorais. Um ex-ministro da Justiça declarou que “caixa 2 em campanhas é recorrente”. Em delação premiada, Emílio Odebrecht classificou como natural a captura do poder público por sua empreiteira mediante pagamento de propina. Argumento semelhante foi invocado por Joesley Batista. Essas falas evidenciam como a corrupção prostitui mandatos, corrói a ideia de interesse público, erode a noção de direitos e leva à perda da própria concepção de Estado. Ambos prometeram que adotarão princípios éticos e códigos de conduta em seus grupos. Antes de seu depoimento, Emílio divulgou um vídeo no qual afirmava que só terão futuro as organizações que se reciclarem e agirem com integridade e transparência – iniciativa que só comoveu incautos.

Quando examinada à luz da distinção feita por Max Weber entre as éticas de responsabilidade e de convicção, a ideia de que a corrupção é inerente à cultura do País peca por dois vícios. Por um lado, ao afirmar que “sempre se agiu assim”, o pessoal acusado de corromper a representação política e o poder público se esquece de que no Estado de Direito, onde há o predomínio de regras gerais, abstratas e impessoais, as relações socioeconômicas e políticas deveriam ser travadas sob a égide de uma ética de responsabilidade, com base na qual os políticos privilegiariam interesses coletivos acima de seus interesses pessoais. Ao afirmar que caixa 2 é “prática histórica e cultural”, portanto, banalizada, naturalizam a delinquência sistêmica, pondo interesses pessoais acima dos interesses coletivos com base na ética de convicção, pela qual os fins justificam quaisquer meios. Isso ficou evidente quando Emílio disse que a Carta ao Povo Brasileiro– ato estratégico para a vitória de Lula em 2002 – teve contribuição de sua empreiteira.

Por outro lado, quando invoca a ideia de cultura para justificar a apropriação do poder público por interesses privados, esse pessoal revela astúcia e autoconfiança. Para eles, a cultura se limita à recorrência de alguns comportamentos. Do mesmo modo que mentiras repetidas mil vezes se convertem em verdade, ilícitos praticados reiteradamente perderiam o vício da ilegalidade, tornando-se social e eticamente aceitos. Para esse pessoal, não há fronteira entre o legal e o ilegal, o moral e o imoral. Eles são incapazes de perceber que a cultura – que inclui conhecimentos, crenças, símbolos, hábitos e expectativas comuns de justiça – é um conceito complexo. Além das práticas sociais aprendidas de geração em geração, ela encerra uma relação de força. A aparente diversidade de identidades valorativas e ideológicas, na dinâmica da política, oculta a dominação de alguns grupos sobre outros, ao mesmo tempo que produz e reforça desigualdades.

O momento singular que o País atravessa, em decorrência da corrosão do sistema partidário, do esfacelamento da autoridade presidencial e do escancaramento dos esquemas de captura do Estado, exige reflexão sobre o que está em jogo. Há quem aplauda a Lava Jato. Há quem a critique por excesso de judicialização, apoiando a asfixia orçamentária da PGR. Há quem afirme que a corrupção sistêmica só foi possível por causa da fraca institucionalidade política, vulnerável a pressões conjunturais. Há quem veja as eleições diretas como uma catarse política. Há quem tema que o descrédito dos políticos desestimule o eleitorado a investir em lideranças novas e capazes de repensar as funções do Estado e fortalecer a democracia representativa, tornando-a mais resistente à corrupção. São opiniões importantes. Mas o que causa receio são os desdobramentos da eventual aprovação de uma anistia irrestrita aos políticos. Mais precisamente, é o risco de que a repulsa a ela estimule aventuras moralistas em 2018, agravando a perda de substância da democracia.

Afastar esses riscos e reconstruir o poder público é um desafio complexo para uma sociedade que sempre teve dificuldade de articular o econômico e o social com o político. A política, dizia Weber, é um “esforço tenaz, que exige paixão e senso de proporções, para atravessar grossas vigas de madeira”. A mensagem é clara: ainda que esse esforço não afaste esses riscos, podendo gerar “não a floração do estio, mas uma noite polar, glacial e sombria”, não há salvação fora da política.

Um fracasso de gerações

A pinguela está ruindo, e rapidamente. A ponte rústica, débil construção política no improviso do impeachment de Dilma Rousseff, desmorona aos olhos daquele que talvez tenha sido seu principal arquiteto na intimidade do poder, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Seis meses atrás, ao revisar a obra, ele achava que ainda era possível seguir até o fim, pela legitimidade de Michel Temer. “Foi eleito”, argumentou ao repórter Mario Sergio Conti. “Vice-presidente, mas foi eleito. Muita gente pode não ter consciência disso, mas é legal. Pode-se discutir o impeachment [de Dilma] e tal, mas Temer é legítimo ali na Presidência.”

Há 11 dias, depois de o Tribunal Superior Eleitoral absolver Dilma e Temer por excesso de provas em processo sobre crimes de abuso de poder econômico na eleição de 2014, Fernando Henrique registrou em nota à Agência Lupa: “Se tudo continuar como está, com a desconstrução contínua da autoridade [de Temer], pior ainda se houver tentativas de embaraçar as investigações em curso, não vejo mais como o PSDB possa continuar no governo. Preferiria atravessar a pinguela, mas, se ela continuar quebrando, será melhor atravessar o rio a nado e devolver a legitimação da ordem à soberania popular.”

Ontem, em artigo, notou que se desfazem “o apoio da sociedade” e o “consentimento popular ao governo”. Lembrou que esse aumento da “descrença popular” ocorre numa circunstância de esgotamento dos meios constitucionais para mudança de governo, e Temer, “ainda que se mantenha, terá enorme dificuldade para fazer o necessário”.

Propôs uma saída honrosa: “O presidente tem legitimidade para reduzir o próprio mandato, propondo, por si ou por seus líderes, emenda à Constituição que abra espaço para as modificações.”


Fernando Henrique foi dos poucos governantes a passar a faixa presidencial ao sucessor (Lula) igualmente eleito pelo voto direto. Desde a redemocratização, em três décadas o Brasil teve quatro presidentes escolhidos nas urnas. Dois (Collor e Dilma) acabaram destituídos.

Passaram-se apenas 15 meses desde o impeachment de Dilma, e, agora, o país está diante de uma inédita situação — a insustentável permanência de um presidente denunciado por corrupção no exercício da função. O enredo singular demonstra como é praticamente impossível aos melhores ficcionistas competir com a realidade política.

Se há um componente peculiar na cena brasileira, é o fracasso das gerações que ascenderam na política no ocaso da ditadura militar, dominaram o poder a partir da Constituinte de 1987, e só admitiram a renovação partidária oligárquica (49% dos deputados federais eleitos em 2014 tinham berço em dinastias políticas, segundo a ONG Transparência Brasil).

Da gênese à agonia, o governo Temer contém uma síntese desse histórico fiasco geracional. Conservadores, liberais e ex-comunistas, todos se mostraram incapazes de reconstruir as bases institucionais do país em harmonia com o capitalismo contemporâneo. O legado está aí: uma pinguela em ruína em direção à absoluta incerteza.

José Casado

A Lava Jato como purgação e maldição

Se a crise da democracia e da política é um fenômeno global, é preciso compreender o que há de particular na experiência hoje vivida pelo Brasil. Minha hipótese é de que as raízes da nossa atual crise estão no próprio processo de retomada da democracia após 21 anos de ditadura civil-militar. As raízes da nossa crise estão no apagamento dos crimes da ditadura e na impunidade dos torturadores. O Brasil retomou a democracia sem lidar com os mortos e os desaparecidos do período de exceção. Seguiu adiante sem lidar com o trauma. Um país que para retomar a democracia precisa esconder os esqueletos no armário é um país com uma democracia deformada. E uma democracia deformada está aberta a mais deformações. O que se infiltra no imaginário da população é que a vida humana vale pouco qualquer que seja o regime. E este não é um dado qualquer na atual crise.

É neste sentido o uso das palavras “purgação” e “maldição” do título deste artigo para se referir aos significados da Lava Jato. Se a operação é importante e é imperativo que ela continue, porque expõe a relação estabelecida entre governos, partidos e parte do empresariado nacional, a Lava Jato também revela, pelo seu avesso, o pacto do diabo que resultou na alma deformada da nossa democracia. A grande purgação nacional não é pela vida humana, mas pelo dinheiro. Não é pela carne, mas pela matéria inanimada. Quando finalmente combatemos a impunidade, o que nos mobiliza são os bens materiais, enquanto a vida segue sendo ferida de morte.
Imagem relacionadaA maldição da Lava Jato é a de reforçar, como efeito colateral, a natureza da deformação de nossa democracia

O impacto da Lava Jato sobre a República que agora afunda possivelmente seria outro se antes dela houvesse existido investigação, julgamento e punição dos crimes contra a vida humana praticados pelo Estado durante a ditadura. Como em vez disso houve apagamento e impunidade, a maldição da Lava Jato é a de reforçar, como efeito colateral, a natureza de nossa deformação. E sobre isso não há responsabilidade dos agentes da operação, mas sim uma responsabilidade coletiva do povo brasileiro e uma responsabilidade consideravelmente maior das elites que conduziram e disputaram o processo de transição da ditadura para a democracia e o poder no que se chamou de Nova República.

Não vou me deter aqui nos meandros desta escolha pela conciliação com o inconciliável – e pelo apagamento. Apenas registrar que tanto a Comissão da Verdade quanto a ação que questionava a aplicação da Lei de Anistia para torturadores do regime foram oportunidades recentes de mudar esse rumo. A Comissão da Verdade pouco mobilizou a população. E o Supremo Tribunal Federal decidiu não rever a Lei de Anistia.

