domingo, 15 de janeiro de 2017

Só se nós fizermos...

“Feliz Ano Novo! Depois desse horrível 2016...’’ Foi o que mais se ouviu na passagem de datas. Pois sim... Deu o dia 1º, e o chamado Estado Islâmico matou 39 pessoas em Istambul. — Começo ruim, mas quem sabe... — No mesmo dia, rebelião no presídio de Manaus matou mais de 60 detentos. Bastou? Nada. No dia 6, outro levante, esse em Rondônia, deixou mais 33 decapitados. Sim, decapitados. Nas duas penitenciárias a selvageria se arrematou com a decapitação dos vencidos. — Briga entre grupos criminosos, disseram. Um pavoroso acidente, foi a fala presidencial, depois de um longo silêncio. A isso chegou a banalidade na percepção do mal. Um secretário do governo federal não se envergonhou de afirmar que uma limpa dessas devia ocorrer toda semana. E o diretor da penitenciária de Manaus pontificou que ali ninguém era santo. — Mas foram os próprios detentos que praticaram essa barbaridade, dizem os apressados da vida. — Mas estavam sob a guarda do Estado. — Mas a gestão era privada. — Ah, bom, então... — Que começo de ano!

Istambul já foi Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente. E, antes, Bizâncio, centro da cultura grega depois de Atenas. Fica montada sobre dois continentes. É Ásia por um lado, atravessa-se uma ponte e já se está na Europa. Há ali esse simbolismo. A ponte é um traço de união para quando o Ocidente e o Oriente puderem não mais se estranhar. O EI terá tido essa intenção? Que depois do Bataclan e dos bares de Paris, há pouco mais de um ano, agora estaria na hora de avançar sobre quem dança entre o Leste e o Oeste do mundo? Foi mesmo igual. Jovens se divertiam, bebiam e dançavam, cantavam e estavam felizes — e, depois, não mais. Depois, corpos e sangue. E silêncio. Não era novidade, já tinha ocorrido na capital da França. O choque então foi imenso. Paris ainda é o centro do mundo. Istambul não é mais. Menos manchetes, menos manifestos. Mas o mesmo pavor. O mesmo perpetrador. O terror do Estado Islâmico vai chegando ao Oriente. Está mais perto de casa. Deve ter um sentido esse movimento. Não o compreendemos. Resta-nos o espanto da repetição. Daqui a pouco, nem isso. Repetição é rotina. Um dia apenas constataremos: aconteceu de novo. Deus nos livre da rotina na percepção do mal.
Charge O Tempo 14.1.2016
O Estado Islâmico entrou no mapa da barbárie com as imagens espantosas das decapitações. O soldado imponente, a vítima de joelhos, a lâmina suspensa. E a imagem nas redes. Foi uma novidade. Em Manaus, já não mais. Uma facção decapita a outra, exibe as cabeças e os facões, faz fotos e selfies. E põe na rede. Uma parte do país se revolta. Menos de metade. Para os outros, o diretor do presídio tem razão: não há santos ali. Se quiserem se entredestruir, é um favor que fazem. — A quem? — A nós, os bons. O Ano Novo começou assim.

A resposta das autoridades é macha, enérgica: mais presídios! É guerra! Domingo passado um caminhão em Jerusalém repetiu a manobra assassina de julho em Nice e lançou-se sobre civis inocentes. Com requintes: deu marcha a ré sobre os corpos para se assegurar do seu sucesso. De novo, a barbárie solta, o Terror. O Terror, não temamos a palavra. Os terroristas. — A reação veio rápida: intensificação dos ataques aos palestinos. O diretor de Manaus talvez rejubilasse: entre eles, não há santos.

Há, às vezes, um certo pudor entre nós em dizer que é o Terror, hoje, o inimigo global. Ainda é recente a memória de quando todos que nos opúnhamos às ditaduras da América Latina éramos chamados de terroristas. Mas não tenhamos receio em dizer que no mundo globalizado o Terror é o inimigo global. Não tem limites nem fronteiras. Nem alvos, muitas vezes. Atira onde der, acerta em quem pegar. Seu alvo é a vida. Para distribuir mãos cheias de medo. Terrível semeadura! Não colhamos seus frutos. Mas não nos enganemos: o medo global é o objetivo do Terror. Não tenhamos medo.

É bem perto de nós que temos a fome pandêmica. As meninas proibidas de estudar. As violências e segregações. Os corpos martirizados das mulheres. A repressão aos amores fora da cartilha. As navegações da morte sem porto. As guerras sem sentido e sem fim. A violência dos Estados. O ressurgimento da extrema direita. — Todas essas são doenças que andam por perto. Têm vítimas e responsáveis. Nós os conhecemos. O Terror, a despeito de todo o seu poder, paira acima delas, acima da vida desgraçada do abandono e da desesperança. Vamos cuidar dessas, as de perto. Não vivemos ‘‘no global’’. Nossas vidas são sempre locais, encarnadas. Viver onde nossas vidas realmente se passam, maciamente, olhando para nossos companheiros de caminho, tantos estraçalhados, pode ser uma boa estratégia. Viver. Tirar o oxigênio do Terror. Não ceder a ele no concreto das nossas existências.

O ano de 2017 não começou bem. Mas não precisa estar condenado a repetir a rotina do Mal
.
Marcio Tavares D’amaral

Nenhum comentário:

Postar um comentário