Um dos dois votos favoráveis ao pedido de revisão da Lei de Anistia proposto pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) foi do ministro Carlos Ayres Britto. Ele afirmou, em 2010: “Um torturador não comete crime político. Um torturador é um monstro, é um desnaturado, é um tarado. Um torturador é aquele que experimenta o mais intenso dos prazeres diante do mais intenso sofrimento alheio perpetrado por ele. É uma espécie de cascavel de ferocidade tal que morde ao som dos próprios chocalhos. Não se pode ter condescendência com torturador. A humanidade tem o dever de odiar seus ofensores porque o perdão coletivo é falta de memória e de vergonha”.

A cena pornográfica que sintetiza a deformação da democracia brasileira é o discurso do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC) durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff (PT) na Câmara: “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o terror de Dilma Rousseff”. Em uma frase só, no centro da democracia que é o parlamento, o militar da reserva homenageava um torturador e assassino – e gozava com a tortura da presidente legitimamente eleita, cujo afastamento era ali decidido. Ainda que esta cena de real pornografia tenha sido apontada dentro e fora do Brasil, o fato de ela não ter produzido um horror absoluto e disseminado é apenas mais um sintoma de nossa deformação.


Também é bastante claro que a escolha pela conciliação e pelo apagamento dos crimes da ditadura, para além das circunstâncias do momento, tem raízes históricas mais longas e profundas. Ela vai se encontrar lá atrás com as razões pelas quais o Brasil foi o último país da América a abolir oficialmente a escravidão negra. E está na própria formação do que se chama de Brasil. Há bibliografia de qualidade sobre isso e muitas linhas de investigação ainda a serem seguidas.

Aqui, o objetivo é trazer para o debate da atual crise os significados deste apagamento. E os riscos de seguirmos pactuando novos apagamentos. E, portanto, girando em falso. Cada vez torna-se mais evidente que não só apagar, mas contornar as contradições em vez de enfrentá-las, só nos leva cada vez mais para o fundo do poço sem fundo.

Quando um país vive uma experiência como uma ditadura, em que o Estado sequestrou, torturou e executou cidadãos, é preciso elaborar o que se viveu e fazer marca do vivido. Num país, isso se faz com investigação dos crimes, julgamento e punição dos responsáveis, promovendo memória, debate e reflexão. É assim que se estabelece no imaginário da população que tortura e assassinato não serão tolerados – e que o cidadão pode contar com a justiça numa democracia. É também isso que empresta valor ao regime democrático – e que aponta a sua diferença para uma tirania.

Essa ideia pode se tornar mais clara quando se observa o exemplo de um crime contra a humanidade que está no imaginário de todos. Quem vai a Berlim ou a outras cidades alemãs, pode contar com um itinerário de monumentos e museus que mantém viva a memória do Holocausto e do extermínio de seis milhões de judeus, ciganos, homossexuais e pessoas com algum tipo de deficiência. Cada alemão que nasce hoje, mais de 70 anos depois do final da Segunda Guerra, sabe que esse horror aconteceu ao dar seus primeiros passos na rua e topar com os monumentos. E vai precisar pensar sobre isso, porque é também este o legado de ser alemão. Ser alemão é estar num dos países com melhor qualidade de vida da Europa e é também compartilhar desta memória. Responsabilidade é isso: não se pode pegar só uma parte do pacote.

Não se vai a futuro nenhum negando o passado. É também para isso que se faz marca do vivido. Marcas no julgamento dos criminosos, marcas no ensino dentro das escolas e no debate em todos os espaços, marcas físicas, como o Memorial do Holocausto no coração de Berlim. A céu aberto e ocupando 19 mil metros quadrados de área nobre, bem perto do Portão de Brandemburgo, a escultura nos desestabiliza com a força de seus 2.711 blocos de concreto de diferentes tamanhos, projetada para produzir o sentimento perturbador causado por “um sistema supostamente ordenado que perdeu o contato com a razão humana”.

O objetivo de fazer marca do vivido não é promover penitência ou versões de punição bíblica. Não é de culpa que se trata. E sim de responsabilidade coletiva. As marcas servem exatamente para evitar a repetição.
Leia mais o artigo de Eliane Brum

Paisagem brasileira

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Amazônia

Meu filho não é um boi

‘A questão essencial não é que estejamos sendo vigiados, é como chegamos a este ponto, ou seja, como se organizou uma imensa e poderosa rede de espionagem, sem que isto fosse debatido e decidido pelos cidadãos”.

A frase é de Edward Snowden, e toca num ponto chave da crise atual pao é um boior que passam em todo o mundo os regimes democráticos, a saber, instituições estatais, com amplo raio de ação, desempenhando atividades que envolvem múltiplos interesses, financiadas com dinheiro público, operam sem nenhum controle social.

Não se poderia dizer o mesmo em relação ao envolvimento decisivo de grandes empresas nas campanhas eleitorais e no processo de elaboração e de definição das leis que regem a sociedade? Este é um assunto que tem merecido a atenção do professor Larry Lessig, que dirige um centro de estudos sobre a corrupção, na Universidade de Harvard, e que mostra como a agenda dos debates é orientada e condicionada pelos interesses de grandes corporações econômicas. Assim, temas e questões que entram em choque com estes interesses são colocados à margem, seus defensores detratados como “irrealistas”, “lunáticos”, ameaças à ordem instituída. Não se trata apenas de denunciar a “compra” ou a “venda” de parlamentares ou de votações específicas, embora tais procedimentos se tornem quase comuns e sejam, em si mesmos, fatores de distorção do jogo político. Estamos diante de algo mais complexo, de fixar o que se deve ou não debater, de estabelecer a agenda em torno da qual deve se concentrar a atenção da opinião pública. Nesta ordem de ideias, a corrupção de alguns, ou da maioria dos políticos, seria apenas o varejo de um processo de corrupção no atacado, maior e mais amplo, do próprio sistema institucional.

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Birgitta Jónsdóttir, poeta e política, fundadora do Partido Pirata na Islândia, adiciona uma outra questão, que teria jogado um papel importante nas últimas eleições islandesas — o medo. No mundo globalizado, onde impera a livre circulação de capitais, a ameaça de uma súbita e maciça fuga de capitais amedrontaria e inibiria tendências favoráveis a mudanças no sentido da contenção do poder econômico. Frente ao espantalho da crise, da instabilidade e do desemprego, as opções por um voto conservador tenderiam a se fortalecer.

Larry Lessig e Birgitta Jónsdóttir reuniram-se, em Moscou, com Edward Snowden para discutir os dilemas da democracia, por toda a parte ameaçada e fragilizada. Nos Estados Unidos, desrespeitando o voto universal, validado por um colégio eleitoral e antidemocrático, emergiu a inquietante — e despótica — figura de Donald Trump. Na Rússia, o governo de Vladimir Putin, embora legitimado por eleições, toma um rumo autoritário nítido, amparado por um nacionalismo exacerbado. Na China, o Partido Comunista mantém sob rédeas ditatoriais a população. No mundo árabe, declinou o impulso da “primavera” que suscitara tantas esperanças. Em seu lugar, desagregação, guerras civis, novas ditaduras. Até na Europa, onde pareciam sólidas as bases do Estado de bem-estar social, é notória, em vários países, a ascensão de partidos de extrema-direita. Mesmo ali onde estas forças são derrotadas, é perturbador o desapreço de expressivos segmentos do povo em relação ao regime eleitoral. Nas recentes eleições francesas este fato evidenciou-se mais uma vez. No segundo turno das eleições parlamentares, quase 58% dos eleitores inscritos não se deram ao trabalho de ir votar. Uma tendência histórica, flagrada desde os anos 1970 e 1980, quando o comparecimento às urnas alcançava com frequência a marca de 80%. De lá para cá, só aumentaram o descrédito e a desconfiança, sobretudo entre os jovens e as camadas populares, em relação à mal chamada “classe política”. Na América Latina, como sabemos, a situação não é nada melhor. No Brasil, em especial, a distância entre a aristocracia do poder, cevada a mordomias e protegida pelo repugnante foro privilegiado, e as pessoas comuns não cessa de aumentar, desmoralizando, cada vez mais, as instituições.

Timothy Snyder, da Universidade de Yale, estudioso do nazismo e do stalinismo, emite sinais de alerta ao identificar na situação atual semelhanças com a que o mundo viveu entre as guerras mundiais, quando os regimes autoritários e ditatoriais surgiram como alternativas para gentes desesperançadas, temerosas e descrentes.

É neste panorama desalentador que se torna significativa a traumática experiência do garoto que, em São Bernardo, foi torturado e tatuado na testa com uma frase infamante. Como observou José de Souza Martins, no berço das lutas democráticas brasileiras, a tortura perpetrada por elementos populares. Um sinal da força do autoritarismo nas bases da sociedade? A mãe da vítima protestou: “Meu filho não é um boi”. Resta saber se não estaremos virando, todos, uma grande boiada, a caminho do matadouro de novas ditaduras.

Daniel Aarão Reis

Democracia em marcha

A histórica associação entre enormes estruturas burocráticas de administração centralizada e os regimes políticos degenerados é bem documentada.

Tocqueville registrou a tradição dirigista de centralização administrativa francesa como eixo de autoritarismo encadeando através do tempo os regimes monarquista, revolucionário e bonapartista.

O despotismo absolutista, o terror jacobino e as guerras napoleônicas tornaram-se possíveis pela concentração de poder inerente às engrenagens dirigistas.

Da mesma forma, a impressionante burocracia prussiana, da máquina militarista imperial aos correios, às ferrovias e à previdência social arquitetada por Bismarck, seguiu ampliando suas engrenagens muito além do Antigo Regime guilhermino. Proliferou em meio à avalanche social-democrata da República de Weimar, até atingir seu clímax no capitalismo de Estado sob comando do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães.


Degeneração moral e política também do socialismo soviético do século XX ao socialismo bolivariano do século XXI.

Essa linha lógica costura os fatos nos últimos 40 anos da História brasileira.

Os militares no Antigo Regime de 1964 e a social-democracia hegemônica desde a redemocratização, em 1985, empurraram os gastos públicos de menos de 20% para mais de 40% do Produto Interno Bruto.

A corrupção sistêmica tem aqui suas raízes profundas, penetrando muito além da superfície política. Envergonhou os militares, devastou a “direita” fisiológica e desmoralizou a “esquerda” social-democrata.

A Operação Lava-Jato devora o PT, o PMDB e o PSDB, grandes partidos que se revezam no poder há nove mandatos presidenciais.

A morte da Velha Política agora em 2017 marca o fim de uma era, e as campanhas eleitorais em 2018 serão o anúncio do nascimento da Nova Política.

Nossas instituições estão sendo testadas.

O governo Temer se comprometeu com o controle de gastos, a reforma trabalhista e a reforma da Previdência. Seu eventual sucessor, Rodrigo Maia, assumiu a Câmara dos Deputados com os mesmos compromissos.

Devem submeter as matérias ao Congresso, recorrendo ao “fechamento de questão” para sua aprovação. Sem isso, são alvos fáceis para as precipitadas sugestões de antecipação das eleições presidenciais.

Nossa democracia segue em marcha.

Paulo Guedes

'Nada nos destruirá', diz Temer, subestimando poder de autocombustão

“Não há Plano B”, disse Michel Temer em solenidade no Planalto, nesta segunda-feira. É preciso reconhecer que o presidente tem razão. Se o que acontece no Brasil hoje significa alguma coisa, é a confirmação de que nunca houve um plano de contingência confiável ao fiasco de Dilma Rousseff.

O Plano A previa que Dilma nomearia Joaquim Levy para a Fazenda. Adotaria o programa de reformas econômicas defendido na campanha pelo rival Aécio Neves. O PIB voltaria a crescer. E ninguém prestaria atenção à roubalheira. Terminou em pantomima e impeachment.

O Plano B seria a reedição do Plano A, só que com o Henrique Meirelles no papel de neo-Levy e o PSDB de Aécio ocupando no palco posições que eram do PT. Sem os freios ideológicos de Dilma, Temer abraçou o receituário liberal sem culpa. O mercado estava adorando. Mas o presidente e seu PMDB esqueceram de maneirar.

Temer praticou, ele próprio, crime de corrupção passiva, acusa o procurador-geral da República Rodrigo Janot. Diante disso, o Plano C é… é… é… À medida que penetra o caos, o Brasil vai percebendo que também não há um Plano C. Fernando Henrique Cardoso tenta esboçar uma saída em cima da perna. Defende a renúncia do presidente e a convocação de eleições gerais. Ai, ai, ai…

À espera da denúncia em que a Procuradoria o tachará de corrupto, Temer proclamou nesta segunda-feira, rodeado de auxiliares investigados: “Nada nos destruirá. Nem a mim nem aos nossos ministros.” O inquilino do Planalto subestima o seu poder de autocombustão.

Temer finge não perceber. Mas seu governo foi reduzido a uma metáfora culinária. Tentou levantar o PIB, mantendo rebaixados os padrões morais da administração pública. E a receita desandou. A calda queimou. O presidente e o seu séquito de encrencados transformaram o pudim das reformas num vexame. Fizeram isso sozinhos, sem o auxílio de opositores.

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Sahara el Beyda, em Farafa (Egito)

Brasil foi dividido entre cinco grandes quadrilhas nas últimas duas décadas

Se você analisa as delações da JBS, as da Odebrecht e as das demais empreiteiras, a conclusão é mais ou menos a seguinte: a maior e mais perigosa, diferentemente do que diz o Joesley, era a quadrilha do PT. Era a mais estruturada, mais agressiva, mais eficiente e com planos de perpetuação no poder. Comandava a Petrobras, vários fundos de pensão e dividia o poder com as quadrilhas do PMDB nos bancos públicos. Sua maior aliada econômica foi a Odebrecht. O chefão supremo era o Lula. Palocci e Mantega, os operadores econômicos. Era o Comando Vermelho da política: pra se manter na presidência eram capazes de fazer o Diabo.

A segunda maior era a do PMDB da Câmara. Seus principais chefões eram Temer e Eduardo Cunha. Eliseu Padilha, Geddel Vieira Lima, Moreira Franco e Henrique Eduardo Alves eram os subchefes. Lúcio Funaro era o operador financeiro. Mandava no FI-FGTS, em diretorias da Caixa Econômica, em fundos de pensão e no ministério da Agricultura. Por causa do controle desse último órgão, tinha tanta influência na JBS. Era o ADA dos políticos — ou seja, mais entranhada nos esquemas do poder tradicional e mais disposta a acordos e partilhas.

A terceira era o PMDB do Senado. Seu chefão era Renan Calheiros. Seu guru e presidente honorário, José Sarney. Edison Lobão, Jader Barbalho e Eunício Oliveira eram outras figuras de proa. Mandava nas empresas da área de energia e tinha influência nos fundos de pensão e empreiteiras que atuavam no setor. Vivia às turras com a quadrilha do PMDB na Câmara, que era maior e mais organizada.


A quarta era o PSDB paulista, cuja figura de maior expressão era o Serra. Tinha grande independência das quadrilhas de PT e PMDB porque o governo de São Paulo era terreno fértil em licitações e obras. A empresa mais próxima do grupo era a Andrade Gutierrez, mas também foi financiada por esquemas com Alstom e Odebrecht.

A quinta e última era o PSDB de Minas — ou, para ser mas preciso, o PSDB do Aécio. Era uma quadrilha paroquial, com raio de ação mais restrito, mas ainda assim mandava em Furnas e usava a Cemig como operadora de esquemas nacionais, como o consórcio da hidrelétrica do Rio Madeira.

Em torno dessas “big five” flutuavam bandos menores, mas nem por isso menos agressivos em sua rapinagem — como o PR, que dava as cartas no setor de Transportes, o PSD do Kassab, que influenciava ministérios poderosos como o das Cidades, o PP, que compartilhava a Petrobras com o PT, e o consórcio PRB-Igreja Universal, que tinha interesses na área de Esportes.

Havia também os bandos estritamente regionais, que atuavam com maior ou menor grau de independência em relação aos nacionais. O PMDB do Rio e seu inacreditável comandante Sérgio Cabral, por exemplo, chegaram a ser mais poderosos que os grupos nacionais. Fernando Pimentel comandava uma subquadrilha petista em Minas. O PT baiano também tinha voo próprio. Elas se diferenciam das quadrilhas tucanas que estavam apenas circunstancialmente restritas aos territórios que comandavam — mas sempre tiveram aspirações e influência nacionais.

Por fim, vinham parlamentares e outros políticos do Centrão, que eram negociados de maneira transacional no varejo: uma emenda aqui, um caixa 2 ali, uma secretaria acolá…
Digo tudo isso não para reduzir a importância do PT e o protagonismo do Lula nos crimes que foram cometidos contra o Brasil. Lula tem de ser preso e o PT tem que ser reduzido ao tamanho de um PSTU.

Mas ninguém pode dizer que é contra a corrupção se tolerar as quadrilhas do PMDB ou do PSDB em nome da “estabilidade”, “das reformas” ou de qualquer outra tábua de salvação que esses bandidos jogam para si mesmos.

E que ninguém superestime as rivalidades existentes entre esses cinco grandes grupos. Em nome da própria sobrevivência eles são capazes de qualquer tipo de acordo ou acomodação e farão de tudo para obstruir a Lava Jato.

De carros a gado, o polêmico agronegócio da Volks na Amazônia

Uma fazenda-modelo para criar o "gado do futuro" e resolver parte do problema mundial da fome era o grande plano da montadora alemã Volkswagen em sua estratégia de ramificação de negócios no Brasil. Ao receber uma oferta do regime militar para participar do projeto de desenvolvimento da Amazônia, a empresa não perdeu a oportunidade de investir no agronegócio.

O projeto que, na década de 1970, parecia um ótimo investimento, com lucros garantidos, tornou-se, poucos anos, depois um pesadelo para o grupo alemão. Além de enfrentar acusações de ambientalistas sobre o desmatamento, a empresa se viu envolvida num escândalo sobre a exploração de trabalhadores em suas terras.

Manchete, 1983
"Todas essas polêmicas que aconteceram na fazenda da montadora nos anos 1970 e 1980 ajudaram a construir a Amazônia como um espaço político nacional e internacional. A Volks acabou se tornando um símbolo da invasão da Amazônia por grandes empresários e grupos locais e estrangeiros", afirma o historiador Antoine Acker, cujo livro Volkswagen in the Amazon: The Tragedy of Global Development in Modern Brazil será lançado em julho.

Acker acrescenta que, apesar de a montadora alemã não ser a única que desmatava a região, ela era o nome mais conhecido. "Por isso, o escândalo da Volkswagen foi uma oportunidade para que muitas associações, partidos políticos e ativistas chamassem a atenção internacional para a Amazônia", ressalta.

Apesar de tentativas de desenvolvimento da Amazônia ocorrerem desde o final do século 19, com os ciclos de exploração da borracha, somente após o golpe militar de 1964 foi posto em prática um plano extensivo para a ocupação e "modernização" da região.

Com o lema "integrar para não entregar", o regime militar fez do desenvolvimento da Amazônia uma de suas prioridades. Para isso criou a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), responsável por colocar em prática essas ideias e administrá-las, além de buscar investidores interessados em negócios na região.

Mesmo propagando o discurso de proteger a Amazônia para evitar sua internacionalização, os militares faziam vista grossa, e até promoviam, investimentos estrangeiros na região. Nesse contexto surgiu a fazenda-modelo da Volkswagen no sul do Pará.

Na época, duas versões sobre o pontapé inicial da iniciativa circularam. No Brasil, divulgava-se que a empresa alemã e principalmente seu presidente no Brasil, Wolfgang Sauer, faziam questão de cooperar com o projeto de colonização da Amazônia.

Na Alemanha, para conquistar o aval do conselho de administração, o presidente do grupo na época, Rudolf Leiding, alegou que o negócio foi um pedido do regime militar. Mesmo sem consultar o conselho, ele havia comprado parte do terreno onde seria a fazenda em 1973.

"Na reunião do conselho, a compra acabou sendo validada, pois já havia ocorrido. Como não conhecia muito bem a situação brasileira, o conselho simplesmente aprovou porque não sabia do que se tratava. Leiding tentou explicar que a Volkswagen teria muito lucro se investisse na Amazônia", disse Acker.

Nessa controvérsia surgiu a Companhia Vale do Rio Cristalino (CVRC) e, com ela, os planos da montadora de exportar o gado produzido no Brasil para Europa, Japão e Estados Unidos.

Em 1974, com o aval da Sudam, a Volkswagen deu início ao projeto para transformar o espaço de 140 mil hectares no sul do Pará numa fazenda-modelo. O primeiro passo foi desmatar a área para a criação do pasto. De acordo com a legislação da época, a empresa poderia botar abaixo as árvores em metade do território.

Os planos da Volkswagen eram ambiciosos. Na CVRC deveria ser criado o gado do futuro. Assim, a iniciativa mostraria que, com o uso de novas tecnologias, seria possível ter uma pecuária tão eficiente e lucrativa numa região de clima tropical como em climas temperados. O projeto tinha ainda intenções sociais. Leiding dizia que a fazenda forneceria proteína para nutrir a população do Terceiro Mundo, como na época eram conhecidos os países pobres.

Para isso, a montadora não economizou em tecnologia e pesquisa, investiu em estudos do solo e dos animais, monitorou pastagens e rebanho com um sistema computadorizado. Tudo parecia seguir o rigoroso padrão alemão de qualidade.

Porém, logo após as primeiras queimadas, ambientalistas começaram a denunciar a devastação promovida pela empresa e os impactos incalculáveis que o desmatamento poderia causar no clima global. Além disso, a Volks foi acusada iniciar a derrubada da floresta sem a autorização de todos os órgãos brasileiros responsáveis.

No final da década de 1970, essas denúncias chegaram à Alemanha e à Europa por meio de reportagens publicadas na imprensa internacional. O desmatamento causado pela Volkswagen no Brasil foi tema de debate no Bundestag e no Parlamento Europeu.

A montadora, no entanto, alegava que respeitava a legislação brasileira e derrubava somente o permitido, além de argumentar que usava os métodos utilizados por todos na região e que estava investindo no progresso do Brasil. As críticas dos ambientalistas, porém, estavam longe de ser as únicas enfrentadas pela empresa.

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O azar é nosso

Aécio Neves é um homem de sorte. Como diria um velho amigo, "pega nada, titia". O ex-médico Abdelmassih também parece um homem de sorte. O sujeito que atropelou, de propósito, no domingo, 25, skatistas que comemoravam o dia mundial do Skate, nem ficará preso, diz o delegado que o ouviu nessa segunda.

Temer, então, nem se fala. Posa como homem de sucesso. Somam-se denúncias contra Temer e todos eles - e outros mais - e sobra hipocrisia no país da impunidade. Os denunciados pagam pouco, ou quase nada, à sociedade corrompida e aviltada.

Flagrado em conversa comprometedora, Aécio terá preservado seu mandato. O presidente do Conselho de Ética e Decoro do Senado não fez objeção ao dialogo suspeitíssimo em que Aécio pede dinheiro ao empresário investigado Joesley Batista.


Como agravante, Aécio ainda sugere que o montante solicitado a joesley fosse entregue "a um que a gente mate antes de fazer delação". Aécio responde a outros vários processos no Supremo Tribunal Federal. Um de seus seus casos parou nas mãos do ministro Gilmar Mendes, com quem tem uma relação amigável. A escolha do relator se dá por sorteio. Que sorte de Aécio!

Temer foi denunciado esta segunda pelo Procurador Rodrigo Janot, por corrupção. Mas (querendo parecer) alheio às questões que se acumulam na justiça contra ele, o presidente repete o discurso: está fazendo o melhor governo dos últimos tempos, e enaltece as reformas em andamento. Temer está nas gravações de Joesley, em encontro altamente duvidoso.

O ex-medico Abdelmassih, condenado a 278 anos de prisão, pelo estupro de 37 mulheres, acaba de ser agraciado - por uma juíza - com a permissão para cumprir a pena em casa. A indignação entre as vítimas é flagrante. Revolta que se deu quando a mulher de Sergio Cabral, Adriana Anselmo, recebeu a mesma regalia. Abdelmassih e Adriana são sortudos. E muito ricos.

O homem que atropelou, propositalmente, skatistas na rua Augusta, interditada para o transito, no Dia Mundial do Skate, se apresentou ontem pela manhã. Esse sujeito jogou seu carro contra os esportistas. Ainda assim, foi liberado pelo delegado assim que prestou depoimento.

Se exemplos não nos faltam, leis também não. São 181 mil normas federais. Ainda assim, há brechas para a impunidade ou abrandamento de penas. Tolerância legal num mundo de tantas intolerâncias.

Que o diga Fernanda (nome fictício), a mãe que roubou ovos de Páscoa e peito de frango de um supermercado, em 2015, e foi condenada a três anos e dois meses em regime fechado. Na prisão, em abril último, deu à luz seu quarto filho. Com ele, divide uma cela. E mais 12 detentas.

No discurso de segunda, Michel Temer garantiu que nada o destruirá nem ao seu governo. Nessa marcha da liberalidade legal e jurídica, que ninguém duvide de suas palavras. Sorte deles. Azar o nosso.

segunda-feira, 26 de junho de 2017


Símbolos nacionais

Grandes empresários deveriam ser símbolos de sucesso, empreendedorismo e retidão. Homens feitos por si mesmos em processos concorrenciais de que saíram vitoriosos. Apareceriam, então, como exemplos a serem seguidos tanto por jovens em início de carreira quanto por aqueles que seriam objeto de emulação.

Uma sociedade se organiza em função de exemplos a seguir, numa encarnação de valores a serem repetidos. O mundo empresarial deveria, nesse sentido, mostrar o caminho dos que pretendem o sucesso na vida econômica, sem descuidar, evidentemente, de que esse sucesso obedeça a regras do ponto de vista moral e jurídico. Não se trata de um vale-tudo no absoluto desconhecimento do compromisso com valores éticos.

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O Brasil, no longo reinado lulopetista, com suas consequências agora aparecendo, deu mostras de condutas que não deveriam ser imitadas. Seriam a expressão de um sucesso a ser obtido a qualquer preço, como se o mundo das regras jurídicas e de mercado fosse considerado simplesmente na perspectiva de sua perversão. Seu capitalismo seria o do compadrio, tornando-se progressivamente o dos comparsas.

Quais eram os símbolos nacionais que se vinham destacando? Quem era apresentado como caso de sucesso, preenchendo capas de revista, propagandas, notícias, redes sociais, o mundo televisivo? Marcelo Odebrecht, os irmãos Batista da JBS, Eike Batista e outros. Todos têm em comum estreitas relações com o ex-presidente Lula – embora todos procurem agora minimizar esse fato, o próprio Lula incluído. De repente, tornaram-se desconhecidos, como se num passe de mágica tudo o que fizeram juntos tivesse sido apagado.

É bem verdade que nesse relacionamento de compadrio Lula foi somente o líder máximo, tendo sido acompanhado por todo um submundo em que compareceram não apenas os petistas, mas a maioria dos outros partidos, numa espécie de partilha dos bens nacionais. Estabeleceu-se uma triangulação entre políticos, empresários e executivos de empresas estatais e bancos públicos, baseada tanto no enriquecimento pessoal e no sucesso das empresas quanto no financiamento de partidos políticos. Convém ressaltar que isso não ficou limitado a um falseamento da concorrência, restringindo severamente as condições de uma economia de mercado, mas terminou evoluindo para um complexo esquema de corrupção que permeou todo o aparelho estatal.

O saqueio da Petrobrás ilustra muito bem a que ponto esse processo foi conduzido, espalhando-se para outras empresas e bancos públicos. Os compadres evoluíram para comparsas. O mundo da política tornou-se o da polícia; o mundo empresarial, o do crime.

A Lava Jato tem o grande mérito de ter desvendado essa trama. Graças ao incansável trabalho de juízes, desembargadores, promotores, procuradores e policiais federais esse submundo veio à tona, expondo a corrupção que tomou conta do Estado, dos partidos e de parte do mundo empresarial. A delação premiada, nesta perspectiva, foi um instrumento da máxima importância.

Marcelo Odebrecht está preso, o nome de sua empresa aparece agora como símbolo de corrupção e descaso com os bens públicos. Os donos lutam por sua sobrevivência, imersos nos mais distintos tipos de problemas. Foram comidos por sua própria voracidade.

Eike Batista, outrora símbolo do rápido sucesso empresarial, cortejado por muitos e dono de muito boa capacidade de comunicação, pena em processos criminais. Seu império se desmanchou como um castelo de cartas, mostrando não ter uma base real. Sua imagem é um exemplo do que não pode ser repetido.

Os irmãos Batista, com destaque para Joesley, são um caso à parte. Não por não serem compadres e comparsas, mas por exporem à Nação que o crime compensa. Foram comparsas em grau máximo, mas pretendem se vender como vítimas e, pior ainda, como partícipes de um processo de revelação da corrupção. De bandidos pretendem parecer mocinhos.

Acontece que a sociedade brasileira, que manteve a sanidade e o bom senso no que diz respeito aos seus valores, embora tenha sido ludibriada eleitoralmente, insurge-se contra o espetáculo político-policial da corrupção. Os irmãos Batista continuam sendo vistos como bandidos que devem ser exemplarmente punidos.

Eles, porém, conseguiram um acordo de delação que os isenta da punição. Um dos irmãos, Joesley, num ato de completo descaramento, sem nenhum tipo de vergonha, logo embarcou com a família para Nova York, em avião particular, para usufruir o luxo de sua vida de criminoso bem recompensado. Seu iate foi para os Estados Unidos, para melhor desfrutarem suas regalias. E o mais grave: com o beneplácito e o apoio da Procuradoria-Geral da República.

A Lava Jato mostrou que a delação é um meio para obter provas, não um fim em si mesmo. O que estamos observando, contudo, é uma busca desenfreada por delações, como se fossem seu próprio fim. Ora, delações são, ou deveriam ser, instrumentos de punição, não ferramentas de impunidade.

O resultado é uma completa inversão de valores. Os Batistas chegam a reclamar candidamente de que estariam sofrendo “retaliações” do governo, como se o seu acordo com a Procuradoria fosse um salvo-conduto para que sua vida empresarial – e pessoal – continuasse “normalmente”. Fizeram um grande caixa para atravessar este período. Esqueceram-se de combinar com os russos. Seus fornecedores não mais querem vender-lhes seus produtos. Os clientes não mais querem comprá-los. Bancos públicos e privados querem segurança do que lhes foi emprestado. A Comissão de Valores Mobiliários investiga suas operações.

E a sociedade quer dar um basta a tudo isso!

Mundo 'fake'

Devemos a Donald Trump e aos seus a propagação de uma estranha tendência, velha, mas com nova denominação: as ”notícias alternativas” (“fake news”), também conhecidas como “pós-verdade”, em resumo, tudo aquilo que o magnata não gosta ou que não lhe caia bem. Sua negação ou tergiversação da realidade começou a ser uma constante desde sua própria cerimônia de posse que contou, como demonstram as fotografias, com menos presentes do que as de Obama em 2009 e 2013, apesar de ele ter afirmado que as imagens tinham sido manipuladas. À época, deveríamos ter aprendido que seria apenas o começo e seria a marca da casa.

Goebbels nos ensinou que uma mentira repetida mil vezes acaba se transformando em uma verdade. Os meios de comunicação vivem hoje uma situação esquizoide e são um pouco como o paranoico a que perseguem: já não contam como antes, tudo é relativo, depende do ponto de vista ou da ideologia de cada qual, e o que consideram negativo tem melhor recepção entre as pessoas do que os valores democráticos.

Estamos por acaso ante uma crise geracional? Ou ante uma crise entre a realidade e a ficção? Em um novo mundo ou em um falso? Me assusta a desfaçatez dos que se atrevem a negar a realidade porque, no fim das contas, pertenço a uma geração que uma vez se atreveu e foi capaz de romper o inimaginável. Por essa razão, sempre mantive que cada geração tem o direito de se equivocar.

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A herança que Trump está deixando ao mundo, essa nova maneira de viver à margem da realidade, ajustando-a ou negando-a, teria dado nos tempos de Freud material abundante para a análise e vários milhares de livros. No entanto, nesse século XXI onde impera a tecnologia, o reino do Twitter e o universo do Facebook, só é uma expressão das profundas mudanças que estão sendo gestadas nestes tempos.

Trump utiliza as armas de gerações anteriores para atacar a realidade e chamar de mentirosos e falsos todos aqueles que apresentam dados ou informações que não lhe convém. E depois está uma nova geração que salta por cima de tudo isso e vive rompendo os limites.

Ao final, tanto os que se vão como os que chegam são escravos da tecnologia. Já não há um mundo no The New York Times ou no EL PAÍS, já não há um mundo em outros jornais porque ninguém pôde imaginar, nem em seus mais incríveis sonhos, que os meios de comunicação perderiam o domínio e a distribuição da informação para o Facebook.

Enquanto isso, há sim uma verdade indiscutível. A imprensa e aqueles que vivem observando o que acontece ao nosso redor já não têm o monopólio da autoridade, de ditar o que é bom e o que é ruim. Pode se discordar do comportamento de um político ou do programa de um partido, mas o que não se deve fazer é negar seu direito ao erro e condená-lo porque não concorda com o que pensamos.

Não podemos negar aos demais o direito que nós algum dia exercemos ao romper as barreiras e os limites e ir além do horizonte. E, ainda que não se consiga ir tão longe como se esperava, terá valido a pena tentar porque é um direito geracional inapelável.

O problema é que a transição entre o velho e o novo está sendo feita com desqualificações, e não com consensos. A verdade é a verdade como a física é a física e a lei da gravidade estabelece que a maçã cai no chão, ainda que haja bruxos que afirmem que também pode ir para cima. No entanto, muitos – deixando de lado as lacunas geracionais – sabem que as maçãs sempre caíram nas nossas cabeças.

Nestes tempos a política e a sociologia nadam em mar de confusões, a mais importante delas a do sentido comum. De um lado há meios de comunicação que acreditam encarnar a verdade e se atrevem a ir contra a nova realidade e, do outro, há políticos que são capazes de afirmar que são mentiras até as verdades comprováveis.

Neste ocaso dos sistema de expressão tradicionais, não há que se esquecer que a sensatez de um editorial não pode competir com a ditadura dos 140 caracteres, e que sempre mantivemos que os povos, como as baleias, têm direito ao suicídio.

Antonio Navalón

Ali talvez bata um coração

Trocar língua por fita métrica. Talvez resolvesse tudo. Mas enquanto a medicina não alcança o nível de nossas sensibilidades, a gente tem que arranjar um jeitinho de viver. E viver já foi mais simples.

Hoje em dia a gente tem que tomar cuidado com o que fala. Medir cada palavra. Emitir sons precisos, claros, e, de preferência, que não contrariem qualquer opinião. Diante da impossibilidade deste objetivo, resta pouca coisa além da resignação.

E, parece, todos seguimos resignados com este destino. Talvez sejam estes os primeiros tempos em que as palavras tenham sofrido separação forcada do pensamento. Interessa cada vez menos o que se acredita. E cada vez mais a forma como se diz.

Fizemos opção pela supressão da expressão das ideias em detrimento da troca de conhecimento ou pontos de vista. Coisa até compreensível. Conviver com as diferenças é difícil. E humano. Todo mundo gosta de diversidade de opiniões. Até que ela acontece.

Houve época em que acreditamos que a tecnologia resolveria tudo. Traria intercâmbio de ideias. O acesso a informação motivaria a busca por conhecimento novo, diversificado. Cada um confrontaria suas crenças em uma busca constante de melhoria baseado no acesso a diferentes opiniões ou pontos de vista. Nada disso aconteceu. Enterramos mais esta quimera.

Cresce assustadoramente a quantidade de pessoas que buscam suas informações nas mídias sociais. Não buscam a melhor informação. Procuram apenas validar seus pontos de vista. Jamais testá-los. Relacionam-se com pessoas de opinião semelhante. E recusam aquelas que discordam. Tudo isso, claro, enquanto protestam contra a falta de tolerância e a abundancia do ódio. Vai entender.

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Debate e troca de ideias é coisa do passado. Fora de moda. Interações com o pensamento diferente é apenas entrincheiramento em eterna guerra de atrito e sem fim. Cada grupo com sua rede de muros construídos em nome de conceitos até muitas vezes aparentemente justos, destinados exclusivamente a uma guerra eterna e infrutífera pela hegemonia de pensamento.

Quem ousa contrariar a sabedoria convencional, é rotulado, combatido, ofendido e agredido. Parece não ter fim. As palavras não mais podem expressar pensamentos. E algumas palavras, defendem alguns, devem ser banidas. Junto com a liberdade de expressão de quem as pronuncia.

Culturas, defendem outros, não podem e não devem ser misturadas. Devem permanecer prisioneiras de muros imaginários ou imaginados. Afinal, creem, que quando livres, cultura poderia ser apropriada. E isso seria perigoso.
A pretexto de combater causas nocivas a humanidade, preferimos sufocar a liberdade de expressão. E com ela, potencialmente, a diversidade de opiniões. Isso custa caro. E é perigoso. Abre a porta para males muito maiores.

Talvez fosse mais produtivo se fizéssemos o contrário. Se permitíssemos a todos o direito de expressão, independente do seu conteúdo. Parece radical. Mas seria mais simples, claro, e melhor viver em um mundo em que as palavras representam o real pensamento de cada um. Sem muitos filtros. Sem proibição.

Não que seja agradável ouvir certas coisas. Mas, se a expressão de ideias que discordamos fosse permitida, aumentaria a probabilidade de que possamos modifica-las através do diálogo.

Que as diferenças sejam claras, discutidas, respeitadas e resolvidas. Que se expressem os detratores, os soberbos, os presunçosos, os maldosos, os mentirosos, e até mesmo os chatos de todo gênero. Que o façam a luz do dia. Não existe perigo nisso. Ignorância desaparece ao primeiro contato com a luz

E quem sabe até nos surpreendamos quando, às vezes, constatarmos que no peito deles talvez bata um coração.

O futuro dos predadores

Sempre que ligo a tevê no noticiário político, o PSDB está deixando o governo ou decidindo ficar com ele. O partido não conhece aquela teoria da dissonância cognitiva. Ela afirma que, uma vez feita uma escolha, a tendência é reforçá-la com racionalizações. Se escolhemos rosas brancas no lugar das amarelas, tendemos a ressaltar a beleza das brancas e a enfatizar os defeitos das amarelas. O PSDB ou está saindo ou ficando. Se decide ficar, faz precisamente o contrário do que acontece na dissonância cognitiva: começa a refletir sobre as vantagens de sair. No momento em que toma a decisão do desembarque, certamente vai falar muito das vantagens de ficar no governo. Enfim, parece ter uma permanente incapacidade de tomar decisões e seguir com elas.

O drama do PSDB se acentuou com as denúncias contra Aécio Neves. Sua tendência quase genética a subir no muro torna-se mais compulsiva no momento em que tem de escolher entre a Lava-Jato e o sistema político em colapso.


O interessante é observar como a existência das investigações mexe com a sorte dos partidos. O PT, por exemplo, torce para que Aécio Neves não seja preso, pois isso destruiria o argumento de que o partido é, seletivamente, perseguido. A prisão de Aécio pode tornar mais fácil a de Lula. Ambos olham com esperança para Temer, não porque o admirem e sim porque é o único com instrumentos potencialmente capazes de salvar todo mundo.

Escolha de Procurador Geral, mudanças na direção da PF — o sonho de consumo das estruturas partidárias cai nas mãos de Temer, por sua vez, preocupado com sua própria situação, sobretudo com o avanço das delações premiadas.

Janot deixa o cargo em setembro. Fala-se em corrida de delações. Ao mesmo tempo, fala-se num acordo para fixar a diferença entre receber dinheiro pelo caixa 2 sem oferecer nada em troca, ou receber em troca de favores oficiais. Quando setembro chegar, talvez termine o primeiro ato. O PSDB vai hesitar muitas vezes, os adversários políticos continuarão fingindo que não estão umbilicalmente ligados no barco que naufraga.

As raposas políticas trabalham para que Temer escolha um substituto amigo para Janot. É preciso ver como isto vai se passar na instituição, se ela se rende com sem luta, ou resiste ao lado da sociedade. Diz a imprensa que a candidata Raquel Dodge tem apoio de Sarney, Renan e Moreira Franco. Se a eleição dependesse do voto popular, esse apoio seria um abraço mortal.

Tudo é possível num país como o nosso. Surreal mas não o bastante para apagar de nossa consciência o gigantesco processo de corrupção que arruinou o país.

Terça-feira acordei em Curitiba e olhei pela janela do hotel: manhã fria, cinzenta e chuvosa. Pensei nos presos que estão por aqui. O inverno será duro para eles. E, certamente, alguns outros virão para cá.

Mas ainda assim, creio que uma fase esteja acabando. Ela não resolve nada sozinha. Mas abre a possibilidade do país enterrar o sistema politico partidário, buscar algo novo, ainda que questionável, como fizeram os franceses, por exemplo.

O esforço de Sarney, Renan, Moreira e outras raposas do PMDB para deter o curso das mudanças é patético.

Pessoalmente não acredito que uma procuradora de alto nível iria se prestar ao papel histórico de se tornar cúmplice da quadrilha que mantém o país oficial na lata do lixo.

Quando setembro chegar, com o ritmo intenso dos acontecimentos, o perigo de um retrocesso talvez já não esteja no ar. Qualquer substituto, minimamente decente, terá de concluir o trabalho já feito. Muitos fatos ainda devem ser desvendados. Algumas delações devem ajudar. Não creio que a de Eduardo Cunha possa ser uma delas. Cada vez que se fala em sua provável delação, é possível que ele enriqueça mais, vendendo o silêncio, inclusive para inocentes.

Mas a carta de Cunha revela uma reunião entre ele, Lula e Joesley que o dono da Friboi não mencionou sua delação premiada. Isso reforça a suspeita de que Joesley esteja escondendo jogo.

Semanas favoráveis, semanas negativas, semanas no muro, tempo vai se passando, as ruínas do velho sistema político partidário se acumulam. No entanto, o debate sobre a renovação ainda não ocupa o espaço merecido.

Com os dados que temos, é possível que as instituições que sobrevivem realizando seu trabalho e a sociedade que as apoia saiam vitoriosas dessa luta.

De nada adiantará essa vitória se não houver uma alternativa de mudança. Nem todos os bandidos serão presos e a força da inércia pode trazê-los de novo ao topo da cadeia alimentar. Eles comem, anualmente, cerca de dois por cento do PIB.

Por que mantê-los, sobretudo agora que estão se desintegrando? O preço do silêncio e da indiferença pode nos levar a perder uma nova chance de tirar o Brasil do buraco.

Paisagem brasileira

Arredores de Itupeva, Antônio Augustinho da Costa 

O barato da corrupção

Imagem relacionadaEstávamos em êxtase. Nos nossos aniversários, era tanta gente, tantos presentes, que distribuíamos entre os empregados do nosso prédio sem nem abrir os pacotes
Adriana Ancelmo, sobre viver em esquemas de corrupção

Temer pede à Câmara que suspenda os pudores

O traço mais vivo da gestão semimorta de Michel Temer é a tendência para o ineditismo. A partir desta semana, o brasileiro passa a conviver com uma anomalia jamais vista na sua vasta história de anormalidades: um presidente da República formalmente denunciado por corrupção. Em qualquer outro lugar do mundo, o fato produziria consequências gravíssimas. No Brasil, o governo esclarece que o anômalo é a nova normalidade. E segue em frente.

A caminho do caos, Temer atingiu o ápice da eficiência: ele mesmo violou as leis, ele mesmo forneceu a matéria-prima para sua delação, ele mesmo articula o sepultamento da denúncia da Procuradoria-Geral da República na Câmara. Para livrar-se da abertura de uma ação penal no Supremo Tribunal Federal, o presidente precisa ter do seu lado pelo menos 172 deputados. O Planalto estima que a milícia parlamentar de Temer ainda reúne algo como 240 cabeças.


O procurador-geral da República Rodrigo Janot revela-se convicto de que o presidente cometeu o crime de corrupção. Sua denúncia, como manda a Constituição, será remetida pelo Supremo Tribunal Federal à Câmara. Se o Brasil fosse um país lógico, os deputados representariam os interesses dos seus eleitores. E forneceriam os 342 votos necessários para autorizar a Suprema Corte a decidir se Temer deve ou não ser acomodado no banco dos réus.

Entretanto, uma das primeiras vítimas dos novíssimos tempos é semântica. O lógico virou apenas um outro nome para o ilógico. Quando chamam de normal uma conjuntura que condiciona a abertura de uma ação penal por corrupção ao aval de uma Câmara apinhada de corruptos, o brasileiro sabe que está numa crise de significado ou numa roda de cínicos.

Servindo-se das evidências que Temer lhe forneceu ao receber no escurinho do Jaburu o delator Joesley Batista, o procurador-geral gruda o presidente à figura de Rodrigo Rocha Loures, o homem da mala. Janot realça uma passagem da gravação que converteu Temer em escândalo. Nela, Joesley, o “notório bandido”, pede ao presidente um interlocutor para tratar dos interesses de sua empresa no governo. E Temer indica Rocha Loures —filmado depois recebendo propina de R$ 500 mil.

Pilhado, Temer alegou ter indicado Rocha Loures apenas para se livrar de Joesley. Disse também que o assessor da mala, é um homem “de boa índole, de muito boa índole.” De vez em quando, as evidências gritam tão alto que é impossível não reagir. Mas Temer aproveita que um pedaço da Câmara também apodreceu para lançar mão de um velho lema mosqueteiro: ‘Um por todos, todos por hummm…” O presidente pede aos deputados que deixem tudo pra lá em nome da cumplicidade carinhosa que sempre assegurou a autodefesa do sistema.

O Datafolha informou no final de semana que o eleitorado está de saco cheio. A popularidade de Temer encontra-se rente ao chão: 7%. Dois em cada três brasileiros gostariam de ver o presidente pelas costas. Mas um pedaço da Câmara se dispõe a mergulhar numa fase de cochilo deliberado. Recompensados pelo Planalto com cargos e verbas, os deputados fornecerão a Temer o que ele deseja: uma suspensão tácita dos pudores morais.

Presidente da República denunciado por corrupção é uma aberração. Mas todos os integrantes da milícia parlamentar do governo combinaram não notar. Pelo menos por enquanto.

Dois mundos

A vida pública no Brasil degenerou a tal ponto que ficou criada a seguinte situação: os sócios-proprietários do governo, divididos em bandos rivais que tentam se exterminar uns aos outros, perderam a capacidade de tomar qualquer decisão certa, seja ela qual for. Só conseguem errar. Um lado aposta “par”, o outro lado aposta “ímpar” e os dois perdem — é aonde chegamos, pela ação das facções que mandam hoje no país e passaram a acreditar, nos últimos anos, que podem salvar os seus interesses políticos e materiais dedicando-se a uma campanha permanente de suicídio. Há 14 milhões de brasileiros desempregados, levando uma vida de tormento silencioso e diário, enquanto os donos do aparelho de governo fazem tudo o que podem para manter o mundo da produção paralisado e sem oportunidades. O Brasil chegou aos 60 000 homicídios por ano — e responde por 10% de todos os assassinatos cometidos no mundo. Não há esgotos. Mas os barões, duques e arquiduques que controlam as decisões públicas se matam para ganhar seus joguinhos nos tribunais e em outros terreiros de disputa. Estão cegos.


Poucas vezes a degradação que criaram no país ficou tão clara quanto no desvairado “julgamento” do presidente Michel Temer, dias atrás, pela aberração conhecida como “Tribunal Superior Eleitoral”. De um lado, é mais do que sabido, pela exposição dos fatos, que em 2014 a ex-presidente Dilma Rousseff fez a campanha mais corrompida, fraudada e criminosa na história das eleições brasileiras, levando-se em conta a estonteante quantidade de delitos cometidos para mantê-la no cargo. É impossível, também, fazer de conta que o atual presidente, na condição de seu vice, não foi um beneficiário direto da trapaça — simplesmente ganhou a Presidência da República quando Dilma foi despejada do posto por fraude contábil, depois de um governo corrupto, trapaceiro e inepto. As provas dos crimes são indiscutíveis, e até os ministros do TSE concordam que a campanha foi paga com dinheiro roubado. Mas decidiram que Michel Temer deve continuar no cargo, porque em seu entender as provas contra a chapa vencedora, embora reais e concretas, não são válidas. Quer dizer: valem, mas na hora em que foram apresentadas não estavam mais valendo, pois apenas nossos cientistas jurídicos sabem que uma banana, hoje, pode ser uma laranja amanhã.

De outro lado, é um completo disparate achar que sete nulidades, que jamais foram eleitas nem para inspetor de quarteirão, possam decidir se o presidente da República fica ou não no cargo. Quem o coloca lá é o eleitorado. Quem tem o direito de tirá-lo é o Congresso Nacional, e não o senhor Benjamin ou o senhor Gilmar, o senhor Napoleão ou dona Rosa, e outros gigantes do mesmo porte. Quem é essa gente? Por que fazer um processo judicial que se arrasta por anos, se os juízes decidem que as provas não servem para nada e se não têm a mínima condição lógica para depor o presidente da República? Seja lá o que façam, não podem acertar. Apesar dessa insanidade geral, a desordem continua. O procurador-geral da República, agora, quer tirar Temer por “obstrução da Justiça” e outros crimes, sabendo muito bem que a Câmara dos Deputados não vai aceitar sua denúncia. A Câmara, por seu lado, ameaça chamar o procurador para explicar por que, em sociedade com um ministro do Supremo Tribunal Federal, perdoou sem nenhum processo judicial aos autores confessos de uma das mais delirantes operações de corrupção de toda a história brasileira.

A reação popular à “absolvição” do presidente foi a mais humilhante indiferença — a melhor resposta, possivelmente, para os que são donos do governo, da máquina pública e do Tesouro Nacional. Trata-se dessa aglomeração de políticos, magistrados, procuradores, lobistas, chefes de gangues partidárias, acionistas do Erário e todos os demais parasitas que desfilam pelo noticiário. Fingem que estão ocupadíssimos na solução das mais graves questões da vida nacional. Sabem perfeitamente que no Brasil há problemas de dois tipos — os problemas deles e os problemas da população, e que esses dois mundos jamais se tocam. Quanto tempo vai durar o mandato de Temer? Como acordou hoje o senador Calheiros — contra as reformas, a favor das reformas? O PSDB vai ficar no governo, sair ou ficar e sair ao mesmo tempo? Qual o último chilique do ministro fulano do STF, ou do STJ, do TSE ou de onde for? Lula é um líder nacional ou um futuro presidiário? Enquanto isso, como diria o deputado Justo Veríssimo, os desempregados que se explodam.

Gente fora do mapa

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Delta do Mekong (Vietnã)
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A busca da verdade

A recusa do mundo sempre foi um clássico na filosofia. Talvez os mais famosos nisso tenham sido os estoicos romanos, como Marco Aurélio (121-180) e Sêneca (4 a.C. - 65 d.C.). Um imperador, outro senador, gente de posses, como dizia minha avó. Se gente de posses diz que o mundo é uma farsa, há algo de verdade nisso. Uma das maiores razões para se recusar o mundo sempre foi a ideia que ele era o lugar da mentira.

Várias espiritualidades pregam essa recusa do mundo. Das mais profundas até aquelas que no lugar do mundo recusado colocam viver fazendo geleia em Gonçalves. A moçada que recusa o mundo hoje não abre mão do wi-fi. O mundo pode ser o lugar da mentira, mas o wi-fi é, seguramente, o lugar da vida. Você pode ser um “monge contemporâneo” que se comunica via mídias sociais. Antão (251 - 356) e Pacômio (292 - 348), que ruminavam trechos dos Salmos nos desertos do Egito, jamais imaginariam uma vida de monge assim.

Mas o mundo como lugar da mentira é mesmo uma questão muito séria em filosofia. Se num vilarejo onde moram dez pessoas pode ser difícil se saber o que é a verdade, como podemos falar em buscar a verdade num mundo com 7 bilhões de Sapiens ligados nas mídias sociais? Sei que nem todo mundo tem boa internet no mundo, mas isso vai mudar com o tempo.

Timothy Snyder, em seu excelente e didático “Sobre Tirania” (Companhia das Letras), chama-nos a atenção para o risco de abdicarmos da verdade, entre outras formas de risco da tirania dissolver a democracia. Jamais devemos abdicar de conhecer os fatos: “investigue”, diz ele. Concordo.

Mas, em nosso mundo contemporâneo, “buscar os fatos” é, sempre, em si, um fato mediado. Isto é, temos de confiar em alguma instituição (ele também diz que devemos defender as instituições), seja ela o governo e seus Poderes da República, seja ela a mídia (as grandes marcas, quero dizer), seja ela uma ONG, uma igreja, ou qualquer outra instituição. E aqui o problema se recoloca. Por que devo confiar nas instituições que se oferecem como mediadoras da verdade ou dos fatos?

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Grande parte dos agentes atuantes nas mídias sociais (nome chique para todo mundo ligado nelas) vê sua atuação como forma de “resistência” à manipulação dos “fatos” pela grande mídia ou pelas instituições públicas, ou, no mínimo, o que dá na mesma, como forma de “liberdade de opinião”.

A grande mídia, por sua vez, coloca na conta das mídias sociais grande parte do problema conhecido como “pós-verdade”: todo mundo pode veicular o que quiser em suas mídias sociais, mesmo mentiras. Este é um círculo vicioso interminável que aponta, entre outras coisas, para o seguinte: as mídias sociais pressionam as instituições constituídas (do governo à grande mídia, das escolas às igrejas) de forma desconhecida até hoje.

A “soma total” desse impacto ainda é desconhecida por nós. Do ponto de vista da percepção que temos das instituições políticas representativas existentes, as mídias sociais podem, em alguma momento, desconstruí-las ou redefini-las de forma ainda desconhecida por nós. Portanto, o risco da tirania (dissolução da democracia) nesse aspecto de busca da verdade e defesa das instituições pode ser “pior” do que pensa Snyder.

Faça um teste local: caso Joesley x Temer. Delação, vídeos, entrevista na revista “Época”, GloboNews (ambos veículos da TV Globo). O que você acha? É tudo verdade o que diz Joesley? O Ministério Público e a Procuradoria-Geral da Republica agiram de forma imparcial? O grupo Globo só quer informar você da melhor forma possível? Ou todos citados anteriormente (por “n” razões que nunca saberemos de fato) querem proteger de alguma forma o PT e o Lula? Ou querem apenas “ferir” o governo Temer? Ou é apenas “melação com a delação”?

A súbita divulgação dos primeiros vídeos após depoimento do Lula foram coincidência ou visava levar a opinião pública a esquecer o “case Lula”? O fato de a JBS ter crescido tanto na era PT é indicativo de que esta hipótese tem validade? Crer nesta hipótese é paranoia, postura crítica ou viés ideológico anti-PT? O que diz o Face?

Embolou geral

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Não se identifica quem é de que lado, não se sabe direito o que se quer, exceto o repúdio pela política. Este é o nosso principal conflito
José Serra (PSDB-SP)

O que você espera da segunda metade? Révélé

Pois é. Já acabou, passaram-se os primeiros seis meses de 2017, acredita? Sei que acredita porque deve estar igual a mim, se tinha depositado tantas esperanças de que as coisas iam melhorar, isso e aquilo, que voltaríamos a olhar pra a frente, que seria legal, iríamos tirar o pé da lama. Vamos tentar de novo para os próximos seis meses?


Não pulei sete ondinhas, porque não deu. Quando o ano virou eu estava aqui na cidade numa situação bem esquisita, hospital, família, você sabe se me acompanha. Mas à meia-noite projetei bons pensamentos, acreditei até em milagre; como era horário de verão, por via das dúvidas, repeti tudo de novo à uma hora da manhã. Acompanhei fogos coloridos da janela, vi pela tevê um monte de gente jogando astral para cima, de branquinho, fazendo promessas, jurando o velho amor eterno.


Temo que a gente não tenha se concentrado direito, porque nada rolou exatamente como gostaríamos. O milagre não rolou. O eterno não existe. A coisa toda está inclusive até mais enroscadinha: a situação do país tiririca, aquele que pior fica. E especialmente porque não temos nada / ninguém que preste para tapar o buraco.

Da próxima, precisamos ficar mais juntos, mais abertos às boas energias. Quem sabe se, sei lá, déssemos as mãos? Juntos, em todo o país. Então, estou propondo que a gente tente agora, para fazer, algo, dia 30 de junho, para 1º de julho – a Grande Comemoração do Réveillon do Segundo Semestre. Imagina você que fui procurar no Google e a única pessoa que falou sobre isso que eles registram sou … eu! Mais: se procurar entre aspas, as citações mandam só para mim, em locais de todo o país onde sou publicada.

(Confesso: a palavra foderaizer – “ligar o foderaizer”- , que também uso de vez em quando e que todo mundo entende, é só minha lá no Google. Não é fácil isso com tanta gente nesse mundo, veja bem. Marli Gonçalves, criando moda, expressões! Devia ganhar alguma coisa).

Réveillon tem origem no verbo réveiller; em francês, e quer dizer “acordar” ou “despertar”; “reanimar”. Perfeito. Tudo que precisamos agora. Nos reanimarmos. Para ir às ruas, mudar as coisas, batalhar para que parem essa cantilena que não aguentamos mais e que tanto tem nos prejudicado. Concentrem-se.

É. Sei o quanto de coisas temos a pedir. Comecei a fazer uma lista aqui e me impressionei, fiquei até cansada de tantas providências que deveria tomar que me passaram na cabeça. Tantas mágoas a esquecer. Tantas resoluções que infelizmente já sei que não vou conseguir seguir porque são aquelas que aparecem em todas as listas há anos. Parar de amar quem não me merece. Esquecer a desatenção e embrulhar o orgulho. Parar de prestar tanta atenção no ao redor. Parar de tentar salvar o mundo. E torcer para que me descubram – sucesso.

Os pensamentos coletivos, se nos esforçarmos, podem ser mais exatos, caprichados: que acabe o desemprego, que os juros abaixem, que tomem vergonha na cara, que parem de agir como piratas saqueadores. Que a arte nos encante novamente. Que parem de querer se meter nas nossas vidas, legislando sobre os nossos corpos e mentes, que deles sabemos nós. E como sabemos se somos nós, as mulheres!

Temos mais seis meses para chamar de nossos em 2017. Chegamos aqui, nem dá pra reclamar tanto, embora estejamos meio avariados. Nesses que passaram tomei várias mordidas, tropecei em muitas calçadas, pisei em poças. Mas estou aí e também vi dias lindos, conheci a solidariedade em momento de dor, aprendi um pouco mais o sobre o que é ser amigo, sobre como é bom não ter do que se arrepender por não ter feito ou tentado, porque fiz e tentei.

Pronto, está vendo? Dá para fazer igual ao fim do ano quando a gente fica fazendo balanço e inventário. Vamos lá. Que o segundo semestre seja um novo despertar.
Marli Gonçalves

Amargo regresso

Esqueçamos a Federação Russa, um dos lugares mais corruptos do planeta. O que Michel Temer foi fazer na Noruega, o país mais honesto do mundo junto com seus vizinhos escandinavos?

Foi levar uma carraspana da primeira-ministra, preocupada com os destinos da Lava Jato? Foi ouvir o anúncio do governo norueguês de que cortaria parte do dinheiro investido na preservação da devastada floresta amazônica?

Ou Temer foi para se reunir, como disse, com o Rei da Suécia que não mora na Noruega?

Ou como parece mais certo, Temer foi para fugir da crise política que o ameaça desde que se soube do seu encontro no porão do Palácio do Jaburu com o empresário Joesley Batista, dono do Grupo JBS, provedor de campanhas eleitorais do PMDB?

Pode ter tentado fugir da crise, mas ela não fugiu dele. Carrega seu nome.

Triste regresso. Hoje ou amanhã, a Procuradoria-Geral da República denunciará Temer por crime de corrupção passiva, Mais tarde por crime de obstrução da Justiça. Em seguida, por organização criminosa.

Temer entrará para a História por ter sido o primeiro presidente da República investigado e denunciado por corrupção. Para salvar-se, se agarrará a um Congresso povoado de bandidos.

Dava-se como provável no início da semana passada o arquivamento pelo Congresso das denúncias contra Temer. Mas como desde então os fatos só agravaram a situação dele, e como novos fatos estão por vir, ninguém mais se arrisca no Congresso ou fora dali a fazer previsões.

O cenário mais favorável a Temer – e o pior para o país – seria o de ele vagar como um fantasma até concluir seu mandato. Adeus reformas!

Elas foram e continuarão a ser desidratadas à medida que Temer mais se enfraqueça como seus aliados receiam. A da Previdência se resumirá à fixação de uma idade mínima para aposentadorias, o que de toda forma representaria um ganho.

Se antes, a exemplo da ex-presidente Dilma no seu segundo governo, Temer só comparecia a eventos fechados ao distinto público, daqui para frente tomará ainda mais cuidado.

Temos um presidente interditado como o anterior, ostensivamente rejeitado pela larga maioria dos brasileiros como conferiu a mais recente pesquisa de opinião do instituto Datafolha.

Sua aprovação de apenas 7% é a menor de um presidente nos últimos 28 anos. Seu governo é avaliado como ruim ou péssimo por 69% dos entrevistados, um recorde. E 65% acham que sua saída seria o melhor para o Brasil.

Quase 80% defendem a renúncia de Temer. Pouco mais de 80% são a favor da abertura de um processo de impeachment para tirá-lo do cargo. Se ele renunciasse ou fosse derrubado, um novo presidente deveria ser eleito pela população, segundo 83% dos consultados pelo Datafolha.

Em abril último, 58% diziam não confiar na presidência da República. Agora, 65%. Desconfiança maior só merecem os partidos – 69%.

Apesar disso, não haverá solução fora da política. Sim, com esses mesmos políticos e com esses mesmos partidos de hoje até que se produza nas eleições gerais do próximo ano uma desejável e radical mudança no sistema apodrecido que temos.

Por ora, políticos e partidos ainda preferem manter Temer onde está – o PT, por exemplo, para que a crise se aprofunde e ele possa se recuperar. Quanto ao PSDB...

O partido mais atrelado aos interesses dos grandes grupos econômicos e financeiros espera a ordem dos patrões para decidir o que fazer.

domingo, 25 de junho de 2017

Cadê o povo?

Com quantos poderes se faz a República? Constitucionalmente falando, a gente aprende que são três: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. E na prática? Bom, aí “vareia”, como diria, inspirado no humor de Didi Mocó, o povo (do qual, segundo ensina a nossa Carta, emana o poder). Numa conjuntura em que o Legislativo, desmoralizado, corrompido, vem perdendo o que resta de sua representatividade; e na qual o Executivo, sub judice, opera num bunker — o povo, impedido de exercê-lo através de seus eleitos, deveria constituir um poder à parte. E, como assegura seu direito constitucional à manifestação e ao protesto, ir às ruas exigir as devidas providências.

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Como o povo, por um motivo difícil de avaliar, encontra-se em estado de hibernação cívica diante dos fatos assustadores que vêm à tona em velocidade de tempo real, fica o Judiciário (aquele poder que é alçado por vias indiretas emanadas do processo democrático), em perigosa distorção, com a tarefa não só de zelar pela Constituição, mas de intervir a toque de caixa, numa arena de luta livre contra as forças do Executivo e do Legislativo, empenhadas em manter seu status quo.

Haverá sempre quem diga que a mídia é o quarto poder. São pessoas que, ou se esquecem de como é viver sem imprensa, ou que nunca aturaram estados de exceção. Tradicional, alternativa ou mesmo individual, é a mídia, em que pesem seus acertos e erros, naturais de qualquer atividade humana, que assegura a circulação de informação e a possibilidade de se refletir sobre os fatos. Sem informação e debate, a democracia é sequestrada e se começa a evocar o poder dos tanques, outrora único e despótico.

Não se deve esquecer do poder do capital, que está, por sinal, no centro do grande disparate em que nos encontramos, pela simbiose que se criou entre seus interesses e os do Estado.

Considerando que cada poder, constitucional ou dinamicamente constituído, está aí no seu quadrado no xadrez da República conflagrada, pergunto: onde é que está o povo? O que foi feito da sociedade civil? Como se explica, por exemplo, que se tenham enchido as avenidas das capitais às vésperas do impeachment de Dilma Rousseff, no maior protesto da História do país, e que, agora, as ruas estejam vazias de cidadãos indignados com o que se passa?

Vamos analisar. A popularidade de Michel Temer é similar ou menor que a da então presidente. Sobre ele pesam as mais graves acusações, calcadas em evidências cada vez mais aviltantes, e o grupo político ficha suja que o apoia é de dar calafrios. A base que insiste em sustentá-lo nas casas do Congresso promove um espetáculo vergonhoso. A Lava-Jato, tão incensada pelas ruas, é metralhada diariamente em ações capazes de unir PT, PMDB, PSDB e parte do próprio Judiciário numa contraforça-tarefa. A recessão persiste, sendo que os tímidos sinais de melhora não surtem qualquer efeito no bolso do cidadão.

As reformas estão claudicando sob força da crise entre poderes e da recusa do presidente investigado em considerar o tal gesto de grandeza enfim exigido pela voz rouca de FH. Neste panorama, e tendo-se em conta as proteções constitucionais das quais indivíduos com cargos eletivos desfrutam, sem uma palinha do povo Temer é capaz de ficar, sim, até 2018, não importa o quanto o intrépido Janot, empenhado em seu sprint final, venha a fatiar as acusações.

Por que o povo está inerte? Aguarda a carta na manga definitiva? Espera, diante das páginas, da TV, do computador, do celular, que as coisas cheguem a um nível de escárnio e teimosia que destravem a fúria represada e pranteada no silêncio do lar? Anseia que tropas aliadas russas cheguem ao Planalto e que os americanos desembarquem em Ipanema? Espera que Temer dê uma banana para o público, às gargalhadas, em rede nacional, ladeado por Aécio, Lula e algum juiz garantista?

Qual a diferença entre quem foi às ruas exigir a deposição de Dilma e quem está em casa agora, sem dar um pio? Ora, não era o povo, naquela ocasião? Onde está a coerência postural das forças que organizaram aqueles movimentos? O curioso é que até as Centrais estão pianinho. Será que durante todo esse tempo, quem foi às praças em ocasiões muito precisas eram agentes alienígenas de forças ocultas? Precisaremos de um espectro de Jânio Quadros, trazendo uma hipótese maluca para explicar o imobilismo? A voz rouca, de repente, ficou afônica, atingida por ventos encanados machadianos trazidos pela fúria invernal?

Ou será que, simplesmente, o povo está cansado de guerra, ou de não ir à guerra, de levar na cabeça as consequências de suas escolhas, devoto da tese de que, ajoelhou, tem que rezar, e agora aguarda que um novo salvador da pátria, ou um destruidor definitivo, um pastor, um monstro racista, militarista e homofóbico, um führer canarinho, se apresente às urnas?

O que foi feito, afinal, do povo?

Arnaldo Bloch